Existem 80 projetos de hidrogénio verde e combustíveis sintéticos em toda a Europa com potencial de uso no transporte marítimo e Portugal ocupa o quinto lugar. Mas a falta de exigências ambientais mais ambiciosas para o setor e de segurança regulatória está a impedir que a maioria dos projetos avance, conclui um estudo da Federação Europeia de Transportes (Transport & Environment), publicado este mês. As metas de redução de emissões para os navios são mais brandas do que para o transporte rodoviário, estando apenas obrigados a usar 5% de energias limpas até 2030.Por isso, a organização reclama da Comissão Europeia metas mais exigentes para a indústria marítima, sob pena de não haver incentivo para o desenvolvimento destes investimentos que são muito caros. Também os produtores de tecnologias limpas pediram, este mês, à UE para aumentar o apoio aos combustíveis ecológicos ao transporte marítimo, um setor altamente poluente. Entre outras medidas, reivindicam, por exemplo, o reinvestimento das receitas do ETS (Emissions Trading System) _ uma espécie de mercado onde se compram licenças de emissão de gases com efeito de estufa _ no transporte marítimo ecológico.A Espanha, a Dinamarca, a Noruega e a França são os países que, segundo aquela análise, estão na vanguarda da produção de combustíveis sintéticos verdes que podem ser usados no transporte marítimo.Mesmo a alguma distância, Portugal surge logo a seguir, em quinto lugar, na lista dos países com mais projetos de combustíveis sintéticos e hidrogénio, independentemente do seu nível de desenvolvimento. Em Portugal estão identificados projetos que equivaleriam a 0,33 milhões de toneladas de combustível, o que compara com os 0,57 milhões da Espanha, que lidera a lista, e acima dos 0,17 milhões da Finlândia, da Suécia, da Alemanha ou da Holanda. Mas apesar de a Finlândia ter menor dimensão no total dos projetos tem investimentos de raiz destinados ao transporte marítimo, o mesmo acontecendo com a Dinarmarca e a Noruega. A Noruega possui, de resto, as maiores quantidades de combustíveis dedicados principalmente ao setor marítimo, seguida pela Espanha, Finlândia e Dinamarca. O projeto Kassø, da European Energy, que fornece e-metanol para a Maersk, entrou em operação em 2025 e é o primeiro projeto de combustível verde marítimo e o maior do género na Europa.“Entre os projetos de amoníaco verde e e-metanol com potencial para a navegação, o setor marítimo geralmente constitui o maior comprador potencial”, indica o estudo. No caso do amoníaco, por exemplo, o transporte marítimo foi duas vezes mais mencionado como cliente potencial do que as indústrias químicas e de fertilizantes. Para a T&E, estas conclusões são “fortes sinais de que uma maior demanda do setor marítimo, por maior exigência regulatória, daria uma garantia aos produtores de que existe um mercado sólido para os seus combustíveis verdes”. É um setor que geraria empregos e melhoraria a transição energética, alegam.O caso de SinesUm dos exemplos mais conhecidos em Portugal é a aposta na produção de hidrogénio verde na zona adjacente ao Porto de Sines, na costa alentejana, em que estão envolvidas empresas como a Galp e a Repsol. Os que existem noutras regiões são de pequena dimensão. A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, já assumiu a ambição de Portugal se tornar mesmo exportador de combustíveis sintéticos, nomeadamente para a aviação.Enquanto que para a aviação está em causa a substituição do querosene pelo biometanol (uma espécie de gasóleo mais ligeiro) que denominamos SAF(sustainable aviation fuel), no caso do transporte marítimo, trata-se de substituir o fuel óleo ou gás natural por um gás sintético, o biometano, ou pela queima de amoníaco, mas tem de ter origem em hidrogénio verde, explica Jaime Braga, especialista e secretário-geral da Associação Portuguesa de Produtores de Biocombustíveis, em declarações ao DN. “O biometano tem o problema da escassez, pois depende do aproveitamento dos resíduos orgânicos, da natureza. E o amoníaco depende do arranque efetivo dos projetos de produção de hidrogénio verde, que estão algo parados e são muito caros”, resume Jaime Braga, na linha das conclusões do Estudo da T&E. “Se saírem do papel então, sim, terão alguma dimensão a nível europeu”.