Agosto (s)em Portugal: a saudade aumentada dos que não vêm de férias

Há milhares de emigrantes portugueses que este ano não vêm de férias a Portugal, devido à pandemia. A maioria fá-lo por receio do contacto com os mais velhos, mas há outras motivações: a perda de rendimento ou a pressão dos patrões para a eventualidade de uma quarentena - não paga. A secretária de Estado das Comunidades diz ao DN que no final de agosto o Governo já deve ter esses números, cruzando vários dados, como os das operadoras telefónicas

"Só de imaginar que não podia abraçar os meus pais, a minha família, os meus amigos...isso fez-me tomar a difícil decisão de não ir a Portugal este verão". Isabel Salgueirinho deveria estar a preparar a mala para regressar à vila da Guia, no concelho de Pombal, um dos mais numerosos na emigração da região centro. Mas a pandemia trocou-lhe as voltas, tal como a milhares de portugueses espalhados pelo mundo, para quem este ano é como se não tivessem férias.

Não há ainda números fiáveis (só no final de agosto deverão ser conhecidos) mas a estimativa do governo - com base na informação das comunidades - aponta para quase metade dos emigrantes que este ano não vêm ao país de origem. Por medo de infetarem os pais, nalguns casos, de serem infetados, noutros, ou ainda pelo rendimento que perderam e querem recuperar agora. Há ainda os que se vêm "obrigados" a ficar, como é o caso dos emigrantes na Suíça, por exemplo, em que legislação em vigor os obriga a cumprir uma quarentena no regresso, sem que esse tempo lhes seja pago.

Isabel faz parte da vaga de emigrantes que deixaram Portugal no período da Troika. A meio da vida, entre um divórcio e um país em crise, decidiu tentar a sorte nos arredores de Paris, a fazer o que melhor sabia: rissóis, empadas, pastéis de bacalhau e outros salgados. Ao fim de nove anos, em janeiro passado, conseguiu abrir finalmente um estabelecimento seu, em parceria com a filha, em Saint-Maur-des-Fossés, a 11 km da cidade-luz.

"Abrimos a 4 de janeiro e dois meses depois tivemos que fechar", conta ao DN, numa altura em que tenta recuperar o tempo perdido. Planeara fechar três semanas em agosto, porque nesta altura a casa já estaria a funcionar em pleno, e então rumor a Portugal, para dias de convívio com a família e amigos. "Acho que me iria sentir presa, não o podendo fazer. E por outro lado, felizmente agora estamos a trabalhar bem, a servir refeições ligeiras, o que significa que tenho que aproveitar este momento para o negócio", acrescenta.

O ano que não conta

É como se 2020 fosse um ano de intervalo na vida, para muitos dos que integram a diáspora. E logo neste, em que o músico Dan Inger pensava regressar à terra-natal dos pais, Casaria, no concelho de Ourém. Daniel dos Santos, de batismo, não esconde em toda a sua obra como as raízes da família foram importantes para ele, mesmo que tenha nascido em Champigny, berço de boa parte da emigração na região parisense. "A última vez que fui a Portugal foi em 2018, no ano passado estava a trabalhar, aqui em França, e por isso esperava voltar este ano. Mas neste cenário é impossível", diz ao DN, numa altura em que, como todos os artistas, se vê sem trabalho e sem rendimentos. "Não tenho feito quase nada. Fiz o meu último espetáculo em fevereiro, antes do confinamento. Tinha preparado um single para ser apresentado num filme do português Carlos Pereira, previsto para março, mas já não chegou a acontecer".

Daniel alimenta-se agora dessas memórias do sucesso que teve, quando veio a Portugal a última vez e aproveitou as férias de agosto para apresentar o livro auto-biográfico "Trois notes de blues pou un fado", escrito por Altina Ribeiro. "Há dois anos foi magnífico. Além das férias na minha querida Casaria, ainda atuei nalguns locais, inclusive no castelo de Ourém", recorda. Por agora, sobrevive ao abrigo do regime para "intermittent du spectacle", que protege os artistas, produtores e técnicos em França.

Carlos Pereira lembra-se bem de quando teve que cancelar a apresentação do documentário "Os Herdeiros da Batalha de La Lys", prevista para março, numa universidade de Paris. O jornalista (diretor do Lusojornal) tem acompanhado de perto a agonia da saúde e da economia nas comunidades portuguesas, nomeadamente nas coletividades, que agora se vêm impedidas de realizar os tradicionais almoços, jantares e outros eventos de angariação de fundos. E também a dúvida, que foi crescendo nos últimos tempos, sobre a vinda a Portugal. Não foi o caso dele. Esta quinta-feira fez-se à estrada, e a esta hora estará junto da família, em Vila Real. "Quando vivemos longe e os nossos já têm uma certa idade, há sempre o receio de que seja a última vez que os vamos ver", enfatiza Carlos. Do muito que tem falado com os compatriotas, não lhe parece que, pelo menos em França, seja o rendimento que pesa na balança na hora de vir a Portugal. "Terá mais a ver com as questões fronteiriças, o receio de ir para Portugal e depois não poder regressar a França, perante um eventual fecho de fronteiras, nomeadamente de França com Espanha".

Desta vez Carlos Pereira vai ficar-se pela sua região de Trás-os-Montes, também ele com a esperança de melhores dias. "A edição em papel está suspensa, estamos apenas com a edição on-line. O impacto desta pandemia é grande, também para nós".

O perigo das áreas de serviço

É o medo do vírus que faz Ana Maria Rodrigues suspender a viagem de férias a Portugal, pela primeira vez. Mora na Holanda desde 2008, na cidade de Dordrect, e por estes dias já estaria entre Torres Novas (a terra do marido) e Pombal, onde moram os pais. "Tenho medo por eles. Senti que não tinha o direito de fazer os meus pais correrem esse risco. São 2.100 km, atravessamos vários países e paramos em muitas áreas de serviço. É complicado".

Desde há vários meses que Ana Maria ficou em casa, em teletrabalho, de acordo com as orientações da Embaixada Portuguesa, onde trabalha como administrativa, "Aqui a função pública ainda está em teletrabalho. Isso nota-se por exemplo nos transportes públicos, que vão praticamente vazios", descreve ao DN, ela que ainda sonha com uma melhoria das condições para os próximos meses, de modo a poder receber lá os pais. Os filhos, gémeos de 18 anos, deverão vir a Portugal no Outono.

Nos últimos anos Ana Maria desabituou-se da praia, de quem em tempos foi muito adepta. Mas por estes dias em que está "confinada" a um apartamento na cidade, é do cheiro do mar que mais sente falta. "Aqui o mar não tem cheiro. Nada se compara ao cheiro do mar do nosso país".

Em 30 anos na Suíça, esta é a segunda vez que Anália e Manuel Nunes não vêm de férias a Portugal no verão. Em ambos os casos, foram motivos de força maior: "a primeira vez foi quando nasceu a minha filha mais nova, prematura, há 23 anos. E agora é mesmo por causa da pandemia", conta ela ao DN. Juntam-se uma série de fatores: "eu faço parte de um grupo de risco, sou asmática e hipertensa. Além disso, o meu patrão mandou-me para casa em março, mesmo sem eu poder estar em teletrabalho, por causa das funções. Recebi sempre o salário a 100%. Agora estou de férias, mas regresso ao trabalho a 10 der agosto".

O duplo risco

Anália é uma das poucas mulheres operadores/reguladoras de CNC na Swatch, a indústria de relógios. Chegou à Suíça em 1991, tinha a filha mais velha três anos. Foi lá que já se tornou avó, há seis anos. "Em Portugal já só tenho a minha sogra, que, claro, também é de risco. Temos outra família e amigos, gostamos muito de ir, todos os anos. Mas confesso que tenho medo também por mim, apesar de Portugal não estar na lista negra de países proibidos". A filha mais velha é enfermeira e esteve sempre na linha da frente. Também ela não se cansa de lhe fazer recomendações. De modo que este ano as férias do casal Nunes são passadas à volta de Neuchâtel, entre caminhadas e passeios de bicicleta, de que se tornaram adeptos. Além disso, tem a sorte de viver rodeado de uma horta que mantém, recheada de frutas e legumes. Como se fosse Portugal, a 2.000 km de distância.

Durante o mês de julho, quando as dúvidas começaram a levantar-se e a desinformação ganhou espaço nas redes sociais, a associação Cap Magellan (a primeira de jovens lusófonos criada na Europa), sediada em Paris, acabou por criar um site específico para esclarecer os emigrantes (e turistas, também) sobre a real situação pandémica no país e respetivas regras.

"A situação atual está a sofrer alterações constantes, consoante o progresso ou recuo da pandemia. Portugal, Espanha, e França e as Instituições europeias estão envolvidos na tomada de decisões importantes que condicionam as férias e visitas a Portugal neste verão.

Assim, a associação Cap Magellan atualiza diariamente o site VacancesPortugalCovid.com, destinado a responder às questões que todos se colocam e a combater a falsa informação, na partida, durante a viagem, durante a estadia em Portugal e na viagem de regresso", esclarece a organização, numa nota enviada à imprensa.

A falta dos que não vêm

Para esta associação agosto sempre significou sensibilização em Portugal, para várias causas. Uma delas prende-se com a prevenção rodoviária. Há muito que a Cap Magellan percebeu a forma e o lugar de falar aos jovens, e por isso era presença assídua todos os anos, na discoteca Palace Kiay, entre Pombal e Leiria, que durante o mês de agosto abria portas todos os dias, desde há 37 anos. No ano mais difícil da vida de tanta gente, os proprietários, Lara Prince e Jorge Duarte, contam ao DN que todos os dias recebem mensagens de clientes emigrantes.

"São um público muito querido e muito bem vindo na Kiay. A energia enorme que transmitem junto com a euforia criada pela mistura de clientes habituais e "novas caras" cria um ambiente único e maravilhoso durante 4 semanas. A maior parte das mensagens que recebemos são de entendimento, mas com alguma tristeza. Tivemos vários emigrantes a dizer que não vêm a Portugal devido à falta de animação noturna".

Não é fácil descreverem o sentimento que toma conta de todos, este verão. Pelo país ainda há vários painéis com a inscrição "dia é praia, noite é kiay", o slogan criado nos anos 90. "Não podemos facilmente apontar um único sentimento em relação a não abrir a nossa Kiay neste verão 2020. Depois de 4 meses de frustração e tristeza e na altura da decisão, o sentimento foi de pânico: ter de avisar os nossos funcionários que não iríamos dar-lhes emprego no mês de Agosto, e pânico em ter de publicamente admitir uma certa desistência. Havia maneiras de abrir mas ponderámos todos os prós e contras. Fazer parte do problema neste momento não era uma escolha racional. Os sentimentos que predominam agora são de alívio e orgulho. Os funcionários entenderam e apoiaram a nossa decisão; e orgulho pela decisão que tomámos em prol da saúde pública". Em pausa até 2021, quando todos esperam voltar.

Berta Nunes, secretária de estado das comunidades

"Esperamos que venham todos os que puderem"

Este ano é expectável que venham menos emigrantes. Uma vez que tem focado muito a versão turistas, há uma preocupação com o impacto económico nas comunidades?

É evidente que toda esta crise sanitária está a levar-nos a uma crise económica, que tem várias componentes, e esta é mais uma. Ou seja, vamos ter emigrantes que virão e outros que ficarão nos países onde trabalham. E é claro que se traduz também numa menor dinamização da economia local e em mais problemas. O que nós esperamos e temos dito é que venham todos aqueles que puderem, mas sabemos que alguns não virão, ou porque têm perca de rendimentos ou problemas no trabalho - como nos foi reportado por líderes da comunidade com quem temos conversado. O que lhes estamos a dizer - e é verdade - é que Portugal é um país seguro e é um país aberto. Nós não temos nenhuma restrição em relação a qualquer dos países onde temos comunidades dentro da Europa.

E fora da Europa?

Estamos a seguir as recomendações europeias, e no caso do Brasil, Estados Unidos da América ou Canadá, temos a questão da reciprocidade: se deixam os portugueses entrar nós também deixamos os que vêm de lá. Em relação aos portugueses, podem entrar, terão é que trazer um teste feito nas 72 horas anteriores. Ou então podem fazê-lo no aeroporto.

Mas a secretaria de Estado tem algum dado concreto em relação aos números dos que não vêm este ano?

O que nós temos são perceções dos líderes da comunidade que nos dizem que virão 60%. Mas isso só depois das férias saberemos. Vamos ver com as próprias autarquias dos territórios, no fim de agosto, se estiveram os mesmos ou menos. Mas é tudo sempre uma perceção, não temos esses números. Os que vêm através da fronteira terrestre, não é possível saber porque não há controle; aos que vêm de avião, podemos ter alguns dados daqueles que são obrigados a preencher esses inquéritos. Vamos procurar esses dados através das operadoras de telemóvel. Nós temos a noção que grande parte dos nossos turistas são emigrantes ou lusodescendentes. E também aí é uma forma de ajudar o país.

Numa entrevista recente disse que muitos não viriam porque estariam a ser pressionados pelos patrões. Em que é que se baseia?

Alguns emigrantes e alguns líderes das comunidades têm-nos dito que há alguma pressão de alguns patrões dizem-lhes "se fores a Portugal e tiveres que fazer quarentena, eu não te pago a quarentena, podes ter problemas no trabalho". E isso é claro que retrai as pessoas, principalmente quando os seus empregos são um pouco precários.

E isso acontece sobretudo em que países?

Tivemos esse reporte em relação à Suíça, Alemanha, mas é possível eu aconteça noutros países. Mas o que estamos a dizer é que países como a Alemanha, França, Espanha ou Luxemburgo, onde temos grandes comunidades, neste momento não há nenhuma restrição. Nem a vir para Portugal nem a regressar. Com exceção do Reino Unido, em que temos um problema particular, todos os nossos emigrantes podem vir e podem ir à vontade.

Este é o fim de semana em que a maioria dos emigrantes chega a Portugal para gozar o tão esperado mês de agosto. A secretaria de estado preparou alguma ação específica?

Sim, eu vou estar no sábado às 11h30 em Vilar Formoso e nessa altura também terei outra perceção de como estará a vinda dos emigrantes.

*artigo retificado a 04/08/2020

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