Macau, a porta que ficou aberta

Quase duas décadas depois da transição de administração, Macau emerge como plataforma para as relações sino-lusófonas. Fórum Macau estimulou interesse pela língua portuguesa.

Jacky Lee tinha apenas 6 anos quando a bandeira portuguesa foi substituída pela da República Popular da China, nos primeiros segundos do dia 20 de dezembro de 1999. Abria-se um novo capítulo na história de Macau, após mais de 400 anos de administração portuguesa. Contudo, esse momento não resultou num desaparecimento da presença lusófona na então recém-criada região administrativa especial. O português mantinha-se como língua oficial - a par do chinês - e, em 2003, o governo central criou o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os países de língua portuguesa (Fórum Macau). Lee já tinha ouvido falar da importância do português na cidade, mas foi aos 16 anos que deu o passo que mudou a sua vida: inscreveu-se no curso noturno de língua portuguesa no Instituto Português do Oriente (IPOR). Um par de anos depois estava em Lisboa para um curso intensivo de português e iniciar a licenciatura em Direito na Universidade de Lisboa. "Macau aplica o sistema jurídico de raiz portuguesa conforme o princípio Um País, Dois Sistemas e considerei que estudar em Portugal iria reforçar as minhas competências no futuro", explica Lee, natural de Macau de etnia chinesa, ao Diário de Notícias. E foi isso que aconteceu. Prosseguiu os estudos, desta vez em Coimbra, num mestrado em Relações Internacionais, e tem estado ativo na área de tradução e promoção de cooperações comerciais e económicas envolvendo marcas portuguesas e chinesas. Para já, aos 25 anos, Jacky Lee planeia permanecer em Portugal nesta fase da sua carreira.

Calvin Chui tem um percurso semelhante. Também começou por seguir a via de ensino em chinês antes de rumar ao Ocidente. Primeiro Estados Unidos, para completar o ensino secundário; depois Lisboa, para estudar Português e Direito na Universidade Católica. Na capital portuguesa, Chui, primo do atual chefe do executivo de Macau, Fernando Chui Sai On, fundou a Associação de Estudantes Luso-Macaense, juntando as várias dezenas de jovens de Macau a estudar em Portugal. "Aprender Direito em Portugal permite compreender a cultura jurídica e praticar a língua portuguesa num contexto de imersão", salienta, ao mesmo tempo que garante que das cidades em que já viveu - incluindo duas nos Estados Unidos - "excetuando Macau, Lisboa é a favorita".

Contrariamente a Jacky Lee, Calvin Chui, 27 anos, regressou a Macau, onde está a realizar um estágio de advocacia num dos principais escritórios de advogados da cidade.

Português está na moda

Atualmente estudam no ensino superior em Portugal cerca de duas centenas de jovens de Macau, com destaque para os cursos de Direito e Línguas. As bolsas de estudo para estudar em Portugal têm aumentado nos últimos anos, em linha com o reforço na aposta da formação de quadros bilingues (que dominem chinês e português). Essa tendência verifica-se sobremaneira também em Macau com a subida do número de chineses locais e da China continental a aprender português quer no IPOR quer nas escolas onde a oferta do português tem aumentado. Por outro lado, a Escola Portuguesa de Macau conheceu recentemente um aumento significativo do número de alunos de famílias chinesas a optarem pela via de ensino e currículo português.

O Instituto Politécnico de Macau (IPM) tem tido também um papel liderante na formação de tradutores e especialistas nas culturas lusófonas ao longo destas duas décadas. Mais recentemente, a Universidade Macau (UM) também reforçou a aposta nesta área. Rui Martins, vice-reitor da UM desde antes da transferência de administração de Macau, realça que a realidade acabou por superar as melhores expectativas. "Após um período crítico entre 1999 e 2003, com a criação do Fórum, as coisas mudaram completamente, a ponto de o programa de Direito em português nunca ter tido tantos alunos como agora", diz Rui Martins, chamando a atenção também para a explosão da procura de cursos de Português não apenas em Macau como na China continental. Ao passo que há 20 anos havia apenas duas universidades chinesas a oferecer programas de português, agora são cerca de 30 as instituições a fazê-lo. Ao nível da cooperação, quer o IPM quer a UM firmaram vários acordos de cooperação e programas conjuntos com instituições de ensino superior de Portugal e de outros países lusófonos.

A presença portuguesa também se reflete nos meios de comunicação social. Além dos canais de rádio e televisão em português da Teledifusão de Macau (TDM), são publicados três jornais diários em língua portuguesa (Jornal Tribuna de Macau, Ponto Final e Hoje Macau), um semanário bilingue (Plataforma Macau) e o semanário católico O Clarim. A Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM) conta atualmente com cerca de 90 sócios, 65 dos quais são jornalistas portugueses.

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