Lagarde: "Saio do BCE porque quero ter liberdade de expressão"
É uma justificação, no mínimo, inesperada, surpreendente e algo amarga. Christine Lagarde, a atual presidente do Banco Central Europeu (BCE), explicou aos jornalistas em Frankfurt, que vai renunciar ao cargo nove meses antes do final ao mandato porque "quero ter liberdade de expressão e liberdade de me envolver em assuntos que não sejam de política monetária".
Com vários meios jornalísticos internacionais a darem como garantido o seu trânsito para a liderança do Fórum Económico Mundial, na Suíça (que é basicamente um centro de reflexão, de estudos e de confluência de interesses do poder da alta finança mundial e dos decisores políticos das grandes potências), Lagarde disse mais: "não creio que possa permanecer neutra" neste momento da História.
"Não creio que me possa sentir confortável nesta neutralidade, neste momento. Estou interessada na verdade e vejo a verdade a ser muitas vezes prejudicada, contrariada por deturpações", atirou, sem concretizar o quê.
"Da posição que ocupei durante os últimos mais de 20 anos da minha vida, em questões económicas e financeiras, na cena internacional como diretora-geral do Fundo Monetária Internacional, como presidente do BCE [onde está deste 2019], há coisas que posso dizer, mas se as pessoas vão ouvir ou não, é outra história".
Em todo o caso, insistiu, "sinto que deveria dizer estas coisas, e não posso fazê-lo na minha posição atual". "Voilá", rematou a advogada e economista francesa.
O "preço a pagar por ser independente"
Questionada mais de uma dezena de vezes sobre a decisão de abandonar a liderança do BCE, uma das instituições mais poderosas da Europa e do mundo, a antiga chefe do FMI, disse que "a minha decisão é renunciar ao cargo de presidente do Banco Central Europeu após o conselho do BCE de política monetária de fevereiro" surge porque começa a ser conflituoso e incompatível com a sua vontade o facto de ter de seguir regras muito restritas nas opiniões que pode dar publicamente.
"Como todos sabem, como o presidente do Banco Central Europeu e os meus colegas da comissão executiva e do conselho do BCE estão praticamente sujeitos às mesmas restrições, temos a obrigação de neutralidade. Comentamos a situação com enfoque na política monetária. Somos movidos por um mandato e não saímos desse mandato porque é esse o preço que pagamos por sermos independentes", explicou.
No entanto, "neste momento, em relação a muitos cantos do mundo, não apenas europeus, não apenas na Europa, penso que a minha voz pode ajudar, a minha ação pode ajudar em relação a princípios que me são caros ao coração".
"Nunca há um bom momento para sair", mas também é sabido que "presidentes e membros dos conselhos de administração têm de sair porque os mandatos não podem ser renovados".
Portanto, continuou, "o fim do meu mandato, em qualquer caso, teria sido em outubro de 2027". "Estou a antecipar o fim do mandato para fevereiro de 2027 porque quero ter a liberdade de expressão, a liberdade de expressão e a liberdade de me envolver em assuntos" que não sejam apenas questões de política monetária.

