Parece um paradoxo, numa altura em que a guerra no Médio Oriente está a fazer disparar os preços da energia e a pressionar a inflação, mas a verdade é que a procura de viagens para o estrangeiro atingiu um novo máximo histórico. As vendas dos pacotes turísticos para as férias de verão subiram 5%, face a 2025, e 20%, considerando o acumulado dos últimos dois anos, de acordo com os dados da Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV), avançados ao DN. São números recorde num contexto de instabilidade, mas que não surpreendem o setor. “Os portugueses continuam, sem dúvida, a querer viajar e, apesar do aumento do custo de vida, não estão a deixar de comprar. Isto é quase científico e tem sido comprovado nas últimas crises que atravessámos; mesmo que os preços aumentem as pessoas mantêm o orçamento destinado às férias e não o reduzem. Viajar surge logo a seguir às necessidades básicas como a segurança, a alimentação ou a educação e isso explica este crescimento constante”, explica, ao DN, o presidente da ANAV, Miguel QuintasA associação está a ultimar um barómetro com os principais indicadores da atividade e os números preliminares indicam que o valor médio de reserva para a época alta é de 1.500 euros, um montante em linha com o ano passado. Quando se trata de planear o período de descanso nos meses quentes, os portugueses não fecham os cordões à bolsa, mas adaptam-se às alternativas que encaixem na dotação disponível. “Se os preços sobem em determinado destino, as pessoas redirecionam a sua escolha para outras geografias que consigam enquadrar no orçamento que têm adjudicado para as férias. Não cortam, nem viajam menos, optam por países mais baratos”, justifica o responsável.Apesar do aumento dos preços verificado desde o início do conflito no Médio Oriente - que no espectro dos vários serviços turísticos têm impactado principalmente a aviação - os pacotes disponibilizados não foram afetados, o que fundamenta também a boa performance do negócio das agências de viagens. “Não houve subidas de preços ainda, porque os pacotes que estamos a vender para o verão foram contratados antes da guerra e isso tem sido muito bom para quem quer viajar. Por exemplo, as contratações de voos charters e voos em regime de ACMI [contrato de prestação de serviços externos, no qual são fornecidos aeronave, tripulação, manutenção e seguro] são realizadas com um ano de antecedência, precisamente para evitar a volatilidade dos preços mais à frente”, aponta. Já para quem está a programar as férias por conta própria, a fatura sairá mais pesada. “Naturalmente que as pessoas que optam por comprar os serviços avulso vão pagar mais, está tudo a encarecer numa base semanal. Face ao período pré-guerra, os preços dos voos para a Europa subiram 7% e no longo-curso cerca de 15%. Quem compra pacotes ainda consegue manter os preços, quem não o tem feito está, sem dúvida, a enfrentar problemas adicionais”, acrescenta..Desvio de turistas do Médio Oriente para Portugal irá inflacionar preços e afastar portugueses das férias cá dentro.Além de Espanha e de Itália, Portugal também tem beneficiado da chegada de mais turistas ao país, o que, no reverso da medalha, poderá pressionar ainda mais os preços, empurrando os portugueses para fora do território nacional durante as férias. “Só entre ingleses e alemães, estamos a falar de quatro milhões de turistas que iriam para toda a região da Arábia Saudita e que estão a procurar outros destinos, e isso já se sentiu na Páscoa. Portugal também está a ganhar com este turismo adicional, o que poderá gerar uma pressão inflacionista nos preços, em particular no Algarve, que irá afastar, muito provavelmente, os portugueses para viajarem para outros destinos”, refere o presidente da ANAV.As Caraíbas continuam a ser o principal concorrente da zona sul de Portugal, apresentando preços mais competitivos, a par da Tunísia. A atual conjuntura geopolítica está, ainda, a levar as famílias a afinar os planos para as próximas férias. “Todas as pessoas que já tinham viagens marcadas para a região do Médio Oriente ou Ásia estão a alterá-las para o final do ano”, afiança Miguel Quintas. O Brasil surge, desta forma, como uma das alternativas mais apelativas e as vendas para o outro lado do Atlântico têm “registado taxas de crescimento altíssimas”. Com Cuba fora do mapa turístico, o México e a República Dominicana assumem-se como o plano B. Já no médio-curso, Cabo Verde mantém-se “como o campeão de vendas” das agências de viagens..Guerra “vai doer a todos” com bilhetes mais caros e menor procura, avisam companhias aéreas