Os 10% mais ricos de Portugal enriqueceram 73% em 15 anos
Os 10% de famílias mais ricas em Portugal controlam quase 60% da riqueza líquida total do país (o valor do património depois de deduzidas as dívidas), tendo conseguido reforçar esta posição em termos relativos e absolutos, mostram as novas estatísticas sobre a evolução, composição e distribuição da riqueza das famílias portuguesas divulgadas pelo Banco de Portugal (BdP), esta terça-feira, 20 de outubro, Dia Europeu da Estatística.
Entre o final de 2010 e o primeiro trimestre deste ano, os 10% mais ricos reforçaram a respetiva riqueza líquida (valor do património depois de deduzidas as dívidas, segundo o BdP) em 73%, de 413 milhões de euros para 714 milhões de euros.
Em proporção da riqueza total das famílias (1,2 mil milhões de euros no início de 2026), os mais ricos conseguiram subir o respetivo peso, controlando agora 59% do património familiar declarado em Portugal.
As grandes componentes do património são: imóveis (média de 52% do total da riqueza), depósitos bancários (cerca de 19%) e participações em capital (como fundos de investimento), cujo valor agregado rondará 16%, segundo o novo estudo do banco central.
Esta expansão da riqueza entre os mais ricos contrasta com a progressão mais lenta no grupo de famílias que cai "abaixo da mediana", ou seja, os 50% menos ricos, onde está o grosso da população, que detém uma fração muito reduzida da riqueza total.
Neste caso, nestes 15 anos, segundo cálculos do DN a partir dos dados preliminares do BdP, a riqueza do grupo de famílias menos abonadas aumentou 51% (comparando com a progressão superior a 70% dos mais ricos), perdendo peso no total, ao deslizar de 6,7% no final de 2010 para 5,9% no primeiro trimestre deste ano.
O Banco de Portugal explica que "nos últimos 15 anos, a riqueza líquida das famílias portuguesas, ou seja, o valor do seu património depois de deduzidas as dívidas, aumentou, sobretudo devido aos imóveis e aos ativos financeiros".
"Os imóveis residenciais continuaram a representar a maior parte do património das famílias, seguidos dos depósitos e das participações em capital, que ganharam peso ao longo deste período. Contudo, a composição do património varia consoante o nível de riqueza, sendo as participações em capital mais relevantes entre as famílias com maior património."
Desigualdade persiste
Nos 15 anos em análise (até final de 2026), "a riqueza líquida manteve-se distribuída de forma desigual entre as famílias portuguesas".
Segundo o BdP, "a riqueza mediana, isto é, o valor que divide as famílias em duas metades, uma com mais riqueza e outra com menos, aumentou, mas permaneceu abaixo da observada na área do euro".
Os indicadores relativos à forma como a riqueza total se distribuía entre as famílias "apontam para níveis de desigualdade próximos em Portugal e na área do euro".
Como referido, o Banco confirma que "entre 2010 e 2025, os 10% de famílias com maior riqueza concentravam 59% da riqueza líquida total, enquanto os 50% com menor riqueza líquida detinham 6%".
Estes resultados "evidenciam uma distribuição da riqueza que se manteve desigual e relativamente estável ao longo do período em análise".
A situação só não é pior porque, diz o BdP, o património imobiliário dos menos ricos (as casas compradas com empréstimos bancários ao longo de décadas) valorizou bastante, o suficiente para que hoje essa parcela seja mais importante em Portugal do que no conjunto da zona euro.
"A parcela da riqueza detida pelas famílias com menor riqueza líquida era maior em Portugal. Entre 2010 e 2025, as famílias abaixo da mediana detinham, em média, 6,1% da riqueza total em Portugal, comparado com 4,5% na área do euro. Esta diferença está associada ao peso elevado dos imóveis no património das famílias portuguesas com menor riqueza", indica a equipa de economistas do banco central.
Mais ricos, mais diversificados
Os dados permitem ver também que "as famílias com maior nível de riqueza líquida têm um património mais diversificado".
"A composição do património das famílias varia consoante o seu nível de riqueza. Do lado dos ativos, os imóveis predominam em todos os grupos, mas o seu peso é menor nos grupos com maior riqueza".
Pelas contas do BdP, "em 2025, representavam cerca de 74% dos ativos das famílias com riqueza líquida abaixo da mediana e menos de 40% dos ativos dos 10% de famílias com maior riqueza líquida", sendo que, "neste grupo, as participações em capital representavam 28% do total" dos ativos.
Já os depósitos mantêm "uma importância relevante em todos os grupos, representando entre 17% e 21% dos ativos das famílias em 2025".
"Ainda assim, entre os 10% de famílias com maior riqueza líquida, as participações em capital tinham um peso superior ao dos depósitos, refletindo uma maior diversificação do seu património financeiro. Este grupo concentrava também a maior parte dos outros ativos detidos pelas famílias", indica o Banco.
Do lado dos passivos, sem surpresa, "os empréstimos à habitação constituíam a principal componente da dívida em todos os grupos".

