Big Floyd: o "gigante gentil" que se tornou um símbolo da luta contra a América racista

George Floyd era um "gigante gentil" mas a sua morte deu origem a uma onda de violência que já se espalhou por mais de 30 de cidades norte-americanas.

O seu tamanho podia ser intimidador mas quando ele sorria ficava tudo bem. Era um "gigante gentil", que "não magoava ninguém", assegurou uma das irmãs, Philonise Floyd, em declarações à CNN. Os amigos chamavam-lhe "Big Floyd" ou simplesmente Floyd. Tinha 46 anos e dois metros de altura e morreu na segunda-feira, depois de ser detido pela polícia de Minneapolis, no Minnesota, EUA.

Os últimos momentos da vida de George Floyd foram filmados por câmaras de vigilância e telemóveis de gente que não o conhecia mas que quis gravar o ato de violência a que estava a assistir: um polícia a pressionar com o seu joelho o pescoço de um homem, estendido na rua, sem se poder mover, durante nove minutos, enquanto o homem implorava para o libertarem e dizia que não conseguia respirar. Ao ver essas imagens, muitos americanos saíram para a rua para pedir justiça. E para protestar contra o racismo e o abuso da força por parte dos quatro polícias brancos que participaram na detenção. Desde terça-feira, a cidade de Minneapolis tornou-se palco de protestos e confrontos entre manifestantes e polícia, acendendo um rastilho que rapidamente levou a revolta a outras cidades americanas.

George Floyd não teria ficado contente ao ver a sua cidade em chamas, disse a sua namorada desde 2017, Courteney Ross, "de coração partido", ao jornal Star Tribune. "Acordar esta manhã para ver Minneapolis a pegar fogo seria algo devastador para Floyd", disse. "Ele amava esta cidade. Ele veio para cá [de Houston] e ficou aqui por causa das pessoas e das oportunidades".

Do basquete ao hip hop

George Floyd nasceu na Carolina do Sul e, quando era novo, morou no Third Ward, em Houston, Texas, o bairro onde reside uma grande comunidade afro-americana. No Liceu Jack Yates, Floyd era um atleta talentoso que se destacava particularmente no futebol e basquetebol. Um dos ex-colegas de turma de Floyd, Donnell Cooper, disse à imprensa que ele tinha "uma personalidade tranquila e um espírito gentil".

O treinador de basquete George Walker recrutou Floyd para jogar no South Florida State College, em Avon Park, Flórida. Floyd foi aluno lá entre 1993 e 1995, disse Walker à CNN. "Ele não me deu muitos problemas", contou o treinador. "Era um atleta muito bom, com uma média de 12 a 14 pontos por jogo."

A mulher do treinador, Gloria, também o recorda como "um rapaz divertido". "Ele nunca tentava culpar os outros pelos seus erros", contou "Sempre assumia os seus erros e tentava melhorar."

Mas George acabou por não prosseguir os estudos e começou a fazer música com um grupo de hip-hop de Houston chamado Screwed Up Click. Nessa altura, já era conhecido como Big Floyd. Após a sua morte, alguns dos antigos membros do grupo partilharam nas redes sociais temas em que ele tinha participado, nos anos 90. Nesta faixa, intitulada So Tired of Ballin, ouvimos Big Floyd a cantar a partir do minuto 14:

Recomeçar em Minneapolis

Segundo documentos do tribunal, citados pela imprensa, Floyd foi acusado em 2007 de assalto à mão armada numa "invasão de domicílio". Foi condenado a cinco anos de prisão após um acordo judicial em 2009.

Depois de ser libertado da prisão, mudou-se para Minneapolis, no Minnesota, onde queria dar um novo rumo à sua vida, recordou o amigo da juventude, Stephen Jackson, ex-jogador da NBA, que lhe chamava Twin (gémeo) por serem muitos parecidos fisicamente: "Ele sabia que tinha de mudar de sítio para ser melhor":

Em Minneapolis, trabalhou como segurança num armazém, depois como motorista de camiões e desde há cinco anos era segurança no restaurante latino-americano Conga Latin Bistro.

Nos últimos dias, o dono do restaurante, Jovani Thurnstron, deixou várias mensagens emocionadas no Facebook, recordando o seu funcionário e amigo. Em declarações à imprensa, recordou como ele ajudava a limpar o restaurante ao final da noite e como era sempre simpático com toda a gente.

De acordo com o Star Tribune, uma cliente do restaurante, Jessi Zendejas, comentou num post no Facebook que Floyd "adorava os abraços dos seus clientes". "[Ele] ficava triste se nós não parássemos para cumprimentá-lo, porque ele realmente adorava ver toda a gente a divertir-se lá", contou.

Duas filhas, uma neta e muitos amigos

Num vídeo publicado recentemente nas redes sociais, George Floyd manifestava-se contra a violência e o uso de armas, concluindo: "A geração jovem está claramente perdida".

Floyd tinha deixado duas filhas em Houston: a mais velha, filha de Rose Hudson, sua namorada da juventude, tem agora mais de 20 anos e já é mãe de uma menina de três anos (mas ele não chegou a conhecer a neta); a mais nova, Gianna, com apenas seis anos, vive com a mãe, Roxie Washington.

"As pessoas sentiam-se intimidadas porque ele era tão grande que pensavam que ele era um lutador", contou Roxie Washington à imprensa. "Mas ele era uma pessoa amorosa ... e amava sua filha."

Numa entrevista ao canal de televisão MSNBC, outra irmã, Bridgett, disse que George Floyd era uma pessoa humilde e que seguia sempre as ordens: "Ele aprendeu com os seus erros", garantia. "Era um bom rapaz", que "enchia a sala só com a sua presença" e que "daria a roupa que trazia no corpo se alguém precisasse".

"Ele defendia as pessoas, estava lá quando estavam deprimidas ou quando precisavam de alguém", contou Courteney Ross, a namorada de Floyd. "Rezávamos em todas as refeições, rezávamos se estávamos a passar por um momento difícil, rezávamos se estávamos a viver um bom momento".

Nos últimos dois meses, Floyd estava sem emprego porque, devido à quarentena, o restaurante onde ele trabalhava estava fechado. Talvez isso ajuda a explicar o facto de, na segunda-feira passada, ele ter tentado usar uma nota falsa de 20 dólares para comprar cigarros na loja de conveniência Cup Foods. A polícia foi chamada e George Floyd foi detido e algemado. Mas, de acordo com o relatório policial, nesta altura Floyd resistiu a entrar no veículo da polícia. Foi então que, atirando-o ao chão, o agente Derek Chauvin o manteve imóvel pressionando o seu joelho sobre o pescoço do homem. Até este perder os sentidos.

As vidas dos negros importam

Os quatro polícias envolvidos na detenção foram demitidos da polícia de Minneapolis e o agente Derek Chauvin foi detido, acusado de homicídio involuntário.

Neste momento, o advogado Benjamin Crump está a receber e a visionar todos os vídeos enviados por pessoas que assistiram à detenção ou que foram captados pelas câmaras de vigilância existentes no local. Este domingo, Crump afirmou que este é claramente um caso de homicídio premeditado: "Pensamos que ele tinha intenção de matar, uma vez que deixou o seu joelho durante nove minutos sobre o pescoço de um homem que dizia que não podia respirar."

A morte de George Floyd e a violência visível nas imagens divulgadas provocou uma série de manifestações em mais de 30 cidades americanas - os protestantes começaram por pedir justiça mas, entretanto, a morte de Big Floyd transformou-se num pretexto para recordar outras injustiças e outros atos de racismo.

A morte de Floyd trouxe um novo fôlego ao movimento "Black Live Matters", que surgiu após a morte em 2012 de Trayvon Martin, um rapaz afro-americano de 17 anos, que foi morto com um tiro disparado por George Zimmerman em Sanford, na Flórida. Zimmerman era um membro da patrulha comunitária de segurança. Não havia qualquer motivo para disparar sobre Trayvon Martin a não ser o facto de ter considerado "suspeito" um rapaz negro, com uma camisola com capuz, a andar na rua à noite. Depois da absolvição de Zimmerman o movimento começou uma campanha nas redes sociais pedindo justiça para essa e outras mortes de negros, chamando a atenção para o facto de estas ficarem geralmente impunes.

Tal como George Floyd, também Eric Garner disse várias vezes "Não consigo respirar" enquanto o agente da polícia Daniel Pantaleo o estava a agarrar por trás, a apertar-lhe o pescoço com o braço, uma manobra conhecida por "mata leão". Garner acabaria por morrer uma hora depois. Isto aconteceu em julho de 2014 e a detenção foi registada em vídeo. A morte do afro-americano, de 43 anos e pai de seis filhos, originou uma onda de protestos contra a violência policial nos EUA, com milhares a saírem à rua. O agente foi demitido da polícia de Nova Iorque cinco ano depois, em 2019.

Igualmente polémica foi a morte de Michael Brown, em Ferguson, em agosto de 2014. Brown, um jovem afro-americano de 18 anos, estava a andar na rua com um amigo quando um polícia, num veículo, os abordou e lhes disse para usarem o passeio. A discussão continuou e o agente Darren Wilson acabou por alvejar o jovem que estava desarmado. Seis balas acertaram no seu corpo, duas delas na cabeça. O polícia alegou que sentiu a sua vida em perigo quando viu o rapaz avançar para ele: "Tive de disparar. Se não o fizesse, ele ter-me-ia matado. Nunca foi julgado. As manifestações , pacíficas e violentas, prolongaram-se por uma semana em Ferguson.

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