A Europa ambígua

A fundação da ONU foi essencialmente um projeto organizado por ocidentais, que não meditaram sobre a realidade multicultural do encontro dos povos libertados na Assembleia Geral, falando livremente, pela primeira vez na história política, sobre os valores e conceitos das suas visões da ordem mundial. Em 2010 tinha recolhido praticamente todos os Estados existentes, com a exceção do Vaticano, de Taiwan, que deixara de representar a China no Conselho de Segurança, do Kosovo e da sacrificada Autoridade Palestiniana.

Esta evolução das interdependências globais implicou uma alteração da temática das relações internacionais, agudizando a exigência de "uma nova ordem económica mundial", o que não podia ignorar que repor a ordem militar, de custos elevados, não teria um calendário correspondente ao da evolução da economia. Esta promissora ONU, que podia invocar numerosas tentativas frustradas no longo processo de ocidentalização do mundo, tornou-se complexa, conduzindo a, pelo menos, dois fenómenos inevitáveis: a instituição de solidariedades regionais em que a União Europeia é o modelo talvez mais significativo, centros de poder real não politicamente institucionalizados como o G20, centros de poder denunciados pelos efeitos mas não pela acessibilidade da estrutura, e a competição por uma nova hierarquia aristocratizante das potências militares em que se distinguem os EUA, o Reino Unido, a França, a China e a Rússia, ambição que não pôde evitar que o conceito do Conselho de Segurança viesse a enfrentar outro ambiente circundante como a capacidade de o fraco atingir o forte (Torres Gémeas) e de as várias formas de terrorismo desordenarem as sociedades civis atingidas pelo embaraço dos poderes que as governam.

A organização da União Europeia foi possível pela assumida consciência da nova circunstância que o decorrer dos tempos fizera crescer de importância e desafio em processo. A ocidentalização do mundo perdera o método de imposição política (colonialismo), a organização da governança do globalismo era uma assumida exigência inadiável que também implicava uma reformulação das relações entre ocidentais, a qual não tinha de esperar pela do globalismo, mas se articularia com ela: finalmente, que nenhum país ocidental, não sendo de prever que viesse a ser diferente para os emergentes, teria capacidade, para sempre perdida, de agir solitário em resposta à nova circunstância mundial. As tensões internas cresceram com as dificuldades financeiras causadas pela crise.

O Tratado de Lisboa admitiu alguns passos de reforço institucional, sustentando-se que nada obstava que a mesma pessoa seja presidente do Conselho Europeu e presidente da Comissão, que sejam permanentes os presidentes dos Conselhos da União, que poderão até ser membros da Comissão (J.L. Quermonne). Mas é impossível desligar a fundada inquietação com a reforma das instituições da necessária avaliação da capacidade política de que é indesligável o poder económico na cena do globalismo. E neste domínio é evidente que o projeto da União enfrenta tendências separatistas, ainda que a semântica as aligeire. Uns, como Defarges, acentuam o que chamam "vagas micronacionais (Escócia, Catalunha, flamengos), repúdios como o do Reino Unido, ele próprio em risco de separações internas, memórias imperiais externas, como se passa com a Rússia, a repensar as fronteiras, cada Estado participante obrigado, se quiser e puder acompanhar a marcha, a remodelar os seus valores e práticas históricas: sem clareza sobre se o futuro em vista é o mais previsto, a federação, ou uma União de formato inovador, mas ainda não anunciado.

O facto é que não obstante a Europa ter conseguido, entre os séculos XV e XIX, uma superioridade de poder global apoiado na riqueza de um saber e criatividade surpreendentes, hoje tem fronteiras inquietantes a leste, incluindo a Rússia revisionista e a China em expansão, a sul um Mediterrâneo transformado em cemitério, a ocidente um atlantismo enfraquecido pelo Brexit do Reino Unido e pela imprevisibilidade da política dos EUA. Não obstante tantas vozes autorizadas a insistirem na urgência de uma reforma, o anúncio mais original, depois da última eleição para o Parlamento Europeu, foi o de uma "geringonça" que alteraria o longo predomínio das mesmas forças parlamentares.

Nem sequer o proclamado valor unificador da chamada "cidadania europeia" conseguiu que a escolha dos novos titulares dos cargos fosse determinada pela demonstrada capacidade de enfrentar finalmente os problemas da União, talvez porque já no processo eleitoral estes não tinham conseguido ser assumidos como os condicionantes da unidade procurada e enfraquecida. O discurso histórico de Churchill precisa de ser repetido, não contra a cortina de ferro, mas contra o já chamado "tédio" dos eleitorados.