Quinta edição da exposição empresarial internacional "Make it in the Emirates". Abu Dhabi, 4 de maio de 2026.
Quinta edição da exposição empresarial internacional "Make it in the Emirates". Abu Dhabi, 4 de maio de 2026.Foto: ALI HAIDER / EPA

Os sete filhos Emirados saem de casa do pai Saudita aos 59 anos e choque no crude pode levar anos a reparar

Emirados Árabes Unidos, sétimo maior produtor de petróleo do mundo, rompeu com o poderoso cartel da OPEP. E mais países podem sair. Danos e preços provocados pela guerra devem demorar anos a sarar.
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A "frustração" com décadas de subjugação ao domínio da Arábia Saudita – fundador e líder de facto da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), maior produtor mundial de crude e defensor acérrimo de um regime de quotas de produção duro para manter preços elevados –, o desejo em produzir e ganhar muito mais dinheiro por conta própria, um fundo soberano gigantesco lhe permite poder expandir e crescer mais o seu domínio nos mercados da energia, fazendo frente ao patriarca Saudita, levaram à saída dos Emirados Árabes Unidos (EAU) do cartel fundado em 1960, ao qual aderiram em 1967.

Cinquenta a nove anos depois, os Emirados consumaram o plano de emancipação que estavam a gizar há vários anos e que muitos até já antecipavam (tantas foram as ameaças de saída que foram sendo feitas no passado), recordam vários especialistas em mercados petrolíferos.

O momento escolhido para sair da grande casa que é a OPEP não foi inocente, tão pouco foi impulsivo. Foi o que causa menos danos imediatos aos próprios Emirados e aos seus parceiros de negócio.

O petróleo está muito caro outra vez, mesmo produzindo pouco ou não conseguindo escoar produto pelo Estreito de Ormuz (está virtualmente fechado há meses), o negócio não está assim tão mau, como se pode ver pelos lucros das grandes empresas do sector.

E foi agora, nesta primavera sombria de 2026, com uma nova guerra em curso no Médio Oriente – que elevou os preços internacionais do crude para os valores mais elevados dos últimos quatro anos (desde a guerra da Rússia contra a Ucrânia), com inflação a galgar, risco sério de recessão, fazendo despertar os bancos centrais para novas subidas de taxas de juro – que o estado árabe composto por sete principados ou emirados, liderado pelo "poderoso" e "disciplinado" Abu Dhabi, decidiu romper com a histórica aliança.

Como se já estivessem à espera (e muitos estavam), os mercados "praticamente não reagiram", diz Frédéric Schneider, investigador principal no Conselho do Médio Oriente para Assuntos Globais (Middle East Council on Global Affairs), que é relativamente próximo dos bastidores do poder em Washington.

"A 28 de abril, os Emirados Árabes Unidos anunciaram o fim da sua participação de 59 anos na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) — ​​​​por coincidência, no mesmo dia em que o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, presidia a uma cimeira do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) que deveria promover uma maior união entre os países da Península Arábica", ironiza o professor de Economia.

"Apesar da notícia impactante, os mercados praticamente não reagiram, com os preços do petróleo dominados pela guerra no Irão e pelo encerramento parcial do Estreito de Ormuz", mas esta decisão aparentemente "discreta" e calculada "obscurece" outras implicações mais profundas e de longo alcance: "os EAU estão a reposicionar-se geopoliticamente", "até que ponto a rivalidade entre Arábia Saudita e EAU evoluiu" e "como é que esta região do Golfo, agora sob imensa pressão externa está, paradoxalmente, a fragmentar-se", aponta Frédéric Schneider.

A primeira vítima é mesmo a OPEP, dizem. O seu modelo construído para atuar com as premissas da altura em que foi fundada, em 1960 e em plena Guerra Fria, simplesmente deixou de ser eficaz. Serve mais uns do que outros dentro do grupo dos 12 do cartel, acusam alguns mais descontentes com a fórmula do cartel desenhado há 66 anos.

E mais países devem seguir as pisadas dos Emirados, aventam. A começar pela Venezuela, por exemplo, um gigante em reservas por explorar, hoje na sombra dos Estados Unidos, que decapitaram no início deste o regime de Caracas com a extração de Nicolás Maduro, o ex-Presidente.

"Grande golpe para a OPEP"

A desvinculação dos Emirados "é um grande golpe para a OPEP, é a saída de maior destaque da OPEP nos últimos anos", considera Warren Patterson, economista principal para a área das matérias primas no grupo financeiro ING, com sede nos Países Baixos.

"Antes da guerra com o Irão, em fevereiro de 2026, os Emirados Árabes Unidos bombeavam 3,4 milhões de barris de petróleo por dia", um débito que equivale "a cerca de 12% da produção total da OPEP", ocupando assim "o lugar de terceiro maior produtor do grupo". A nível mundial, os EAU são o sétimo maior.

"A sua saída reduzirá a eficácia da OPEP na gestão e influência do mercado petrolífero global através de medidas de oferta", "aumentará a produção, de uma capacidade atual a rondar 4,85 milhões de barris por dia para, segundo os planos de Abu Dhabi, chegar aos cinco milhões de barris por dia até 2027", diz o economista do ING.

Os sete irmãos saíram da casa OPEP a 1 de maio passado e dois dias depois, a 3 de maio, desenrolaram o plano para garantir o seu futuro. Só podia estar pensado e bem maturado, como insistem vários analistas.

Plano de investimento gigante até 2028

Nesse fim-de-semana, a Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC, na sigla inglesa) revelou um plano gigantesco para investir 46 mil milhões de euros em novos projetos ao longo dos próximos dois anos.

Em comunicado, a ADNOC diz que a ideia é "acelerar o crescimento e a implementação da sua estratégia, com 200 mil milhões de dirhams (46 mil milhões de euros) em novos contratos de projetos para o período 2026-2028”.

“As adjudicações de projetos previstas abrangem as atividades a montante e a jusante da ADNOC e inauguram uma nova fase de execução de projetos que irá impulsionar a capacidade de produção industrial dos Emirados Árabes Unidos, reforçar a resiliência industrial, e aprofundar o impacto dos planos da empresa para aumentar o investimento e a produção no país”.

"A montante" é mais dinheiro para expandir "exploração e produção de petróleo bruto", "a jusante" são mais investimentos em refinação e fabrico de derivados do petróleo, como as cruciais matérias primas que servem a produção de alimentos. Fertilizantes, por exemplo.

Efeito Abu Dhabi nos preços (descidas) só lá para a frente

Mas o impacto no sentido de reduzir os preços mundiais até pode surgir, mas não será para já.

Na leitura de Warren Patterson, do ING, "antes que esta capacidade possa ser aproveitada, é necessário que haja uma resolução no Golfo Pérsico que permita o fluxo sem restrições de energia através do Estreito de Ormuz".

"Portanto, no curto prazo, este desenvolvimento tem pouco impacto no mercado. Mas, a médio e longo prazo, significa mais oferta para o mercado" e que a curva dos contratos de futuros do petróleo Brent "deva começar a baixar de forma mais acentuada" no contratos mais longínquos no tempo, espera o analista.

E remata assim: "Os EAU têm demonstrado uma crescente frustração nos últimos anos devido à limitação da sua produção imposta pelas quotas da OPEP, que a mantêm muito abaixo do seu potencial. Em 2024, a sua produção média de crude foi de 2,95 milhões de barris por dia, muito abaixo da sua capacidade atual", os já referidos 4,85 milhões de barris diários.

Fatura da reconstrução no Golfo pode chegar a 50 mil milhões de euros

Não será só por causa da guerra e do caos negocial (ou ausência de negociações) entre os EUA e o Irão que os preços não descem, nem o Estreito abre. Os Emirados até foram dos menos afetados pelos ataques do Irão e surgem agora com um plano ambicioso para expandir a produção.

O problema, diz Karan Satwani, analista sénior da reputada consultora Rystad Energy, é que "isto não é apenas uma história sobre instalações danificadas no Golfo, é um teste de stress para a cadeia de abastecimento energético global".

"Os mesmos equipamentos e empresas necessários para a reconstrução já estão comprometidos com uma onda de projetos de Gás Natural Liquefeito (GNL) e offshore aprovados desde 2023", sendo que "os trabalhos de reparação não criam nova capacidade, eles redirecionam a capacidade existente, e isso será sentido na forma de atrasos de projetos e na inflação muito para além da região do Médio Oriente".

Pelas contas da consultora, que estão em permanente atualização à medida que se faz o levantamento dos danos e vão acontecendo novos ataques, "estimamos custos totais de reparação e recuperação entre 34 mil milhões [29 mil milhões de euros] e 58 mil milhões de dólares [49 mil milhões de euros]".

"O limite inferior deste intervalo pressupõe que, para instalações onde a extensão dos danos ainda não é totalmente clara, os impactos são limitados, permitindo reparações modulares com o auxílio de equipamentos sobressalentes existentes e ciclos de aquisição mais curtos", diz o analista da Rystad Energy.

Mas pode sempre ser pior, depende da gravidade do que vier à tona. Aí, "o nosso limite superior reflete cenários em que os danos estruturais são confirmados em grandes instalações, exigindo a substituição completa de sistemas críticos, a dependência de equipamentos com um longo prazo de entrega e a inclusão de prémios de risco relacionados com conflitos na execução de projetos de engenharia, aquisição e construção, incluindo a mobilização de empresas de construção e seguros contra riscos de guerra, bem como atrasos relacionados com a deslocação de construtoras, condições logísticas restritas e, em alguns casos, acesso limitado às cadeias de abastecimento internacionais", teme o especialista.

E remata com o cenário sombrio que ainda não se dissipou. Estamos a falar de valores de recuperação, mas a verdade é que "temos um cessar-fogo, combinado com as negociações estagnadas e o risco renovado de escalada do conflito, continua a moldar o ambiente operacional, juntamente com os riscos de perturbação e os bloqueios que afetam a navegação pelo Estreito de Ormuz".

A curto prazo, a capacidade produtiva dos EAU (que é grande e tem margem para aumentar muito mais) não chega para compensar a disrupção e a incerteza que paira sobre o que será do Golfo Pérsico e o desfecho do conflito entre os EUA e o Irão. Ou seja, não será pelos Emirados serem agora mais livres e aparentemente mais donos do seu nariz que os preços vão cair.

Modelo OPEP está obsoleto?

Ebtesam Al Ketbi, presidente do think tank Centro de Estudos Políticos dos Emirados, está justamente em Abu Dhabi e diz que o seu país não está a fazer isto para se livrar das quotas restritivas da OPEP. É porque a OPEP deixou de fazer sentido como fazia antes.

"A saída dos Emirados Árabes Unidos não tem a ver com a questão da quotas, tem a ver com os limites do próprio modelo da OPEP", atira o professor.

"Os interesses divergentes no seio da OPEP enfraqueceram a sua eficácia", "a rapidez e a flexibilidade estão a suplantar o consenso como sendo as principais fontes de influência" e "a energia está a tornar-se um instrumento de estratégia — e não o seu fundamento", defende.

Por isso, o papel da OPEP "deve passar do controlo do mercado para uma coordenação limitada", acrescenta.

O analista do ING contrapõe: "O momento da saída foi bem planeado; anunciar a saída durante um período de significativa perturbação no fornecimento limita o impacto no mercado, se tivesse sido noutra altura, provavelmente teríamos assistido a uma pressão descendente maior sobre os preços do petróleo".

Mas, conclui o economista do grupo holandês, isto tem potencial para ser "bem recebido pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, pois reduz a influência da OPEP no mercado petrolífero, além de beneficiar os importadores e os consumidores". "Outro factor, é ver se a saída dos EAU levará a uma maior fragmentação entre os restantes membros da OPEP."

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