Kelsey Young: “Quero em Coimbra mostrar incríveis dados e imagens da paisagem lunar”
Kelsey Young estará em Coimbra para a Glex Ignition, que se realiza a 29 e 30 de outubro. Cientista da NASA vai falar da sua experiência com a Artemis II.
Depois do sucesso neste ano da Artemis II está otimista de que em 2028 astronautas estarão novamente a caminhar na Lua?
Com certeza. Estou muito entusiasmada e grata por fazer parte desta visão e do plano da agência para levar os humanos de volta à superfície da Lua, e posso afirmar com toda a certeza que nos estamos a empenhar ao máximo para cumprir este cronograma, este prazo. É um período incrivelmente agitado aqui na NASA, e sei que, juntamente com os nossos parceiros comerciais e internacionais, estamos a levar este cronograma muito a sério e a trabalhar arduamente para alcançar não só esse objetivo, mas também o nosso programa Artemis no próximo ano.
Como foi para si estar no papel de liderança científica durante a missão Artemis II? Foi um momento histórico, com uma primeira forma de regresso à Lua e muitas descobertas científicas. Para si, foi um trabalho, mas também algo muito emocional?
Quer dizer, meio que acertou em cheio. Sou muito boa nisso, acho que uma das minhas características de personalidade me ajudou imenso, que é a minha capacidade de compartimentação, de manter as coisas separadas na minha mente, o que me permite focar verdadeiramente na tarefa em mãos. E depois, consigo meio que deixar de lado aqueles sentimentos de “uau, isto é incrível”, sabe? Mas certamente que estas duas coisas começaram a juntar-se um pouco. Por exemplo, no dia da passagem pela Lua, lembro-me de entrar na sala de controlo de voo nessa manhã, como já tinha feito várias vezes, e simplesmente entrar e sentir-me completamente diferente dos outros dias. Havia uma energia em toda a sala, como se todos estivessem a sentir o peso, a importância histórica daquele dia. Diria que todo o processo, uma honra da minha carreira, foi simplesmente incrível. O que realmente me impactou, fez-me pensar “meu Deus, não acredito que isto está a acontecer”, foi falar diretamente com os astronautas, poder ser alguém que estava literalmente a comunicar com a equipa enquanto observavam a Lua, depois de trabalhar com eles para compreender a Lua durante tantos anos. Foi um momento em que é preciso parar, respirar fundo e reconhecer a importância, tanto profissional como pessoal e emocional, de ter esta confiança depositada em mim para o poder fazer num momento tão crítico.
Consegue descrever o seu papel naqueles dias no início de abril?
Sim. Portanto, para a missão, desempenhei duas funções. Uma delas foi a de líder de ciência lunar, responsável por desenvolver e implementar aqueles que acabaram por ser 10 objetivos científicos lunares na missão. Ou seja, como poderíamos utilizar o perfil da missão para atingir estes 10 objetivos. Além disso, liderei a equipa de ciência lunar, que era composta por aproximadamente 60 pessoas de toda a NASA que estavam a apoiar a missão. A minha outra responsabilidade na missão, e esta é uma função que também desempenharei em missões futuras, foi a de líder de operações de voo científico. Nesta função, sou responsável pela integração da ciência lunar e da geologia no controlo da missão, pelo treino da equipa de controlo de voo e pelo desenvolvimento dos nossos novos laboratórios científicos. Implementámos, pela primeira vez na Artemis II, uma nova posição de controlador de voo denominada oficial de ciência. Esta posição é ocupada por cientistas lunares e geólogos com formação em controlo de voo e certificados pelos diretores de voo, tal como todos os outros controladores de voo. E eu sou o líder do grupo responsável por esta consola. E eu era um dos oficiais de ciências, por isso, naquele dia, durante o sobrevoo da Lua, eu era a oficial de ciências na consola do controlo da missão. E também estava ligada ao resto da minha equipa, da qual eu era a líder, que estava no laboratório de ciências.
Os EUA estão novamente a liderar a corrida espacial. Isto é muito importante para o país como um todo, mas especialmente para a comunidade científica. Estou a tentar imaginá-la a crescer nos EUA com Alan Shepard e Neil Armstrong como heróis desde a sua infância. Foi assim?
Absolutamente. Bem, eu era alguém que, em primeiro lugar, lia todos os livros sobre a Apollo, não só de astronautas, mas também da equipa de controlo da missão, que construiu o controlo da missão pela primeira vez para voos espaciais tripulados, Mercury e Gemini. Também gosto muito de ler sobre exploradores terrestres, como Ernest Shackleton, por exemplo. Assim, sempre admirei muito a exploração, seja no espaço, no fundo do oceano ou em partes inexploradas do nosso planeta. Ajudou-me realmente a sentir-me ligada a coisas sobre as quais li durante toda a minha vida e que admirei durante toda a minha vida, e também gerou uma imensa gratidão por poder ser parte, mesmo que uma pequena parte, de algo assim.
Houve algum momento na sua vida em que sonhou ser astronauta?
No início da minha carreira, candidatei-me algumas vezes. Mas nos últimos anos, com o desenvolvimento do projeto Artemis, pude trabalhar não só no Artemis II, mas também, olhando para o futuro, no Artemis III e nas missões à superfície lunar. Estou muito feliz onde estou agora. Já me candidatei antes, quando era mais nova, e agora não me vou candidatar novamente. Estou mesmo muito feliz onde estou.
É possível conciliar uma carreira de cientista com a de astronauta?
Sim, sim, o grupo de astronautas tem uma equipa incrivelmente diversificada em termos de formação. Claro que temos astronautas com experiência militar, embora nem todos fossem pilotos (embora muitos fossem), alguns eram médicos militares, outros pilotavam helicópteros, outros jatos. Mas também existem muitos outros tipos de formação, como engenheiros, médicos e cientistas. Duas das últimas três formações, por exemplo, selecionaram um geólogo. Temos realmente muita sorte por termos uma equipa tão diversificada em termos de formação, e já trabalhei com a maioria dessas pessoas. Chegam com a sua formação técnica, mas adaptam-se rapidamente a tudo o resto.
Pode explicar como percorreu este caminho até se tornar cientista na NASA?
Na licenciatura, formei-me em geologia, ou melhor, em geociências ambientais, mas era basicamente geologia. Eu estava numa universidade grande, mas num departamento muito pequeno. Acho que me formei com mais duas pessoas na minha turma, mas, por coincidência, este pequeno departamento tinha dois geólogos planetários incríveis. Literalmente, desde o meu primeiro semestre na faculdade, a primeira vez que tive uma aula e aprendi sobre esta ligação entre explorar a Terra e estudar o sistema solar, já tinha a certeza de que era isto que queria seguir. Também na licenciatura, participei em algumas pesquisas, sabe, pesquisas de licenciatura, em que ia para o terreno num ambiente que se assemelhava, neste caso, a zonas da superfície de Marte. E esta ideia de poder fazer caminhadas, estar no terreno, fazer ciência de campo e ainda assim fazer ciência planetária, motivou-me a candidatar-me a programas de pós-graduação para fazer geologia planetária através de trabalho de campo. E na pós-graduação, logo no meu primeiro ano, consegui uma ligação com o Centro Espacial Johnson, em Houston. Através da formação de astronautas em geologia, acabei por me candidatar a uma bolsa de investigação para financiar o meu doutoramento, o que incluía passar três meses por ano na NASA durante todo o período. Financiaram o meu doutoramento e encontrei a minha vocação em operações científicas, procurando maximizar a eficiência científica sempre que possível. Aprendi a linguagem e a cultura das operações, ao mesmo tempo que lhes ensinava a linguagem e a cultura de maximizar a ciência através da ciência lunar e das operações geológicas.
De onde é nos EUA?
Da zona de Washington D.C. Fiz a minha licenciatura em Indiana, na Universidade de Notre Dame, e depois fiz o mestrado e o doutoramento na Universidade Estadual do Arizona.
Vai visitar Portugal para participar no GLEX Ignition em Coimbra. Será a sua primeira vez em Portugal?
Sim, e este país está na minha lista de desejos há muito tempo. Estou muito entusiasmada.
Referiu que durante a sua infância gostava de ler sobre descobertas e exploradores. Lembro-me de falar com alguns cientistas da NASA que sempre mencionavam Fernão Magalhães e outros navegadores portugueses, como Vasco da Gama. São nomes familiares?
Certamente, sim. Conheço a ligação de Portugal às grandes navegações. Estou ansiosa por aprender muito mais sobre Portugal, especialmente quando estiver aí.
Qual será o tema que vai abordar na conferência GLEX em Coimbra?
Ainda estou a tentar organizar tudo, porque podia falar durante duas horas sobre as operações da missão Artemis, mas não tenho esse tempo [risos]. Assim, penso que o objetivo da palestra é contar a história da integração da ciência nas operações de voos espaciais tripulados, através da perspetiva do Artemis II. Falarei sobre o percurso do Artemis II para ilustrar aquilo a que dediquei a minha carreira: integrar a ciência completamente nas operações de voo. Espero conseguir abordar esta minha paixão pela integração e usar o Artemis como uma lente para contar esta história. Quero definitivamente em Coimbra mostrar alguns dos incríveis dados, imagens e vídeos da paisagem lunar. O problema será controlar o tempo [risos].
Já entrevistei alguns astronautas, incluindo Mae Jemison, primeira afro-americana no espaço. E pergunto-lhe, como cientista e mulher, é importante que um dia haja não só um ser humano de novo na Lua, mas finalmente uma mulher na Lua?
Claro, e eu própria tenho duas filhas pequenas, por isso penso muito nisso. Sobre modelos a seguir para as minhas filhas, independentemente do que elas acabem por escolher para se apaixonar. Uma coisa que vi ter repercussões na comunidade global durante e após a missão foi o facto de a equipa de controlo da missão - não só a tripulação, mas também as pessoas em terra, tanto no controlo da missão como na nossa equipa científica, porque tínhamos imagens da nossa área científica a serem divulgadas - ter muitas pessoas de origens diversas. E isso realmente repercutiu-se na comunidade global com a qual me pude conectar. E não foi uma escolha intencional, escolhemos as pessoas que se enquadram melhor no trabalho. Portanto, o facto de isto ter tocado as pessoas foi muito significativo para mim, tanto como cientista como mãe de duas meninas.

