Fernando Tomé: "A minha ida para o Sporting pagou a luz do Bonfim"

Dos seus 71 anos diz ter... 72 ligados a Setúbal e ao "seu" Vitória. Fernando Tomé fez parte de uma geração de ouro do clube sadino e toda a sua vida gira em redor deste e da cidade que considera ser uma "madrasta boa". Foi o porta-bandeira da Cidade Europeia do Desporto e o padrinho da sardinha assada nas 7 Maravilhas Gastronómicas.

É uma das glórias do Vitória e uma das figuras mais conhecidas de Setúbal. Mas foi no Sporting que Fernando Tomé esteve ligado a um dos dias mais importantes da história nacional: o 25 de Abril de 1974. Estava na antiga RDA a jogar a meia-final da Taça dos Vencedores das Taças - falhou o golo que colocaria o clube português na final da prova. E viveu em viagem a Revolução dos Cravos. Na altura, por "culpa da BBC", pensou terem existido milhares de mortes. Aos 71 anos recorda uma vida ligada ao futebol, em que conquistou títulos no Vitória, no Sporting e na União de Leiria.

Tem uma forte ligação ao Vitória e a Setúbal. Quem é o Fernando Tomé?

É fácil. Tenho o privilégio de ser filho de uma pessoa que já não está neste mundo, mas que me deixou uma grande marca quer desportiva quer social, o meu saudoso paizinho - João Martins Tomé - que foi profissional de futebol. Nasci no Porto, por incrível que possa parecer não nasci na cidade de Setúbal. O meu pai era jogador do Académico do Porto desde 1941, eu nasci em 1947, e na época 1948-49 protagonizou a transferência mais cara do futebol português quando foi para o Sporting da Covilhã, na altura por 130 contos, que era uma verba fabulosa. E é por isso que costumo dizer que tenho 71 anos de idade e 72 de futebol porque como deve compreender a génese [do futebol] ficou.

Quando começa essa ligação ao Vitória?

A grande mágoa do meu pai foi nunca ter jogado no Vitória, tenho dois tios que foram jogadores do Vitória, mas ele nunca foi jogador do clube da sua cidade natal. Depois do Sporting da Covilhã viemos para a Barrosinha, uma herdade perto de Alcácer do Sal, onde foi treinador-jogador, a seguir fomos para Moura, onde fiz o exame da terceira classe. Mais tarde ele foi para o Sporting Mineiro Aljustrelense, onde esteve duas épocas, mas eu e a minha mãe só estivemos uma, pois como a minha mãe estava grávida do meu irmão regressámos a Setúbal.

É aqui que estuda e começa a jogar?

Vim para a escola comercial. Antes do Vitória de Setúbal ainda fiz um torneio em miúdo pela equipa do Bairro Santos Nicolau, o Vasco da Gama, o bairro que me acolheu e que é um ótimo padrasto. Já como madrasta, tenho uma fabulosa: a cidade de Setúbal.

Tudo a favor de uma grande ligação à cidade...

Aqui comecei a minha ascensão como jogador. Estive duas épocas - em 1961-62 e 1962-63 - nos principiantes do Vitória. Seguiram-se duas temporadas como júnior e em seguida o Vitória de Setúbal convidou-me para ser profissional, aqui fiquei até sair para o Sporting.

Um período de ouro na história do clube...

Tive essa felicidade. Realmente pertenci a uma geração de grandes jogadores. Conseguimos juntar grandes equipas a grandes amigos. E isso foi muito importante. Como sabe nessa altura havia a lei de opção [o clube detentor do passe tinha sempre opção e assim a saída do atleta estava condicionada à vontade dos dirigentes] e os jogadores não trocavam de clube com tanta facilidade. Ganhámos o Teresa Herrera, Taças de Portugal, a Copa do Mundo, o Troféu Ibérico, torneios na América, foi realmente uma década de ouro. Em 1971-72 o Vitória foi segundo classificado no campeonato e foram duas vezes aos quartos-de-final das competições europeias.

E a cidade passou a ser conhecida além-fronteiras...

Na altura havia quatro grandes, agora são três. E quem deixou o seu nome gravado através do futebol e do Vitória? Foi Setúbal. Uma vez fomos à Noruega e perguntavam: Vitória? De Lisboa? Para eles tudo o que era português era de Lisboa. E nós éramos de Setúbal. Naquela altura tínhamos uns autocolantes que colocávamos nos vidros por onde passávamos, quem via lia Vitória Futebol Clube - Setúbal. Nos nossos equipamentos na parte da frente lia-se Vitória, atrás Setúbal e nas mangas tinham o escudo nacional e a dizer Portugal. Íamos identificados com o nome do clube, da cidade e do país.

E esse amor à cidade como foi nascendo?

Desde miúdo que passava férias em Setúbal. Da minha família os únicos que não são daqui sou eu e a minha mãe, que é de Alcácer do Sal, que pertence ao distrito. Todos os restantes são de Setúbal - a minha mulher, os meus filhos, os meus netos. Tenho dois filhos gémeos e três netos, todos nascidos aqui.

E algum joga futebol?

Nenhum. Há um que é mais interessado. O meu neto mais velho fez agora 18 anos e está mais virado para os estudos, é um grande aluno; o outro já tem uma apetência para o futebol, pratica, não no Vitória mas num clube perto de onde mora porque é mais acessível. Vamos ver se aparece alguém para continuar a dinastia dos Tomé no futebol. O meu irmão ainda andou pelo futebol nas camadas jovens, depois saiu. O meu filho mais velho não quis seguir, ainda passou pelo Vitória nas camadas jovens, mas mais tarde empregou-se e acabou por não seguir a carreira. Foi uma opção de vida com a qual concordo. Mas tenho pena que não exista ninguém a seguir o futebol na família.

Tudo isso explica a ligação à cidade e ao clube?

Há relativamente pouco tempo comecei a colaborar também em situações relacionadas com a cidade de Setúbal. Na Cidade Europeia do Desporto [em 2016] tive o privilégio de a presidente da câmara, Maria das Dores Meira, me ter convidado para ir a Bruxelas buscar a bandeira. Fui também padrinho da sardinha assada nas 7 Maravilhas da Gastronomia. Costumo dizer que ao Vitória e à cidade nunca digo que não.

É mesmo da família...

Por isso digo que Setúbal não é a minha mãe, mas é uma madrasta que me trata bem, e eu procuro retribuir na medida do que me é possível.

Como uma das glórias do clube, como vê as dificuldades que este tem enfrentado?

Se houve distrito no país que sofreu após o 25 de Abril de 1974 foi este. Até aos anos 1980 foi dramático para o distrito de Setúbal com o fecho de muitas empresas, e a cidade sofreu na pele e na carne essas dificuldades. E os tempos que correm também não são fáceis nesse sentido. Porque continuamos a debater-nos com graves problemas, quer queiramos quer não. Ainda não nos libertámos das dificuldades de que se calhar padecemos há mais de 30 anos.

Mas o Vitória enfrenta problemas há muitos anos...

Há 40/50 anos quando ia para as competições europeias a situação também não era famosa. Descobri um documento - uma relíquia - em que se explicava que quando o clube jogou uma eliminatória da Taça dos Vencedores das Taças com o Bayern de Munique [derrota em Munique por 6-2 a 8 de novembro de 1967 e empate a uma bola no Estádio do Bonfim a 14 de novembro] o prejuízo foi de cem contos, o que naquela altura era muito dinheiro. E por aí se vê que até nessas épocas douradas do Vitória a Europa não era uma coisa famosa. Além do mais, quando os jogos eram à noite jogávamos em campos emprestados, como o Estádio de Alvalade, ainda fizemos um no Estádio da Luz, contra a Juventus, porque não tínhamos iluminação.

Quando é que começaram a poder jogar à noite no Bonfim?

Só a partir de 1970. Na altura em que fui para o Sporting o dinheiro da transferência deu para colocar as quatro torres de iluminação. Segundo se diz eu só saí para que fosse possível ao Vitória ter dinheiro para a iluminação. A transferência foi dois mil contos, acho que as quatro torres de iluminação e os projetores custaram 1500 contos, portanto ainda ficou algum dinheiro para o orçamento do clube naquela época.

O Sporting era outra dimensão...

Sim. Agora entendo e compreendo a razão de os jogadores não singrarem logo na primeira época em que vão para os grandes clubes. Há uma mudança radical em todos os sentidos. Por exemplo, o objetivo era lutar para ser campeão e aqui não, nós queríamos ir o mais longe possível quer no campeonato quer nas competições europeias. Quando cheguei ao Sporting em 1970-71 a minha primeira alegria foi ter ajudado a vencer a Taça de Portugal. Fiquei muito contente porque estava acostumado no Vitória a que quando se vencia havia uma festa imensa na cidade e eu estava a festejar e notei que havia dois ou três colegas meus que estavam mais calmos. Disseram-me "isto aqui é normal". É esta a dimensão de um clube que respeito muito e onde em seis anos maravilhosos fui campeão nacional (1973-74), ajudei a conquistar mais duas Taças de Portugal, uma contra o Vitória e outra contra o Benfica.

Também há a meia-final da Taça das Taças a 24 de abril de 1974...

É aquela em que a 24 de abril todos os anos os sportinguistas mais se lembram de mim, infelizmente pela negativa. Jogámos com o Magdeburg [empate em Alvalade a 1-1 e derrota na antiga RDA por 2-1 e o consequente afastamento da prova] e continuo a dizer que perdemos esta eliminatória cá e não lá - mas não vou retirar que falhei um golo que seria aquele que mais gostaria de ter marcado pois colocava o Sporting na final. Em Alvalade empatámos 1-1, o Dinis falhou uma grande penalidade, enviámos três ou quatro bolas aos postes e ainda houve um autogolo.

Depois o segundo jogo e a derrota que podia ter sido evitada...

Quando fomos a Magdeburg jogámos normalmente, quando estava 2-1, perto do final do jogo, o Marinho faz uma grande jogada pelo lado esquerdo, vai à linha de cabeceira e dá a bola para trás onde eu vinha a correr. Olhei para a baliza, vi o guarda-redes e um defesa a deslocarem-se do primeiro poste para o lado contrário e nessa altura toquei na bola para o lado de onde eles saíram, mas com tanta infelicidade que a bola saiu mesmo ao lado do poste. Eles ficaram batidos só que a bola foi para fora. Durante a noite delirei com o lance, puxei a trave uma data de vezes para ver se a bola entrava, mas não deu...

Mas esse dia é muito mais relevante politicamente....

No regresso, quando vínhamos para a fronteira, o carro que ia à nossa frente, onde ia o falecido presidente do Sporting, o senhor João Rocha, começou a fazer sinal para encostar na autoestrada - a ligação de autocarro foi só para passar de uma Alemanha para a outra, depois apanhámos o avião, em Frankfurt. Parámos e o presidente chega ao autocarro e diz "meus senhores, é só para dizer que tivemos agora a notícia de que ocorreu um golpe de Estado em Portugal". Foi um choque, era a primeira vez que se ouvia falar de um golpe de Estado. Quando chegámos ao aeroporto de Frankfurt dirigimo-nos ao balcão da TAP e estava fechado. Ficámos ali e lá vieram dois funcionários da companhia, o senhor João Rocha foi falar com eles e soube que os voos estavam cancelados para Lisboa. Disseram-nos o que sabiam: "Estamos a ouvir a BBC em que dizem que há milhares de mortos e centenas de milhares de feridos." Perante isto, uma das três pessoas que sempre nos acompanhavam nas viagens diz: "Eh pá, porra, e eu deixei o meu carro na Baixa." Ou sej,a não se preocupou com o golpe de Estado mas com o carro. E nós ficámos ali sem saber mais nada.

Como vieram para Portugal?

Viemos de avião de Frankfurt para Madrid, isto no dia 25 de abril. Chegámos a Madrid e fomos de autocarro para Badajoz. Quando lá chegámos a fronteira estava fechada. Quase às quatro da manhã eu e o Zezinho fomos para um hostel, mas às oito já tínhamos de estar na fronteira para ver se nos deixavam passar. É evidente que não deixaram. O senhor João Rocha tomou a iniciativa de ir falar com os polícias e uns vieram buscá-lo, ele ia no meio deles, parecia um prisioneiro. Falaram com o general Spínola por um rádio e passado algum tempo, curto, receberam na fronteira a indicação para nos deixar passar. Está a ver a confusão, estavam centenas de carros para entrar em Portugal. O nosso autocarro estava à frente, abriram a fronteira, deixaram passar quatro ou cinco carros e voltaram a fechar.

Depois soube que, afinal, não havia "centenas de mortes".

Nós já não comíamos há uma série de tempo, fomos almoçar à estalagem em Elvas e depois viemos para Lisboa. Fiquei em Setúbal como sempre nos Quatro Caminhos, o autocarro parou, deixou-me e seguiu. Então apareceu um rapaz meu amigo, viu-me, parou o carro e eu disse que ia para a casa da minha sogra onde estava a minha mulher com os meus filhos, aí ele diz que me levava. Quando entrei no carro disse-lhe "então pá, há muitos mortos?" e ele responde: "Não pá, qual mortos? Isto é uma festa." E eu: "Uma festa? Então diziam que havia milhares de mortos e centenas de milhares de feridos." "É mentira pá, houve um ou dois mortos, gajos da PIDE [polícia política da altura]. Os militares andam na rua com cravos." Depois cheguei a casa e comecei a ter a noção do que se tinha passado. Foi uma odisseia que fica registada para a vida.

Ainda jogou mais algumas épocas...

A Revolução foi um marco histórico para o país e para o desporto. Pouco depois aboliram a lei de opção, da qual eu beneficiei pouco. A única situação foi não ter renovado o meu contrato com o Sporting pois com aquilo que eles me ofereciam na altura mais valia regressar ao Vitória, por menos dinheiro mas sem as despesas de ir todos os dias para Lisboa - portagens, gasolina, etc. Fiquei aqui mais duas épocas e depois fui para a União de Leiria, a convite do falecido Félix Mourinho (pai do treinador José Mourinho). Fui com ele e acabámos por ser felizes ao ajudar o clube a subir de divisão.

E é em Leiria que começa as experiências como técnico...

Comecei na União de Leiria e subimos à I Divisão, com o Pedro Gomes como técnico. Aliás, gostaria de dizer que ao longo destes anos tem sido uma deceção pelo facto de ele não ser aproveitado para o futebol porque já naquelas épocas tinha ideias com coisas que acontecem agora. Ele foi o grande obreiro de nós termos sido campeões da II Divisão e subido à divisão principal. Depois convidou-me para ser adjunto. A seguir fui adjunto do Manuel Oliveira que também não foi até ao fim da época, e depois acabei por ser eu. Não deu para evitar a descida. Acabei por sair, continuei a carreira no Famalicão, depois seguiu-se o Penafiel na primeira divisão, mas acabei por vir embora, mais por uma questão familiar do que desportiva.

Voltou à "madrasta boa" e ao clube do coração...

Há uns anos a esta parte tenho o prazer de transmitir o que se passa no clube. Sei um pouco da história, não sei tudo. Há muito mais gente que sabe mais do que eu, também estive ligado ao departamento de formação durante 18 anos [tem uma sala com o seu nome e um campo municipal também], fui um dos três treinadores da equipa que foi campeã nacional mas à qual depois tiraram o título.

O que aconteceu?

O Boavista utilizou num encontro que tinham de ganhar por uma certa margem jogadores que estavam castigados. O Conselho de Disciplina deu razão ao Vitória no protesto que fez e deu-nos o título. Mas o Boavista recorreu para o Conselho de Justiça e aí uma pessoa decidiu sozinha dar-lhes o título. Passados dois ou três dias deixou o cargo de presidente do Conselho de Justiça. Isto foi em 1994-95, no escalão de juniores. Na altura custou-me pela entrega e o esforço dos jogadores. Há um deles que agora pertence ao Vitória como team manager, o Sandro.

Vendo os cumprimentos que recebe na rua e as homenagens que lhe fizeram, o Fernando Tomé é a "cara" do clube...

Não gostaria de pensar assim. Tenho antigos colegas que poderiam estar na mesma situação que eu. Alguns se calhar nunca o quiseram fazer, outros não têm feitio para tal, portanto aquele que se aproximou mais desta questão talvez tenha sido eu, talvez pela vivência dos últimos 18 anos ligados ao clube. Fui para a reforma e passados dois anos a anterior direção, do senhor Fernando Oliveira, pediu para continuar a ligação e eu disse que sim. Agora o Dr. Vitor Hugo, presidente da direção, fez-me o convite para ter uma outra função e eu disse que sim - como sempre digo, por Setúbal e pelo Vitória. Agora sou o diretor do campo.

Tem filhos, netos. Que avó procura ser?

Procuro ser e transmitir aquilo que me foi transmitido pelo meu falecido pai. Posso até contar-lhe uma história: a primeira vez que entrei em casa depois da meia-noite tinha 21 anos, estava na tropa (em Elvas), vim de fim de semana perto do Carnaval e fui divertir-me com o falecido Vítor Baptista [antigo jogador de futebol e uma das glórias do desporto nacional]. Quem tinha carro era eu, o meu pai comprou-me um quando fui para a tropa, um Fiat 124. E acabei por ir, olhei para o relógio, eram nove horas. Depois passaram as dez, onze, meia-noite, uma, e eu tive de me vir embora. Quando chego a casa vou abrir a porta e vi luz. Estava o meu pai sentado no sofá da sala, entrei, ele chamou-me e disse: "Se é para continuares a fazer esta vida, pegas numa malinha e vais viver para onde quiseres. Um profissional de futebol quando está em casa tem de cumprir aquilo que está determinado." Disse-lhe que na tropa não havia problema e ele respondeu: "A tropa é outra coisa, tu não fazes isto na tropa." Como quem diz tu chegas àquela hora tens de estar dentro do quartel, não andas cá fora. "Aqui vais ter de cumprir o que estava determinado. É às 11.00, é às 11.00. É à meia-noite, é à meia-noite. Não é às duas da manhã." Foi sagrado. Tinha 21 anos. Tenho estas coisas comigo para poder transmitir aos meus netos.

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