São mulheres, ganham pouco mais de 600 euros e não abandonam o barco

Nos lares e nos hospitais, a maioria dos trabalhadores são mulheres e a maioria ganha pouco mais que o salário mínimo. Mesmo assim não desarmam. No Dia do Trabalhador, três delas falam da luta que travam e da desvalorização e invisibilidade que muitas vezes sentem.

"É um trabalho muito duro, tenho dias em que chego a casa e não sinto as pernas nem os braços. Estou a fazer turnos como se tivesse 20 anos", diz Inês Dona, 61 anos, quase 62, que faz em junho. É auxiliar no hospital de Abrantes há 30 anos, "quase uma vida".

No dia em que falou connosco, ia entrar à meia-noite, no bloco operatório. Ganha o salário mínimo: 635 euros. "É mais amor à camisola do que outra coisa, mas o que é que se há de fazer, sempre foi o meu sonho, trabalhar no hospital. Não somos recompensadas pelo nosso trabalho, mas não é o hospital que tem a culpa, é o sistema.Com 30 anos de carreira, tenho 635 euros de ordenado base, o mesmo que ganha quem começa agora a trabalhar no mesmo serviço. E as horas extra são taxadas".

Nestes 30 anos, já passou por todos os serviços, agora está no bloco, no recobro ou de apoio às salas. Até aparecer esta doença que nos virou a vida do avesso, dava apoio a tudo, desde limpeza de salas e esterilização de instrumentos, a posicionamento e deslocação de doentes, tudo o que os enfermeiros precisassem e pedissem.

Inês vai fazer 62 anos, mas, ao contrário dos médicos e enfermeiros, que podem deixar de fazer noites a partir dos 50 anos, continua a ter que assegurar todos os turnos.

Agora, com a covid-19 como ameaça omnipresente, o serviço teve que ser adaptado. "Para ter uma ideia, tem que estar uma auxiliar dentro da sala covid e outra de apoio cá fora. Temos um corredor de acesso à sala de cerca de 50 metros e quando o doente entra, fecha-se a sala e a auxiliar de apoio tem que desinfetar o corredor duas vezes - primeiro com sabão e depois com desinfetante - duas vezes depois de o doente entrar e duas vezes depois de o doente sair. Quando o doente sai, a auxiliar que está na sala tem que a desinfetar toda. Uma pessoa sozinha, com o equipamento todo de proteção vestido - isso nunca nos faltou, temos equipamento semelhante ao dos enfermeiros e dos médicos. São cerca de quatro horas de trabalho. É duro".

O trabalho é pesado, o salário é baixo e o reconhecimento é pouco. A pandemia obrigou a um aumento da carga horária e dos turnos e a uma ainda maior exigência nos procedimentos.

"É difícil porque o vírus é desconhecido e não sabemos ainda como se comporta e portanto temos cuidados redobrados, mas a desinfeção das salas não começou com a covid, como é óbvio, nós é que andamos mais protegidas e o rigor é maior. Agora imagine o que é limpar paredes com aquele equipamento todo - óculos, luvas, viseira, máscara, fato - transpiramos por todo o lado".

A voz doce de Inês não se revolta, antes lamenta a falta de valorização profissional e remuneratória, mas o que a magoa é outra coisa. "Por vezes, sentimos falta de compreensão por parte das outras equipas profissionais que parece que pensam que somos máquinas, gritam para nos despacharmos, sem perceberem que é um trabalho conjunto e que se não fizermos o nosso bem eles também não podem fazer bem o deles. Uns compreendem e dão valor, outros não, e é isso que às vezes nos magoa e nos traz tristes. Gostaria que tivessem mais respeito pelo nosso trabalho, só isso", diz.

Inês vai fazer 62 anos, mas, ao contrário dos médicos e enfermeiros, que podem deixar de fazer noites a partir dos 50 anos, continua a ter que assegurar todos os turnos. E não lhe passa pela cabeça deixar de fazer o seu trabalho, apesar de ter em casa um marido diabético e com patologia cardíaca e um sogro de 84 anos.

" "Tenho orgulho de fechar uma sala e sentir que está limpa e desinfetada para o próximo doente que ali entrar e que a deixei em totais condições de segurança. Foi isso que sempre me moveu, fazer o meu trabalho bem feito."

"Nem toda a gente tem uma casa grande e com várias casas de banho, eu não tenho, mas ando com a garrafa de lixívia atrás o tempo todo a desinfetar tudo. Além disso, como já referi, no nosso hospital temos todo o material de proteção necessário e podemos tomar duche antes de sair. Deixar de trabalhar é que não", diz a auxiliar de ação médica, que aproveita a deixa para fazer um esclarecimento: "Sabe porque é que deixámos de ser auxiliares de ação médica e passámos a ser assistentes operacionais? Porque assim podem pedir-nos para fazer tudo, até apanhar as ervas. É uma questão de polivalência".

Ainda assim, Inês gosta mesmo do que faz e é isso que a leva a sair de casa para o trabalho, entre às oito da manhã, às quatro da tarde ou à meia-noite. "Tenho orgulho de fechar uma sala e sentir que está limpa e desinfetada para o próximo doente que ali entrar e que a deixei em totais condições de segurança. Foi isso que sempre me moveu, fazer o meu trabalho bem feito, e é isso que transmito aos mais novos que vêm trabalhar como auxiliares, a ganhar o mesmo que eu:que o doente tem que estar em segurança e que o trabalho de auxiliar é importante por isso. Só estive de baixa uma vez, nove meses, com uma tuberculose que apanhei no hospital, e não é a covid-19 que me vai meter medo", diz Inês, que chama a atenção para as condições ainda mais duras em que estão a trabalhar os colegas auxiliares de outros serviços, como as urgências.

"Nas salas onde são recebidos os doentes covid, os auxiliares têm que estar ali 4 horas, equipados, sem poder sair, comer, beber, fazer o que for, só quando são rendidos. É um trabalho ainda mais pesado."

"Elas não abandonam. É fundamental que não as abandonemos também".

De acordo com o Fórum Económico Mundial, 70 por cento dos profissionais de saúde são mulheres. Uma percentagem que não estará longe da realidade portuguesa. Em Portugal, há mais cerca de seis mil médicas do que médicos, 84 por cento dos enfermeiros são mulheres e não havendo estatísticas para o pessoal auxiliar, o conhecimento empírico leva a crer que ande pela mesma ordem de grandeza.

Quanto a funcionários de lares, a CGTP estima que, em Portugal, nove em cada 10 trabalhadores do setor social sejam mulheres. Será, portanto, justo dizer que são elas que estão em maioria na linha da frente. Muitas delas, também a maioria, a ganhar o ordenado mínimo nacional, agora com horários sobrecarregados, justificados com a situação de emergência que se vive, e desempenhando funções de risco.

De acordo com os últimos números divulgados, a 17 de abril, eram cerca de mil os funcionários de lares infetados com covid-19 e 1638 os assistentes operacionais, técnicos e outros profissionais de saúde (excluindo médicos e enfermeiros).

"Estes trabalhadores, na sua maioria mulheres, passam uma vida inteira na mesma categoria a ganhar o mesmo salário mínimo, sem progressão na carreira".

Fátima Messias, da CGTP, dá voz às reivindicações destes trabalhadores, que não são de hoje, mas "cuja justeza se tornou ainda mais evidente" no entender da central sindical.

"Esta pandemia trouxe ao de cima e tornou visíveis problemas que vinham de trás, como o bloqueio da negociação salarial e da contratação coletiva que leva a que estes trabalhadores, que são na sua maioria mulheres, passem uma vida inteira na mesma categoria a ganhar o mesmo salário mínimo, sem que sejam tidas em conta a evolução, qualificação e experiência profissional na progressão na carreira. Desenvolvem um esforço gigante em termos humanos no cuidado dos outros e não têm o reconhecimento devido, nem a nível salarial, nem de horários, nem de condições de trabalho", diz a dirigente sindical, que chama a atenção para a realidade que está a viver-se no terreno, com trabalhadoras a fazer turnos de 12 horas, a trabalharem em regime de internato ou a serem mobilizadas para funções que não eram as suas.

"Fazem-no para não abandonar os utentes, num trabalho que é pesado e de risco, porque exige proximidade e contacto físico e sem que estejam sempre asseguradas as condições de segurança, com o tempo de descanso comprometido e sem a devida compensação".

"Por 635 euros por mês pedem-lhes que não abandonem o barco. E elas não abandonam. É fundamental que não as abandonemos também".

Subsídios de risco e pagamento de horas extraordinárias são devidos, mas para Fátima Messias, a questão central prende-se com a valorização dos salários de base, que "dignifique profissões sem as quais, percebemos agora melhor do que nunca, a população não poderia aceder a um bem essencial que é a saúde".

A dirigente da CGTP lembra ainda que estas são profissões de desgaste físico e psicológico, que implicam o trabalho por turnos, que inclui noites, fins de semana e feriados, e envolvem um risco "injustamente invisível que é o do elevado número de doenças profissionais que muitas destas trabalhadoras sofrem, resultantes de lesões musculoesqueléticas provocadas pelo trabalho que desenvolvem, com o sistemático levantamento de cargas e pesos excessivos, nomeadamente no tratamento de doentes acamados, que afetam a sua qualidade de vida. Por 635 euros por mês pedem-lhes que não abandonem o barco. E elas não abandonam. É fundamental que não as abandonemos também".

"Aguento-me por eles, pelos meus utentes"

Carmen Carvalho, 42 anos, não abandonou o barco. Pelo contrário, ofereceu-se para ser das primeiras a embarcar, mas às vezes custa que a dedicação não seja reconhecida nem compensada. Trabalha há 20 anos na APPACDM de Braga, que tem três lares residenciais para pessoas maiores de 16 anos com deficiência mental e vários centros de atividades ocupacionais no distrito.

Ordenado base: 646 euros, a que acresce o subsídio de rotatividade por fazer turnos rotativos de manhãs, tardes e noites.

Desde o dia 30 de março, está a trabalhar 24 sobre 24 horas, durante 15 dias, confinada com os onze utentes a seu cargo e de mais três colegas, seis dos quais infetados com covid-19. Nos outros 15 dias folga, confinada a casa. No dia em que a entrevistámos, ia entrar às 18h00 para o segundo confinamento. Era terça-feira. Domingo tinha recebido o resultado do teste à covid-19: negativo. Fez o primeiro confinamento sem saber que havia pessoas infetadas (os primeiros casos só foram detetados a 17 de abril).

"É muito pesado. Nós tratamos de tudo, alimentação, medicação, higiene, atividades, organização da casa, mas teve que ser tudo alterado. Os utentes estão confinados aos quartos e nós usamos uns fatos que parecem de astronauta, com viseira, máscara, luvas, capuz. Para eles é assustador, porque mal nos reconhecem e devido à deficiência têm maior dificuldade em perceber porque é que não podem sair. É muito complicado para nós e para eles. Olhe que esta situação de não poder ir a casa durante 15 dias é mesmo difícil, física e psicologicamente. A força que tenho para me aguentar é por eles, por aquelas 11 pessoas que estão lá dentro, seis das quais doentes".

A maioria dos utentes não tem família e os três que tinham foram para casa quando começou a epidemia e foram acionadas as medidas de contenção, logo a seguir à declaração do estado de emergência no país.

"O maior reconhecimento é o dos utentes porque se estiver à espera de outro, posso esperar sentada. No primeiro confinamento fui eu que me ofereci, agora recebi uma requisição em casa."

Carmen trabalha com eles há 12 anos e estava fora de questão "abandoná-los" quando eles mais precisam. Com idades compreendidas entre os 24 e os 62 anos, exigem cuidados especiais e a auxiliar, que chegou à profissão por acaso, acabou por apaixonar-se pelo que faz e por aqueles com quem trabalha.

"O maior reconhecimento é o deles porque se estiver à espera de outro, posso esperar sentada. No primeiro confinamento fui eu que me ofereci, agora recebi uma requisição em casa. E nem recebemos subsídio de risco ou compensação que valha. Os médicos e enfermeiros estão na linha da frente, é verdade, mas não dormem no hospital, não passam lá 24 horas por dia. Só o facto de saírem do local de trabalho já é um alívio. Isto é muito doloroso. Mas, olhe, é um dia de cada vez, para não entrarmos em ansiedades e sofrimentos", diz a auxiliar, que embora perceba que o horário se deve à falta de trabalhadores, porque alguns deles estão infetados, e à tentativa de conter os contágios, considera que outras soluções seriam possíveis, como turnos de 12 horas, duas trabalhadoras em cada turno.

"Só queria ter uma fórmula mágica para acabar com isto. Não sei quanto mais tempo aguentamos".

"Só se fosse obrigada é que ficava em casa"

Na IPPS da margem sul em que Ana [nome fictício, porque prefere quem nem ela nem a instituição sejam identificadas], a meio dos trinta, trabalha há quase vinte anos, o esquema adotado são turnos de 12 horas durante sete dias seguidos, alternados com sete dias de folga. A instituição, que tem diversos equipamentos de infância e terceira idade, teve que encerrar todas as unidades educativas de creche e pré-escolar a 13 de março, em cumprimento da decisão do governo de fechar os estabelecimentos de ensino.

Numa primeira fase, as auxiliares de ação educativa estiveram em limpezas e no início do mês de abril, enquanto umas entraram em layoff ou em assistência à família, outras foram reforçar as equipas dos lares, um dos quais com utentes e trabalhadores infetados com covid-19.

Ana foi uma delas. Na unidade em que trabalha não há casos - toda a gente foi testada esta semana e deu tudo negativo -, mas as medidas de proteção e os horários de trabalho foram elaborados como se existissem, no sentido de evitar que lá cheguem.

"Fazemos só dois turnos para diminuir as entradas e saídas, usamos máscara e luvas e avental o dia todo e passamos o dia a desinfetar tudo. Os utentes fazem as refeições por turnos e nós só comemos depois deles. É muito cansativo, mas nesta fase tem que ser assim. Vamos pensar que é só uma fase", diz Ana, a voz pausada de quem trabalha com crianças há muitos anos e acusa o cansaço de cuidar de idosos, trabalho com o qual não estava familiarizada.

"Os utentes precisam de nós. Eles também já cuidaram de alguém, agora é a nossa vez. Não sou pessoa de dizer que não. Se precisam de mim, eu vou."

Os lares de terceira idade são neste momento a maior preocupação das autoridades de saúde no que respeita ao contágio por covid-19. Em todo o país multiplicam-se as notícias de utentes e trabalhadores infetados. Mas isso não assusta Ana, apesar de ter uma filha pequena em casa. "Tomo todos os cuidados. Ela já sabe que só me pode dar beijinhos depois de eu estar desinfetada".

Com diuturnidades, o ordenado que leva para casa não passa dos 650 euros, mas para a auxiliar é o que é. "Podia ser melhor, mas pronto, não somos educadoras."

Colocar obstáculos à mudança temporária de funções e de local de trabalho [apesar de não ter sido consultada] não lhe passou pela cabeça. "Quem me conhece sabe que gosto muito do que faço e só se fosse obrigada é que ficava em casa. E também não podemos ser egoístas. Os utentes precisam de nós. Eles também já cuidaram de alguém, agora é a nossa vez. Não sou pessoa de dizer que não. Se precisam de mim, eu vou. Temos que nos ajudar uns aos outros", diz.

Otimista por natureza, vê a tarefa como novo desafio e experiência, apesar de reconhecer que o trabalho é muito mais pesado.

"O trabalho com idosos é completamente diferente do trabalho com crianças, fazer a higiene, dar banho, mudar fraldas, nunca me imaginei capaz. E também me corta o coração vê-los tristes e deprimidos por não poderem sair nem receber visitas. Às vezes os familiares vêm dizer adeus à janela ou falam pelo telefone, mas não é a mesma coisa, percebe? Para os que são autónomos está a ser ainda mais difícil. As notícias sempre a falar do mesmo também não ajudam. Eu faço o melhor que posso e sei, como as minhas colegas que têm experiência me ensinaram. Trato-os como se fossem os meus avós. E eles ficam tão agradecidos. É comovente. Mas estou desejosa que chegue junho para ver os meus meninos e recuperar a minha vida".

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