Há zonas do mundo onde já pode existir imunidade de grupo para o coronavírus

Investigador português na Universidade de Oxford, José Lourenço fez estudos epidemiológicos com modelos computacionais e concluiu que a imunidade cruzada por infeções com outros coronavírus, a confirmar-se, pode ajudar a gerir a pandemia no próximo inverno.

Quando, em março, as coisas começaram a complicar-se na Europa por causa da covid-19, José Lourenço, cientista e professor na Universidade de Oxford, no Reino Unido, não teve dúvidas. Especialista em modelos computacionais aplicados à epidemiologia e ao estudo e previsão do comportamento de vírus, o investigador português percebeu que podia dar um contributo no caso do Sars-cov-2. E agora tem novidades para contar, que poderão fazer a diferença no controlo de novas vagas de covid-19.

"Faço simulação computacional, que permite dar apoio à decisão em saúde, e pareceu-me óbvio que tinha de o fazer, numa altura em que no Reino Unido as coisas não estavam a correr muito bem", conta ao DN.

No país onde trabalha como investigador há mais de uma década debatia-se então a ideia de deixar infetar a população para se atingir mais rapidamente a imunidade de grupo, que ajudaria a a travar naturalmente a pandemia. Mas não correu bem. O Reino Unido acabou por fazer um confinamento tardio, e tem hoje o mais pesado saldo de mortalidade da Europa causado pela doença - 46.119 até esta sexta-feira.

Nos últimos cinco meses, e até à semana passada, quando voltou aos projetos entretanto interrompidos sobre outros vírus, José Lourenço mergulhou no estudo do Sars-cov-2 e da covid-19.

Os resultados a que chegou têm a ver com um dos problemas centrais desta pandemia para os próximos tempos, que é o da imunidade de grupo para o novo coronavírus - atingida a imunidade de grupo numa população, o contágio epidémico cessa. E uma das suas conclusões é quase surpreendente: em algumas regiões do mundo, como certas zonas de Itália ou alguns bairros de Nova Iorque que foram mais duramente atingidos pela primeira vaga da covid-19, a imunidade de grupo poderá já estar muito próxima do limiar necessário para diminuir muito o impacto de uma eventual segunda onda da pandemia.

Trocado por miúdos, nessas regiões, a ocorrer um novo surto, ele tenderia para o autocontrolo por falta de pessoas em número suficiente para manter o contágio ativo. Em teoria, alguns bairros de Madrid poderiam já estar também nesta situação. Mas, como sublinha o investigador, "não há estudos serológicos que permitam confirmá-lo".
Imunidade cruzada

Para chegar a estes resultados, que já estão disponíveis na plataforma online medRvix, ainda sem revisão científica - o artigo foi submetido para publicação a uma revista da especialidade e está em fase de revisão -, José Lourenço e a sua equipa desenvolveram um modelo computacional complexo para poderem incluir na avaliação o papel da chamada imunidade cruzada para a construção da imunidade de grupo.

"Há estudos de imunologia que sugerem a existência de uma imunidade natural para o Sars-cov-2 em muitas pessoas, que resulta da imunidade que já existe para os quatro coronavírus que causam constipações e gripes comuns - é a imunidade cruzada" explica José Lourenço.

Os modelos epidemiológicos clássicos estimam que para travar a progressão do contágio do Sars-cov-2 é necessário que uma parcela elevada da população, entre 60 a 80 por cento, fique imunizada, quer por ter sido infetada, quer por vacinação. No entanto, os estudos da epidemiologista portuguesa Gabriela Gomes, professora e investigadora da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, no Reino Unido, apontam para valores bem mais baixos do que aqueles.

Nos seus modelos, Gabriela Gomes inclui mais variáveis, como a da diversidade populacional, e os seus resultados sugerem que a imunidade de grupo para o Sars-cov-2 poderá ser atingida apenas com cerca de 30% da população imunizada - isso faria toda a diferença. Agora, as conclusões do grupo de José Lourenço vão no mesmo sentido.

"Os nossos estudos confirmam os resultados obtidos pela equipa de Gabriela Gomes", sublinha José Lourenço, que há mais de uma década chegou a trabalhar com aquela investigadora no Instituto Gulbenkian de Ciência, quando ali iniciou um doutoramento que acabou por conduzi-lo a Oxford.

"Fizemos simulações considerando diferentes percentagens da população com imunidade cruzada e verificámos que basta que uma proporção pequena, entre 10% e 20%, tenha essa imunidade cruzada para que a imunidade de grupo para a covid-19 se atinja com 20% a 30% da população imunizada para o coronavírus".

É por isso que as regiões que foram mais fustigadas pela primeira vaga poderão estar já nesse limiar, ou muito próximo dele.

"Isso não significa que não haverá uma segunda vaga, mas que nessas regiões ela acabará por ser autocontrolada", frisa José Lourenço.

Já em Portugal uma segunda vaga poderá ter grande impacto. Aqui, o confinamento feito no momento certo impediu que ocorressem situações idênticas às de Itália, Espanha ou Reino Unido, mas a outra face da moeda é a que a imunidade de grupo é por cá ainda uma realidade longínqua.

"Poderemos ter em Portugal várias pequenas ondas ou - e espero que não - uma maior, à escala do que ocorreu noutros países, uma vez que há espaço para isso", estima o investigador.

Os coronavírus, as crianças e os idosos

Outro dos estudos da equipa de José Lourenço, esse ainda à espera de publicação na revista científica Nature Communications, propõe uma explicação nova para o facto de os mais idosos, sobretudo acima dos 80 anos, serem a população com maior risco de mortalidade pela covid-19.

"O mais simples é dizer que o sistema imunitário fica mais frágil com a idade, mas isso não explica o que acontece, nem por que motivo as crianças parecem não ter sequer sintomas".

Partindo uma vez mais do conceito de imunidade cruzada para os coronavírus, a equipa incluiu na análise uma simulação da sua perda de plasticidade ao longo do tempo, e o que emergiu no modelo foi uma paisagem pandémica muito idêntica à da própria realidade, com o maior risco de mortalidade a recair, justamente, nos doentes mais idosos.

A explicação que o grupo de José Lourenço propõe é bastante detalhada, com base no que já se sabe acerca da resposta imunitária aos quatro coronavírus que causam constipações comuns, e aos quais vamos sendo expostos ao longo da vida.

"Durante a infância, a resposta imunitária a estes coronavírus é muito generalista, independentemente daquele que está a infetar a criança num dado momento, mas à medida que as décadas passam, desenvolve-se uma resposta que é especializada para cada um desses quatro vírus", conta o investigador.

Perante um novo vírus, como é o Sars-cov-2, a resposta generalista do sistema imunitário dos mais jovens acabará assim por resolver a situação, muitas vezes sem sintomas visíveis sequer. Mas nas idades mais avançadas, em que não existe aquela plasticidade, um novo coronavírus, para o qual não há qualquer resposta específica, constitui um problema.

O que acontece frequentemente nestes doentes mais idosos é uma resposta exacerbada do sistema imunitário, que na tentativa de debelar a infeção acaba por causar danos irreparáveis no organismo e conduzir à morte.

"Através do nosso modelo oferecemos uma explicação nova para esta questão", resume o investigador.

Uma incógnita chamada inverno

Depois de cinco meses intensos às voltas com a pandemia, para José Lourenço é agora tempo de voltar aos projetos anteriores, que estavam interrompidos - um deles sobre o dengue no Brasil e outro sobre a pneumonia em África.

Este último, aliás, vai exigir atenção especial, nomeadamente em relação ao Malawi, onde está a desenvolver trabalho relacionado com a vacinação infantil para o Pneumococcus, que causa pneumonia.

A vacina, que foi introduzida naquele país africano em 2011, reduzindo muito a prevalência daquela bactéria, estava já com uma cobertura de 90%, mas isso diminuiu muito nestes seis meses.

"Neste recomeço vamos tentar projetar o impacto deste retrocesso", antecipa o investigador, que não descarta, no entanto, voltar à covid-19.

"Vou fazer uma pausa, porque tenho outras responsabilidades que não podem continuar paradas, mas suponho que poderão surgir ainda outros projetos em covid-19 se houver novidades em relação a vacinas ou à situação pandémica no inverno", estima.

De resto, o inverno é talvez o próximo maior desafio. E para José Lourenço uma das principais incógnitas é a do papel que a imunidade cruzada pode ter nesse contexto.

"É importante perceber se ela pode ser uma ajuda. A confirmar-se, a imunidade cruzada está na população mais jovem, e permitiria redefinir algumas estratégias sociais para a proteção dos mais vulneráveis e reabrir mais setores de atividade para ajudar a recuperar a economia". Por isso, defende., "são necessários estudos para confirmar esta imunidade cruzada". O inverno, afinal, já não vem longe.

Este artigo faz parte de uma série dedicada aos investigadores portugueses e apoiada por abbvie.pt

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