Tobias Adrian nasceu na Alemanha, em julho de 1971 (vai fazer 55 anos este mês), é formado em Economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e em Econometria pela London School of Economics (LSE).Desde 2017 que é conselheiro financeiro e economista-chefe para os mercados monetários e de capitais na instituição sediada em Washington. Vai abandonar o cargo no final de agosto deste ano, 2026.Encontrámos Tobias Adrian em Sintra, na 13ª edição anual do Banco Central Europeu, Fórum BCE, um dos oradores do painel mais aguardado do evento sobre os perigos e desafios que a Inteligência Artificial representa para a estabilidade financeira global.O economista-chefe defendeu que, por enquanto, os enormes volumes "investimento" a nível global nos mercados e nas tecnologias de Inteligência Artificial (IA) parecem não ser uma "bolha" especulativa que pode rebentar mais cedo ou mais tarde, mas começa a notar-se um risco relevante para o cumprimento dos elevados valores de dívida entretanto contraída pelas empresas que investem no segmento da IA.Outro perigo são as novas, sofisticadas e velozes formas de fraude e ataques cibernéticos, apontou o conselheiro do FMI.Na entrevista que deu ao DN/Dinheiro Vivo, à margem do Fórum, Tobias Adrian diz que em relação ao referido risco associado à dívida, “a forma como eu colocaria a questão é que existem várias vulnerabilidades que estão a convergir, e é essa combinação de vulnerabilidades que gera o risco”.“Em primeiro lugar, existe uma concentração no sector tecnológico, ou seja, há um fator comum muito forte. Em segundo lugar, as avaliações nos mercados acionistas estão muito esticadas. E, em terceiro, existe alavancagem tanto do lado dos devedores— as empresas tecnológicas — como dos investidores [os acionistas]”, enumera.Para Adrian, “há cada vez mais investimento alavancado, tanto em ações como em obrigações de empresas tecnológicas” e, portanto, “é realmente esta combinação de vulnerabilidades que é preocupante”.Quanto à dimensão concreta deste perigo, o alto responsável do FMI diz que ainda não tem tais dados na sua posse. “Não posso dar-lhe um número exato nem dizer quando estes riscos se poderão materializar. O que diria é o que referi esta terça-feira, no Fórum BCE: a rentabilidade destas empresas tem surpreendido muito pela positiva, apesar de as previsões serem já por si muito otimistas”.Por isso, “a minha preocupação é que, a determinada altura, os resultados possam desiludir”.A seu ver, isto “pode desencadear um reajustamento dos preços dos ativos, o que, por sua vez, poderia levar a um processo de desalavancagem dos investidores, acabando por exercer pressão tanto sobre as ações como sobre as obrigações deste sector”.Seja como for, o economista diz que continua a não interpretar estes sinais como um comportamento típico de bolha”.Significa isso que estamos mais longe do pior cenário, que é termos uma bolha e que esta rebente? A resposta de Adrian é algo desarmante. Diz que “não necessariamente, é praticamente impossível identificar uma bolha em tempo real. O que procurei fazer foi apresentar argumentos dos dois lados, mas não posso afirmar categoricamente que não estamos numa bolha”.O conselheiro do FMI reitera que atualmente, no lado das ações, “existem avaliações esticadas, mas parte desse excesso já diminuiu, pelo que há um pouco menos de pressão do lado das valorizações”. “Além disso, não estamos a observar um crédito indiscriminado nem uma disponibilização indiscriminada de capital próprio e de dívida neste espaço.”Seja como for, o perito chama a atenção de que “a preocupação de muitos analistas é que possam surgir ciclos de expansão e contração (“boom and bust”) ao nível do investimento”.O problema da dívida“Parte destes investimentos é financiada através de mercados de dívida de longo prazo, mas os chamados hyperscalers [os grandes atores do sector, com uma hiperescala] estão a investir em semicondutores e equipamentos que podem devalorizar-se relativamente depressa, embora ainda não saibamos qual será o ritmo dessa depreciação”.E é aqui que podem começar os problemas a sério para a economia e para a estabilidade dos mercados. “Pode existir um desfasamento de maturidades entre os passivos — a dívida — e os ativos — os chips e os centros de processamento informático. Esse desfasamento também é motivo de preocupação.”Adrian diz que “não sei ao certo se estamos ou não numa bolha”, o que consegue dizer neste ponto “é que as pressões de valorização diminuíram em certa medida porque os lucros têm sido elevados e os preços das ações baixaram relativamente aos resultados empresariais”.Mas voltando aos perigos que pendem sobre a dívida, ele podem migrar outra vez para os soberanos, os governos, as contas públicas? Sobre se isto o preocupa e se vê riscos nessa área, a resposta é curta e direta: “Sim, absolutamente.”Depois explica que assim é também porque, apesar dos progressos desde a grande crise financeira que rebentou em 2010, a pressão da dívida pública, logo a exposição dos países a oscilações nestes mercados, é demasiado elevada.“As instituições financeiras alavancadas estão a fornecer mais financiamento aos Estados”, “os governos continuam a emitir dívida e mantêm défices orçamentais elevados”, “a dívida global aproxima-se dos 100% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial”, resume.“Em períodos favoráveis, esta capacidade de absorver risco de duração é muito bem-vinda pelos governos. Contudo, os investidores alavancados também são mais ativos e interventivos. Podem exercer pressão sobre os governos quando não concordam com determinadas políticas orçamentais. Existe, nesse sentido, uma forma de disciplina de mercado”, descreve Tobias Adrian.Seja como for, o problema da dívida persiste porque “esses investidores mais endividados também podem ser forçados a desalavancar” pelo que “nesses momentos, pode surgir um mecanismo de amplificação que os obriga a vender ativos rapidamente. Isso pode provocar disfunções de mercado e aumentar os custos de financiamento dos governos, tanto a curto como a longo prazo”, adverte.A curto prazo há um choque imediato “porque é necessário refinanciar regularmente a dívida”. A longo prazo, “o prémio de risco pode aumentar”, o crédito fica “mais caro”.Sobre se existe alguma estimativa mais atual da proporção de investimento em altas tecnologias como a IA efetivamente financiada por dívida, Tobias Adrian tem alguns dados que permitem dizer que “o novo investimento está financiado aproximadamente numa proporção de 50%-50%”. “No caso da inteligência artificial, cerca de metade é financiada por dívida e metade por capital próprio”.Sobre as implicações deste enorme advento que é Inteligência Artificial para a política monetária e para os bancos centrais, o conselheiro do Fundo considera que “existem duas forças”.“A primeira é que a IA pode aumentar a produtividade, o que tenderia a exercer pressão descendente sobre os preços. Ao mesmo tempo, porém, poderia fazer subir as taxas de juro, porque, em geral, um aumento da produtividade está associado a taxas de juro mais elevadas.”Assim sendo, “as taxas de juro neutrais [naturais, as de equilíbrio para os bancos centrais, que no caso do BCE pode rondar os 2%] poderão subir, enquanto as pressões inflacionistas poderão diminuir devido à nova capacidade deflacionista gerada pela tecnologia”.Mas há um outro cenário, mais inflacionista e esse está já ao virar da esquina, o que pode precipitar subidas de taxas de juro. “Estamos a assistir a um enorme boom [explosão] de investimento em IA, que impulsiona a procura agregada, e isso tende a aumentar a inflação”.Mais: “além disso, apesar destes investimentos maciços, o custo da computação — os tokens necessários para utilizar sistemas de IA — está a tornar-se mais elevado. Portanto, há argumentos para ambos os lados: a inflação poderá subir ou poderá descer”, acrescenta o especialista.Além disso, a inflação também poderá baixar porque a tecnologia se tornará mais barata “caso esse aumento de produtividade se concretize”. Nessa medida, “estamos a observar ganhos de produtividade ao nível microeconómico, mas ainda não vemos isso refletido nos números macroeconómicos”, aponta.Mas sim, se a IA trouxer “um verdadeiro boom de produtividade nos indicadores macroeconómicos, então isso poderá ter um efeito deflacionista”.A IA, ao puxar pela dívida e ao moldar o sector bancário e financeiro, também traz implicações grandes para a regulação e a supervisão. Sobre isso, Adrian considera que “as autoridades de supervisão já estão muito focadas em compreender de que forma a IA está a ser utilizada e quais poderão ser as suas implicações para a estabilidade financeira”.“Refiro-me a entidades internacionais de definição de normas, como o Conselho de Estabilidade Financeira (Financial Stability Board) e o Comité de Basileia, que já emitiram orientações de alto nível sobre a forma de abordar a IA do ponto de vista regulatório e de supervisão”, explica.Mas com um senão: “Dito isto, é certo que estão a surgir novos desafios e ainda não temos todas as respostas sobre como lidar com eles do ponto de vista regulatório ou de supervisão.”O economista também tem estudado as implicações das ações maliciosas e criminosas que usam a alta tecnologia de tal forma que podem, pela sua rapidez e sofisticação, por em xeque a preciosa estabilidade financeira ou, por exemplo, prejudicar as entidades mais frágeis ou vulneráveis da economia empresarial, que são a esmagadora maioria, as Pequenas e Médias Empresas (PME).Adrian observa que “o grande risco que hoje temos é o da cibersegurança e da fraude” e que “tanto as empresas como os indivíduos estão sujeitos a fraudes e a ataques cibernéticos”. As grandes instituições dispõem, provavelmente, dos recursos e da sofisticação necessários para se protegerem melhor, mas como sabemos para as empresas mais pequenas, a situação é mais difícil”.Aqui, diz que vê “duas vias possíveis”. “Uma delas passa por recorrer a grandes fornecedores tecnológicos que atualizam permanentemente o software e corrigem vulnerabilidades. Se utiliza um computador de um determinado fabricante, este poderá estar na linha da frente da defesa contra riscos cibernéticos e fraudes.”No entanto, o responsável do FMI deixa um aviso redobrados a todas as PME. “Sabemos que as pequenas empresas também dependem frequentemente de fornecedores mais pequenos e que, nestes casos, é essencial perceber se esses fornecedores de infraestruturas tecnológicas ou de software estão igualmente preparados para proteger os seus clientes contra fraudes e ataques informáticos. É uma questão fundamental, para mais não dispomos realmente de regulamentação que vise diretamente esse problema. Por isso, considero que esta é uma vulnerabilidade importante para as pequenas empresas”.Em junho, o FMI informou que Adrian vai deixar o seu posto na instituição dirigida por Kristalina Georgieva, no final de agosto. Sobre o seu futuro diz que “no curto prazo vou permanecer no FMI, neste momento estou a explorar oportunidades e ainda não decidi totalmente qual será o meu próximo passo”..Fórum BCE. Imigrantes são melhores que os nacionais a puxar pelo investimento e pela produtividade.Fórum BCE. FMI aponta para riscos da IA: se não for uma bolha, pode ser um problema de dívida.Fórum BCE. Economista-chefe da OpenAI: "A IA não afetará todos os empregos da mesma forma".Fórum BCE. Inovação e IA são insuficientes para inverter declínio da produtividade europeia