Foram semanas a acompanhar o escalar da situação em Cuba, mas o agravamento da atual crise energética no país não deixou alternativa aos operadores turísticos e às agências de viagens que preparavam as férias de verão dos portugueses no território. “Perante a situação que se vive atualmente em Cuba, marcada por uma crise energética e de abastecimento de combustível amplamente divulgada por fontes oficiais e meios de comunicação internacionais, decidimos cancelar as partidas previstas entre 12 de fevereiro e 30 de março. Considerámos que, no atual contexto, com racionamento de combustível, falhas no fornecimento de energia e potenciais impactos no funcionamento de transportes, hotéis e voos internacionais, não estão reunidas as condições mínimas de segurança, conforto e qualidade que exigimos para as nossas viagens”, explica ao DN o diretor-geral da agência portuguesa Pinto Lopes Viagens, Freddy Castro. A mesma decisão foi assumida por outros operadores. “Não conseguimos reunir o mínimo de garantias que nos permitisse manter a operação ativa. A situação é muito complexa, preferimos não correr o risco e cancelar a nossa operação para Cuba”, acrescenta o diretor comercial da Ávoris para o mercado nacional, Constantino Pinto. O grupo espanhol que atua em Portugal suspendeu a oferta para Cayo Santa María, Trindad e Varadero na sequência dos constrangimentos no abastecimento de combustível que estão a afetar o país e que têm impactado a atividade turística, desde a hotelaria à aviação. “Os nossos primeiros três voos, que iriam arrancar a 24 de março, estavam cheios, com 371 passageiros cada. Precisamos de 10 autocarros para fazer o transfer de cada avião e, nesta altura, não é possível garantir que exista combustível para assegurar esse transporte”, refere. A lista de entraves é extensa e a soma dos obstáculos tem resultado na paralisação de toda a cadeia de negócio afeta ao turismo. O governo cubano avançou com um plano de emergência para racionar combustível e ordenou o encerramento de vários hotéis, dando ordem para a transferência dos turistas para outras unidades de alojamento ainda em operação. Já na semana passada, as companhias aéreas foram ainda informadas de que irão ficar sem combustível, estando proibidas de reabastecer as aeronaves no país durante o período de um mês, o que tem levado ao cancelamento em catadupa de voos internacionais. “A falta de jet fuel para os aviões complica imenso a operação e obrigar-nos-ia a fazer uma escala para reabastecer. Ainda assim, esta até poderia ser uma alternativa se depois em terra todas as outras questões estivessem garantidas, mas não estão”, aponta Constantino Pinto.Para o operador ibérico World2Meet (W2M) este é também um dos desafios nevrálgicos na atividade para o destino. “Até agora estávamos a fazer voo para Havana via Santo Domingo porque não havia combustível disponível em Cuba. Ou seja, o custo do avião para Cuba, sendo triangulado para outro sítio, encarece muito o voo. São mais três horas de viagem com escala”, explica o country manager da W2M para Portugal, Duarte Correia. Face ao quadro insustentável e de forma a “prevenir problemas que pudessem advir da falta de combustível”, o grupo avançou também com o cancelamento da sua oferta para o país. “Neste momento, nem se previa a falta de abastecimento alimentar. Obviamente que Cuba sempre teve constrangimentos relativamente aos produtos importados, mas ninguém morria à fome com falta de comida. Portanto, os hotéis estavam devidamente abastecidos e alguns que beneficiavam de importação direta tinham maior facilidade. O que complica é o abastecimento de combustível. A maioria dos hotéis em Cuba, mesmo que tenham geradores, precisam de combustível e sem isso há cortes de energia”, elucida Duarte Correia. Os operadores e agentes ouvidos pelo DN são unânimes na análise de que não é possível assegurar as condições mínimas aos turistas que queiram viajar para Cuba nem umas férias sem percalços, argumento que sustentou a decisão de colocar este destino em espera até que a situação se inverta.“A partir do momento em que o combustível está racionado, não temos garantia nenhuma de que os geradores possam funcionar. Como é que uma pessoa vai de férias para um hotel sem energia elétrica? É caótico, não há ar-condicionado nem água suficiente, porque as bombas depois não funcionam. Existem uma série de constrangimentos”, remata Constantino Pinto..República Dominicana e México são alternativas.Com a época das férias de verão a aproximar-se, muitos foram já os portugueses que anteciparam a compra de pacotes de viagens para a época alta. Sem Cuba no mapa de opções, as agências estão a redirecionar os clientes para outros destinos das Caraíbas, como a República Dominicana, o México ou a Jamaica. A Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV) esclarece ao DN que está a acompanhar a situação no país insular desde o início do ano e que “há muito que as vendas para o destino pararam”. “As reservas que estavam realizadas foram canceladas e trocadas por outros destinos. Nalguns casos estamos a dar apoio financeiro com vouchers para reservas mais caras. Toda esta gestão está a ser feita de forma tranquila, o mercado está a reagir bem a estas alterações de última hora”, explica o presidente da ANAV, Miguel Quintas. Atualmente, são poucos os turistas portugueses que se encontram em Cuba, por se tratar do período de Inverno e a gestão dos cancelamentos não terá “impacto significativo para as agências”. Os operadores contactados pelo DN estão a conseguir encaminhar os clientes para países alternativos, à exceção da Pinto Lopes Viagens. “Tratando-se de um cancelamento estritamente relacionado com a salvaguarda da segurança e do bem-estar dos nossos clientes, e face à curta antecedência com que esta decisão teve de ser tomada, não existiu margem para propor uma alternativa aos participantes, aos quais foi realizado o reembolso integral dos valores pagos”, justifica Freddy Castro.Apesar de os clientes “estarem a aceitar de forma serena” a mudança de planos para as férias, a Ávoris lamenta interrupção nas vendas que se vislumbravam promissoras em 2026. “Cuba era o nosso principal destino para este ano, a procura era uma loucura. Só começou a diminuir depois de todas as noticias que foram saindo e, de um dia para o outro, parou. As pessoas ficaram em stand by a ver o que acontecia e depois começaram os cancelamentos, mas de forma muito lenta porque continuavam na expectativa”, frisa Constantino Pinto.Recorde-se que esta semana o Governo português aconselhou os viajantes “a considerar o adiamento de deslocações não indispensáveis a Cuba até que a situação estabilize”. Numa nota publicada no Portal das Comunidades Portuguesas, o Ministério dos Negócios Estrangeiros alerta que, face ao atual agravamento da escassez de combustível, poderão ser afetadas “áreas relevantes para os viajantes, como os cuidados de saúde, os transportes, o abastecimento de água e eletricidade, as comunicações, o comércio e restauração” e ressalva que “nem o Estado Português, nem as representações diplomáticas e consulares, poderão ser responsabilizadas pelos danos ou prejuízos em pessoas e/ou bens daí advenientes”. O presidente da ANAV sublinha que o destino não está fechado e que “quem quiser ir, poderá fazê-lo”. “Não podemos impedir as pessoas de irem onde quiserem, mas não recomendamos que o façam nesta altura. Se forem, têm de estar cientes para as vicissitudes que podem enfrentar”, adverte Miguel Quintas..30 mil turistas portugueses por ano em Cuba.A atividade turística em Cuba tem sido pautada por um caminho de altos e baixos desde a pandemia. A procura refreou e, no ano passado, o país recebeu 1,8 milhões de turistas internacionais, valor abaixo dos 2,2 milhões registados em 2024. Portugal envia, por ano, uma média de 30 mil turistas nacionais para o destino e o interesse do mercado nacional tem sido crescente. “O português identifica-se bastante com o cubano, é um cliente diferente e não se insere no leque de clientes estrangeiros. É um cliente que gosta da cultura, das pessoas, gosta de interagir e de apoiar a comunidade local”, destaca o diretor comercial da Ávoris para Portugal. Cenário idêntico é traçado pelo country manager da W2M que explica que, apesar das alternativas para as férias de verão, os portugueses estão desapontados por não poderem viajar para a ilha. “A maioria das pessoas que reservaram Cuba estão muito tristes porque queriam definitivamente ir para este país. Cuba tem umas praias inigualáveis, são diferentes do resto das Caraíbas”, acrescenta Duarte Correia. O responsável afina a leitura e detalha que o cliente português que quer viajar para este país das Caraíbas apresenta uma ligação emociona à cultural “Sempre tivemos problemas de higiene e de produtos importados No entanto, as pessoas não reclamavam porque sabiam ao que iam, ou seja, sabiam que haviam alguns constrangimentos em termos de produtos importados, mas isso não era determinante na decisão de viajar” justifica..Vila Galé reunida em Cuba para avaliar a situação.A administração do segundo maior grupo hoteleiro português, e o único a nível nacional com operação em Cuba, está esta quinta-feira reunida no país para avaliar a situação atual, confirmou ao DN fonte oficial da Vila Galé. Das quatro unidades geridas pela empresa liderada por Jorge Rebelo de Almeida, que totalizam cerca de 1.800 quartos, apenas os hotéis localizados em Cayo Paredón e Cayo Santa María permanecem operacionais, tendo as restantes - em Havana e Varedero - sido entretanto encerradas na sequência de diretrizes governamentais. A Vila Galé encontra-se, para já, a avaliar o enquadramento atual, com vista a ajustar a atividade no país..Crise energética em Cuba leva Governo de Portugal a recomendar adiamento de viagens.Governo de Cuba encerra hotéis e transfere turistas devido a crise energética