Katja Hoyer: “É curioso que todos, incluindo os nazis, estavam obcecados com Weimar”
Os americanos obrigaram em 1945 os habitantes de Weimar a visitar Buchenwald. Fizeram o mesmo noutros campos de concentração na Alemanha?
Sim, fizeram-no também noutros sítios, como mostra o filme As Fábricas da Morte, com imagens de vários campos de concentração. Mas Weimar tem um peso especial. O que chocou os militares americanos foi as pessoas poderem ir a pé até ao campo. Era tão perto da cidade que os habitantes tinham forçosamente de saber que estava lá. Depois, havia o facto de Weimar ser vista como um lugar de alta cultura, símbolo de uma sociedade civilizada, e ter à porta o maior campo de concentração em solo alemão. A ideia era simples: se não vissem com os próprios olhos, as pessoas não acreditariam no que ali acontecera e diriam que era propaganda.
Durante a sua infância, o que aprendeu sobre Weimar?
Weimar conserva ainda hoje a reputação que tinha na década de 1920: um centro cultural da Alemanha, não o único, mas fortemente associado a Goethe, a Schiller e a outras grandes figuras da literatura, da música e da cultura alemãs. Quando ouvem a palavra Weimar, a maioria dos alemães pensa nessa época dourada, e a maioria dos turistas que lá vão fá-lo por causa de Goethe e Schiller, não pelo que aconteceu no século XX. Ainda assim, o campo de concentração é muito conhecido em toda a Alemanha, pela sua dimensão e pela sua triste fama. O meu pai cresceu na Turíngia, o estado onde fica a cidade, e contava que levavam as crianças a ver a exposição do campo, onde se mostravam coisas horríveis, como um candeeiro feito de pele humana. Isso era mostrado às pessoas no tempo da RDA. O campo tem uma reputação quase separada da cidade, que continua associada à literatura e à cultura.
Os alemães associam Weimar à cultura; eu associo-a ao nascimento da democracia pós-Primeira Guerra Mundial. Mas, como refere no livro, Weimar foi uma cidade muito especial também para Adolf Hitler. Porquê?
Weimar era especial para toda a gente, e foi por isso que a escolhi para este livro. Todos os que queriam moldar a Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial sentiam-se atraídos por ela, porque tinha a reputação de ser o coração cultural do país. Se se quer mudar a forma como um país inteiro pensa, Weimar parece o lugar óbvio para lançar esse movimento. É em parte por isso que a nova república democrática ali foi fundada em 1919, que a Bauhaus, movimento de arte e arquitetura, ali nasceu, e que também os nazis foram atraídos para lá. Até os jovens socialistas se reuniram em Weimar, para aproveitar esse contexto e partir dali para toda a Alemanha, levando consigo o “espírito de Weimar”. É curioso como todos, incluindo os nazis, ficaram obcecados com a cidade. No caso de Hitler, o que descrevo no livro é que o Partido Nazi foi proibido depois da tentativa de golpe em Munique, em 1923. Quando ele sai da prisão, no final de 1924, não tem onde fazer campanha: o partido está proibido em todo o lado e ele próprio está impedido de falar em público. Ora, a Turíngia acabara de ter eleições em que sete candidatos nazis entraram no parlamento como independentes ou noutra lista. Eram necessários para uma maioria conservadora, e os conservadores tiveram de fazer concessões para que tolerassem o governo. Uma delas foi levantar a proibição do Partido Nazi na Turíngia. Os nazis locais dizem então a Hitler: “Porque não vem cá ver? Aqui pode mover-se livremente, falar, fazer o que quiser.” Ele chega a Weimar em 1925 e, como o próprio disse, apaixona-se imediatamente pela cidade. Desenvolve com ela uma relação muito pessoal. Gosta genuinamente de lá estar. Mas, além disso, era um ótimo ponto de partida para um movimento. E tinha uma localização central na Alemanha: sempre que ia de Munique para Berlim passava por lá, e era fácil reunir delegados de todo o país. Sempre foi local de fácil acesso.
Weimar sofreu muitos bombardeamentos durante a Segunda Guerra Mundial?
Foi muito afetada, embora não diga que se destaque, porque muitas cidades alemãs foram duramente bombardeadas. Mas Weimar teve uma razão específica para ser alvo: Fritz Sauckel, o gauleiter, o líder nazi regional, construíra um gigantesco complexo de trabalho forçado em redor de Buchenwald, onde se fabricavam munições. Sem os esforços de Sauckel, Weimar teria sido apenas uma pequena cidade sem motivo para ser bombardeada, e talvez tivesse sido poupada. Foi por isso que ficou tão destruída e teve depois de ser reconstruída. Quando lá se vai hoje, não parece que tenha sido bombardeada. Foi reconstruída com muita fidelidade, tal como era antes. Até o governo da RDA considerou o centro histórico digno de preservação e fez o possível para o reconstruir tal como era. O famoso teatro onde a República foi fundada em 1919 está exatamente igual às fotografias a preto e branco da época, mas foi atingido diretamente por uma bomba, ardeu e teve de ser reconstruído. Tudo isto porque Weimar era considerada importante até pelos socialistas, que também a quiseram preservar.
O diário de Carl Weirich é um documento único. Permite conhecer o quotidiano de alguém que viveu até aos 92 anos. Ele é representativo dos alemães da época?
Não creio que uma só pessoa possa representar todos os alemães. Mas ele representa uma pessoa comum, não particularmente política, que é afetada por tudo o que acontece, da Primeira Guerra Mundial à hiperinflação, à Grande Depressão e a tudo o que veio depois. O que tento fazer com ele é tornar compreensível como é que uma pessoa comum, um tipo bastante simpático, acaba, pelo menos temporariamente, fascinado pelo nazismo. Ele não o diz abertamente, mas suspeito fortemente que votou em Hitler em 1932 e de novo em 1933. Precisamos de abandonar a ideia de que estas pessoas eram intrinsecamente más e movidas pela ideologia. Eram pessoas comuns, e é isso que torna tudo tão perturbador. É isso que precisamos de perceber: como é que alguém como Carl, que noutra época teria levado uma vida perfeitamente normal, consegue viver numa cidade com um campo de concentração mesmo ao lado e conviver com isso? E continua a fazer caminhadas, inclusive no monte onde fica o campo. É isso que procuro mostrar com Carl. O documento é de facto único, porque são poucas as pessoas comuns que mantêm um diário. Normalmente são generais, escritores e pessoas que se consideram importantes, e isso é pouco útil, porque querem apresentar-se sob uma certa luz. Carl limita-se a anotar o que acontece à sua volta, sem qualquer preocupação em se promover. Deixa tudo registado. Poderia ter alterado ou cortado passagens mais tarde, mas não o fez.
Refere também que em Weimar os judeus estavam especialmente integrados e eram pessoas instruídas, como noutras partes da Alemanha. Mas essa integração não importava aos nazis.
Sim, e o exemplo de Weimar torna isso muito evidente. Havia apenas cem judeus numa população de 35 mil pessoas. Não fazia diferença se a comunidade era pequena ou grande. Nem sequer havia sinagoga; não eram visíveis como comunidade. E, mesmo assim, foram escolhidos como alvo. No fim, quando restavam muito poucos, as SS chegaram a publicar uma lista com os nomes dos últimos judeus que ainda tinham lojas e negócios na cidade, para que também eles fossem intimidados e expulsos pela multidão. Rosa Schmitz, uma das figuras centrais do livro, é um caso particularmente extremo. Conseguiu esconder a sua origem judaica durante muito tempo, ao ponto de Hitler se hospedar no seu hotel, mostrar simpatia por ela e voltar lá. Nada disso a protegeu, pelo simples facto de ter nascido numa família judia. É também um exemplo que ajuda a responder a uma pergunta frequente: porque é que não se foram simplesmente embora? Percebe-se bem por que razão os judeus de Weimar tomaram as decisões que tomaram. Estavam enraizados ali, viviam ali, aquela era a sua casa. Alguns tinham servido na guerra, ou tinham maridos que serviram. Pensavam que aquela era ainda uma sociedade alemã civilizada, onde estas coisas não aconteciam. Simplesmente não conseguiam acreditar. Se em 1933 alguém chegasse com uma máquina do tempo e lhes dissesse que Auschwitz se tornaria realidade, não acreditariam.
Há ainda outra personagem, Kurt Nehrling, que representa os alemães que resistiram ao nazismo. É uma parte da história alemã pouco conhecida: nem todos eram nazis, e alguns tiveram atitudes corajosas contra o regime.
Sim. Ele faz parte de uma minoria de pessoas tão guiadas pelos seus ideais e valores que consideram a própria vida menos valiosa do que esses ideais. Essa minoria era muito pequena, mas eu queria ter a certeza de que havia alguém assim no livro, porque existiram mesmo. No caso dele, é particularmente notável porque não é judeu. Além de ter sido membro do Partido Social-Democrata, não está naturalmente na lista de inimigos do regime. Poderia facilmente ter dito, como muitos: “Está bem, aceito a vossa oferta.” Os nazis tentaram conquistar os trabalhadores, e ele podia ter aceitado a habitação pública, feito o seu trabalho, mantido a discrição, tirado férias subsidiadas pelo regime, vivido melhor do que nos anos 1920 e não se ter preocupado com o que acontecia aos outros. Foi isso que a maioria fez: aprendeu a viver com aquilo. Ele não desiste e continua a lutar até ao fim, mesmo tendo mulher e dois filhos pequenos. É um risco enorme para si e para a família, mas, ainda assim, fá-lo. Hoje há em Weimar uma rua com o nome dele, precisamente aquela onde morava.
Fala-se muito de novo de extremismo na Alemanha, e há quem diga que o fenómeno é especialmente forte no Leste, a antiga Alemanha comunista pré-reunificação de 1990. E seria porque essa parte do país não lidou com o legado nazi da mesma forma que o Ocidente. Concorda?
Não. Como sou da Alemanha de Leste, sinto-me sempre ofendida com a ideia de que as pessoas de lá são, de alguma forma, menos capazes de ser democráticas ou de perceber de política. Penso que reagem com mais intensidade aos mesmos fenómenos que vemos em toda a Alemanha e, na verdade, em todo o mundo ocidental. Durante muito tempo disse-se que isto era específico do Leste, mas as sondagens mostram que a AfD lidera já há algum tempo a nível nacional. Está atualmente com cerca de 29%, quase dez pontos à frente dos conservadores que governam o país. Dizer “sim, mas no Leste é ainda maior” era verdade há cinco anos; entretanto, o Ocidente chegou a esse patamar e agora o Leste volta a estar à frente. Há muitas razões para isso, mas é um erro pensar que, isolando o Leste, o resto da Alemanha não teria um problema. Aliás, quando se alarga a perspetiva, a Alemanha Ocidental é que surge como a anomalia. Os resultados eleitorais no Leste são bastante semelhantes aos da Áustria, da França ou da Polónia, onde também há muitos votos à direita. O Ocidente manteve-se fiel aos partidos tradicionais durante mais tempo porque tem uma longa experiência com eles e está disposto a dar-lhes outra oportunidade, mais do que os alemães de Leste, que só os conhecem desde 1990.
Vê semelhanças entre os anos 30 do século XX e os dias de hoje, ou trata-se de um fenómeno completamente diferente?
É uma época muito diferente. Uma das grandes diferenças é o nível de violência dos anos 20 e 30 do século passado, que hoje simplesmente não existe. Seja o que for a AfD, não tem quatro milhões de membros de um grupo paramilitar armado a assassinar e torturar opositores. E isso foi essencial para os nazis aprovarem a legislação que transformou a democracia em ditadura. As pessoas esquecem-se: Hitler foi eleito, sim, mas precisou de aprovar essa legislação no Reichstag, e só o conseguiu porque afastou fisicamente os deputados comunistas, prendendo-os, assassinando-os ou forçando-os ao exílio. Não estavam lá para votar contra. A AfD não pode nem vai fazer nada semelhante. É uma situação muito diferente. O clima de hoje não é de um medo que impeça as pessoas de se manifestarem. Travamos uma batalha política, não uma batalha de rua.
Não encontra qualquer semelhança?
A semelhança está no que impulsiona o voto. As pessoas sentem que os partidos tradicionais já não respondem às suas necessidades e querem mudança. Tentaram repetidamente, de várias formas, expressar as suas preocupações, seja sobre a economia, a imigração ou outro tema. Sentem que o centro não cumpriu as promessas e que muitas vezes lhes diz que estão errados, que veem as coisas de forma distorcida. Isso também aconteceu no início dos anos 30, com o chanceler Brüning, que ia à rádio dizer, no fundo, “é o que é, habituem-se”, enquanto aplicava um programa de austeridade muito rígido. As pessoas não viam nisso a solução: estavam preocupadas com a habitação, a comida, o sustento das famílias, e tudo o que o governo lhes dizia era isso.

