É a “tempestade perfeita”, “uma dor de cabeça”, “um caos”, “uma vergonha” e uma “incompetência”. A lata adjetivação para caracterizar o atual quadro nos aeroportos nacionais é empregue pelas principais associações de turismo do país que pedem, em uníssono, a suspensão imediata do novo sistema europeu de controlo automatizado de fronteiras externas. As longas filas de espera que se têm repetido quase diariamente por via dos constrangimentos na implementação do Entry/Exit System (EES) estão a impactar negativamente a imagem de Portugal e poderão trazer consequências para a economia nacional se não forem acionadas medidas de emergência, alertam os representantes ouvidos pelo DN. As agências de viagens avisam que os fluxos turísticos serão desviados para outros países, as companhias aéreas afiançam estar num “dilema” e pressionadas por um aumento dos custos e do lado da hotelaria há “uma tensão enorme”. “O aeroporto de Lisboa está esgotadíssimo, a época alta vai começar e isto soma-se à conjuntura marcada por problemas no abastecimento e de ligações de voos. É a tempestade perfeita e estão criadas as péssimas condições para que o verão corra mal, é tudo o que não precisamos num ano em que o turismo em Portugal está numa fase muito sensível. É preciso que haja uma pressão em Bruxelas para que o sistema seja suspenso”, refere a vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Cristina Siza Vieira.O cartão vermelho é também levantado pela RENA, a Associação das Companhias Aéreas em Portugal, que diz ser “muito pouco razoável” o cenário registado, principalmente, nos aeroportos de Lisboa e de Faro.“Algo não está a correr bem na implementação do sistema e na recolha dos dados. Isto está a levar a situações complicadas que deveriam ser objeto de uma atuação mais célere e mais eficiente. É necessário um plano de ação claro e assertivo e o Governo precisa de ter uma postura menos restrita e menos de ‘bom aluno’ com Bruxelas para aplicar a suspensão”, aponta o diretor executivo da RENA, António Moura Portugal. Pelo mesmo diapasão afina o presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV) ao defender que a “a solução da suspensão é a mais eficiente”, embora admita que a falta de agentes se configura num entrave. Miguel Quintas assume-se ainda “muito preocupado” e “frustrado” com a atuação do Governo. “O que se está a passar é um caos, uma vergonha e uma incompetência completa na gestão deste procedimento nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro. Há falhas na tecnologia, no equipamento e no planeamento na formação das pessoas. Há um ano que andamos a alertar o Governo e tantos meses depois nada foi feito para assegurar esta situação”, acusa.Recorde-se que o EES entrou em funcionamento em Portugal e nos restantes países do espaço Schengen em outubro de 2025, de forma faseada, substituindo os tradicionais carimbos nos passaportes por registos eletrónicos centralizados através da recolha de dados biométricos que incluem fotografia e impressões digitais. O sistema - que em território nacional é coordenado pelo Sistema de Segurança Interna (SSI), em articulação com a Polícia de Segurança Pública (PSP), a Guarda Nacional Republicana (GNR), a ANA Aeroportos, a Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) e as administrações portuárias - aplica-se a todos os cidadãos não pertencentes à União Europeia (UE) que entrem no território para estadias de curta duração, até 90 dias num período de 180 dias, independentemente de necessitarem de visto. A primeira tentativa de implementação do EES em Portugal resultou num agravamento dos constrangimentos na zona de chegadas, principalmente no aeroporto de Lisboa, com longas filas de passageiros de fora da UE a terem de aguardar várias horas para atravessar o controlo fronteiriço.O Governo decidiu suspender temporariamente o sistema em dezembro, retomando a sua reativação gradual no início do ano. O mecanismo entrou plenamente em funcionamento no passado mês de abril e, desde então, os tempos de espera, sobretudo na Portela, voltaram a agravar-se.“Isto tem resultado em perdas de voos e de ligações para os passageiros e em problemas com as bagagens. Estamos a ser altamente prejudicados enquanto destino junto dos parceiros internacionais e principalmente junto dos turistas não-Schengen que quando chegam a Portugal se deparam com filas muitas vezes superiores a duas horas”, ilustra Miguel Quintas. .Medidas do Governo são “paliativas” e é preciso uma resposta “assertiva”.Do lado do Governo, o mea culpa tem sido feito ao longo dos últimos dias. Depois de o primeiro-ministro, Luís Montenegro, se ter assumido “insatisfeito” com a resposta dada “por parte dos serviços de fronteira nos aeroportos, principalmente em Lisboa”, Miguel Pinto Luz reconheceu que o quadro é um “embaraço”. “Não queremos comprometer a imagem de Portugal mais do que já foi comprometida. Não vou pôr a minha cabeça na areia. Nas próximas semanas, no próximo mês, vamos mitigar a situação. Estamos a investir tudo o que é possível no hardware”, afirmou o ministro das Infraestruturas e Habitação, na semana passada. Já o ministro da Administração Interna (MAI) reiterou a assunção de responsabilidades. “Volto a reconhecer que, de facto, não estamos como gostaríamos de estar”, indicou. O ministério liderado por Luís Neves justificou os elevados tempos de espera nas fronteiras com falhas pontuais dos sistemas informáticos, obras em curso nalgumas áreas operacionais e um elevado volume de passageiros concentrados em curtos períodos de tempo. De forma a dar resposta, o MAI anunciou que partir da próxima sexta-feira, 29 de maio, será incrementado o número de boxes de controlo manual de fronteiras no aeroporto Humberto Delgado bem como ampliado o número de e-gates (fronteiras automáticas). A partir de julho será feito um reforço de 360 agentes da PSP nas várias infraestruturas aeroportuárias do país. Para os representantes do setor, as medidas são “insuficientes”, “paliativas” e podem comprometer a operação de verão por estarem a ser implementadas demasiado tarde. “Era preferível que estas respostas entrassem em vigor no imediato, antes de chegarmos ao pico de julho. É preciso adequar os meios humanos e materiais para estarem a funcionar em pleno nessas alturas de pico”, sustenta António Moura Portugal. O diretor executivo da RENA entende que é imperativo um “plano de ação claro e assertivo”. “Tem de haver mais explicações e mais informação, as pessoas e os operadores merecem-no. O Governo não pode só dizer que lamenta e que vai resolver, isso não chega”, salienta.A Comissão Europeia (CE) já veio demarcar-se de responsabilidades relativamente às filas em Portugal. “Os atrasos podem ter várias causas e, muitas vezes, não estão relacionados com o funcionamento do EES, é também esse o caso aqui”, esclareceu à agência Lusa. O executivo comunitário defendeu-se afirmando que “na maioria dos Estados-membros o processamento dos registos de primeira vez demora, em média, pouco mais de um minuto”, dado que é rejeitado pela RENA.“Se os burocratas de Bruxelas pensam que isto demorava 60 segundos, estão enganados. [O procedimento de recolha de dados biométricos] demora três minutos e meio. Se estivesse no lugar do Governo português já estaria a colocar estatísticas cá fora”, contrapõe o representante das companhias aéreas. A CE recordou que a legislação europeia define medidas de flexibilização e procedimentos alternativos para a suspensão do EES em situações consideradas excecionais - e que já foram acionadas, por exemplo, pela Grécia e pela França. António Moura Portugal vinca que Portugal deveria estar, em conjunto com outros países, a pressionar a CE. “Portugal, Grécia, Espanha, Itália e países que vivem muito do turismo deviam estar unidos nisto, mas Portugal parece que não quer assumir o falhanço. Não podemos estar com um discurso a dizer que está tudo a correr bem do ponto de vista tecnológico, do ponto de vista da operacionalização e da recolha porque depois isso é contraditório com a suspensão. O Governo tem de admitir as falhas”, acrescenta. Também a AHP considera que Portugal deve aproveitar os exemplos dos outros Estados-membros para se impor junto de Bruxelas “Se do ponto de vista tecnológico está demonstrado que há algo que é comum na Europa, ou pelo menos, aos países com maior pressão turística, diria que Portugal e Espanha, por exemplo, deveriam associar-se e fazer uma participação conjunta para suspender o sistema. Parece-me que neste momento é o que tem de ser feito”, insiste Cristina Siza Vieira..Portugal pode perder turistas.As associações ouvidas pelo DN não têm dúvidas de que a procura turística no país será impactada. As notícias sobre os elevados tempos de espera nos aeroportos portugueses têm corrido o mundo e a má publicidade trará consequências. “Estive no Brasil há umas semanas e as notícias diziam que há filas de 10 a 14 horas na Portela, o que não é verdade. As pessoas quando estão exasperadas inventam histórias, mas infelizmente é esta a informação que está a ser passada e isso terá um custo”, lamenta Miguel Quintas. O presidente da ANAV explica que os constrangimentos nos aeroportos do país estão a assumir protagonismo na hora de os operadores internacionais venderem o destino nacional. “Quem envia turistas para Portugal sabe que eles terão problemas e avisam-nos. No momento da venda são, naturalmente, apresentadas alternativas aos clientes e Portugal será afetado. O mercado é ágil a responder e a prova é que 6% das vendas de turistas do Reino Unido que estavam destinadas a Espanha foram divergidas para a Grécia [que suspendeu o EES para os britânicos]”, exemplifica. A juntar lenha à fogueira tem estado a Ryanair que também já exigiu a suspensão do EES. A companhia low cost tem utilizado as redes sociais para satirizar o caso português e criticar os elevados tempos de espera na capital. “A Ryanair tem uma capacidade muito grande de chegar ao consumidor final, transporta milhões de passageiros para Portugal. É muito mau para o país e o Governo não tem mecanismos de controlo destes dramas”, diz Miguel Quintas.A porta-voz dos hoteleiros concorda que as publicações da companhia irlandesa afetam a imagem de Portugal e reforçam a “má experiência” que o país está a prestar. “Quem tiver outras alternativas irá aproveitá-las. Por muita vontade que haja de ir ao Algarve, começa já a existir um desvio para Sevilha. É de esperar que, existindo uma resposta melhor de outras infraestruturas, se desvie o tráfego para lá”, perspetiva. Cristina Siza Vieira destaca ainda que os hotéis estão a enfrentar “uma tensão imensa” na gestão dos hóspedes que, depois de várias horas de voo, têm de se sujeitar às longas filas. “As pessoas estão saturadíssimas e não é fácil de gerir e de informar sobre o que está a acontecer”, partilha. A vice-presidente executiva da AHP refere que as perturbações no aeroporto de Lisboa são “mais uma pedra na engrenagem” num ano envolto em incertezas para a atividade económica. “A conjuntura da guerra e da inflação estão a ter impacto e há mais reservas de última hora. Este é mais um fator de stress para adicionar”, enumera.Já as companhias aéreas apontam para um aumento dos custos provocados pelos atrasos dos passageiros que chegam tarde aos voos por estarem presos no controlo fronteiriço. “Há passageiros que perdem os voos e o avião parte com a bagagem que tem de ser reposta em terra e isso tem um custo. Se a companhia esperar por ele enfrenta um problema de potencial desrespeito pelo slot atribuído e potencial coima. Há ainda um problema reputacional porque é a companhia que dá a cara perante o passageiro apesar de ser alheia a toda a situação. Com este sistema, o primeiro prejudicado é o passageiro e o segundo prejudicado é a companhia aérea”, defende António Moura Portugal. O diretor executivo da RENA não descarta a possibilidade de as operadoras virem a imputar responsabilidades pelos custos adicionais resultantes dos constrangimentos da implementação do EES, embora assegure que, para já, a postura é de colaboração para solucionar o problema. “Será uma decisão individualizada e cada companhia é livre de proceder da forma que bem entender e de se defender com isso. Se alguma companhia tiver algum tipo de processo de contraordenação é normal que se defenda”, conclui..Ministro da Administração Interna sobre filas nos aeroportos: "Não estamos como gostaríamos de estar".“É um embaraço”. Pinto Luz garante que Governo está comprometido em acabar com filas nos aeroportos