O Grupo Jerónimo Martins anunciou ontem que vai descontinuar a operação da Hussel em Portugal, encerrando progressivamente as 18 lojas até 30 de abril de 2026. Ou seja, 10 anos depois de ter decidido recomprar a marca, na época com 28 lojas, o grupo liderado por Pedro Soares dos Santos encerra agora o ciclo na cadeia especializada em comercialização de chocolates e confeitaria.A pesar na decisão da administração esteve, para além do aumento das rendas em Portugal e do fim da parceria com a alemã Hussel GmbH, que declarou insolvência em 2024, a elevada volatilidade do preço do cacau no mercado das matérias-primas.Ao DN, a Jerónimo Martins garante que os 60 colaboradores da marca, na sua maioria com vínculo efetivo, foi "garantida estabilidade de emprego numa das restantes Companhias do Grupo Jerónimo Martins em Portugal: Pingo Doce, Recheio ou Jeronymo". Fonte oficial do grupo adiantou ainda que durante o dia de ontem decorreram "conversas individuais com os colaboradores da Hussel", e que os responsáveis estavam otimistas quanto a "uma resposta positiva dos colaboradores relativamente às oportunidades de integração propostas".A Hussell reportou, em 2019, um volume de vendas a rondar os 6 milhões de euros, tendo caído para cerca de metade logo no primeiro ano da pandemia. Fonte oficial da empresa esclareceu ainda ao DN que só em 2023 é que o volume de vendas voltou aos níveis pré-pandemia, mas que os custos operacionais foram muito pressionados pela inflação, o que impediu a recuperação da rentabilidade da operação. Isto significou prejuízos em quatro anos, entre 2020 e 2024, razão pela qual "o negócio se tornou insustentável", adiantou ainda a empresa ao DN, revelando ainda que no ano passado foi feita uma injeção de capital na Hussell, no valor de quatro milhões de euros, para fazer face à insolvência do seu parceiro - e ao facto de os capitais próprios da Hussell nunca terem saído do vermelho, após 2020. Tudo questões que, a juntar-se à instabilidade dos mercados, aumenta de forma significativa o risco da marca, no universo do grupo.Também fora de Portugal, empresas de maior dimensão, que operam no setor, enfrentam desafios semelhantes. No mesmo sentido, já no final do ano passado a gigante do chocolate Barry Callebaut, fornecedora de marcas como a Nestlé e a Unilever, admitiu estar a pensar separar a sua unidade de cacau do resto da empresa, para evitar o contágio dos riscos da volatilidade do preço do produto. Fontes ouvidas pela Reuters explicavam, na altura, que a empresa suíça está mesmo a considerar a venda total da unidade.O objetivo é reduzir a exposição do grupo aos preços do cacau e melhorar o seu perfil financeiro, sendo a separação da divisão e a venda de uma participação minoritária numa fase posterior uma das opções, disseram as mesmas fontes. Desde 2022 que os preços do cacau têm subido consistentemente no mercado internacional, com a subida mais acentuada a registar-se nos últimos três anos: o custo desta matéria-prima disparou 131% desde a primeira sessão dos mercados de 2023, e até à primeira sessão dos mercados de 2026.As análises têm-se sucedido, com inúmeras variáveis a condicionar o valor deste produto: desde as alterações climáticas que provocam ora períodos de seca prolongada, ora chuvas intensas; até às várias doenças que têm atacado as produções, sobretudo em África, e arrasam colheitas inteiras, passando mesmo pela implementação recente da nova lei da União Europeia sobre a desflorestação. Tal como o DN já tinha escrito no ano passado, o regulamento, bem-intencionado, proíbe a venda, no bloco económico, de produtos fabricados com matérias-primas cultivadas em terras desflorestadas, o que dificulta o aumento da oferta.Ora, como notava recentemente Elio Murillo, analista da Seeking Alpha, “os problemas do cacau não desaparecem rapidamente; são necessários anos de estudos e investigação, programas implementados, planeamento e acordos de cooperação entre os setores público e privado”. Para o especialista em commodities, muitos dos problemas do mercado do cacau são estruturais, com a questão do abastecimento de produto proveniente da África Ocidental estar longe de ser resolvida.Em 2024, a Bloomberg adiantava que o problema do cacau é o facto de ele ser resultado de colheitas de homens pobres. Existem quatro principais países produtores de cacau, todos eles africanos. A Costa do Marfim, que garante cerca de metade da procura mundial, com produções anuais regulares de 2 milhões de toneladas; o Gana, os Camarões e a Nigéria. Estas quatro nações, juntas, representam 75% da produção global de cacau. A Costa do Marfim, depois da independência face a França, concentrou-se em ser a líder mundial da produção de cacau, e foi sob as suas colheitas que alavancou a economia e fez crescer monumentos, imóveis e cidades. No entanto, atualmente os agricultores recebem apenas cerca de 70% do preço de venda inicial do cacau – esta foi uma matéria-prima que nunca passou à fase seguinte, a de ser um negócio de plantação, como o café ou o açúcar. Na verdade, o cacau continua a ser produzido, genericamente, por pequenos produtores que encontram nele uma forma de tentar escapar da pobreza.A América do Sul tem aparecido como alternativa aos produtores africanos, com a Colômbia, o Brasil, o Peru e o Equador na mira dos investidores que tentam alternativas aos mercados tradicionais.Mas a produção de cacau é uma atividade que demora até dar resultados de qualidade e exige renovação constante das plantas, muitas vezes afetadas por doenças. Só que mesmo programas de renovação bem organizados geralmente precisam de 5 a 7 anos até que a produção comece. Os agricultores renovam gradualmente, o que significa que não cortam todas as árvores velhas de uma vez, mas renovam passo a passo. Mantendo parte da plantação antiga em produção, enquanto as novas árvores crescem. Quando as novas plantações têm dois ou três anos, começam a renovação completa das árvores antigas. Essa estratégia permite que aproveitem a produção, enquanto as novas plantas estão crescendo, mas exige também muito investimento, o que encarece toda a cadeia de produção e, portanto, não apenas a matéria-prima na sua origem.Claro que os preços no consumidor – ou mesmo nas empresas – estão ainda a ser agravados pelo aumento dos custos de transportes e pela incerteza mundial, com os últimos 12 meses a serem particularmente desafiantes com a implementação de tarifas aduaneiras por parte dos EUA, que obrigou a muitas decisões apressadas por importadores e exportadores, para tentar contornar as taxas mais elevadas num dos maiores consumidores de cacau do mundo. .Grupo Jerónimo Martins anuncia fecho da Hussel em Portugal até abril de 2026 .Jerónimo Martins volta a deter Hussel e Jeronymo