O secretário-geral da ONU, António Guterres, defendeu esta quarta-feira o fim da "exploração" e das "pilhagens" de recursos naturais que não gerem valor acrescentado para os países produtores e comunidades afetadas.Num debate de alto nível do Conselho de Segurança da ONU sobre a ligação entre recursos naturais e conflitos, Guterres observou que, em todo o mundo, o controlo e a exploração desses recursos estão a alterar drasticamente as causas, a dinâmica e os resultados das guerras, frisando que minerais críticos, como lítio, cobalto, níquel e elementos de terras raras, ganham cada vez mais importância estratégica.A crescente procura dos mercados globais está a criar oportunidades vitais para impulsionar o desenvolvimento nos países produtores. Mas, segundo Guterres, isso também está a impulsionar uma intensa competição geopolítica, aumentando a pressão sobre as cadeias de abastecimento concentradas e alimentando conflitos, o que acaba por gerar graves consequências humanitárias."Com demasiada frequência, as receitas da exploração ilícita dos recursos naturais estão a tornar a paz inatingível", explicou o líder da ONU, frisando que essa exploração fortalece atores armados e os criminosos, liga a violência local às redes regionais e internacionais e enfraquece os incentivos ao compromisso político.Guterres deu como exemplo o leste da República Democrática do Congo (RDCongo), onde grupos armados colheram os benefícios da mineração ilegal e do contrabando de minerais, mas foram os civis quem pagaram o preço do conflito em curso.Apontou também para o Sudão, onde uma luta feroz pela dominância política e territorial foi alimentada pela exploração dos recursos naturais – principalmente ouro e goma arábica – "levando a atrocidades e à deslocação de milhões de pessoas", disse.O Conselho de Segurança da ONU reconhece, há muito, que o comércio ilícito e a exploração dos recursos naturais desempenham um papel significativo no financiamento de grupos armados.Entre as medidas que tomou está o regime de sanções, nomeadamente em relação à RDCongo, à Líbia e ao grupo terrorista Al-Shabaab, de forma a restringir o comércio ilícito de recursos naturais e impedir que as receitas alimentem a violência.Olhando para o futuro, Guterres indicou quatro prioridades urgentes em relação a este dossiê, a começar pela justiça."Devemos garantir que o desenvolvimento mineral proporciona resultados justos e sustentáveis para os países e comunidades ricos em recursos. É tempo de romper com o padrão secular – onde os recursos são extraídos, o valor é capturado noutro lugar e as comunidades empobrecidas são deixadas para trás para lidar com os danos ambientais e socioeconómicos", apelou.O ex-primeiro-ministro português sublinhou que, em nenhum outro lugar, este défice de soberania é maior do que em África, onde as consequências duradouras do colonialismo, juntamente com os desafios de governação, colocam os Estados em grande desvantagem ao procurarem captar ou reinvestir o valor que reside nos seus recursos naturais.Em segundo lugar, Guterres defendeu a necessidade de prevenção, através da contenção de fluxos ilícitos e reforço da transparência em todas as cadeias de abastecimento de minerais.Em terceiro, a resolução pacífica de litígios, nomeadamente em relação às disputas sobre os recursos naturais afetam as perspetivas de paz, e, em quarto, o clima, pedindo garantias de que os esforços preventivos e políticos têm em conta a análise climática."Chega de exploração. Chega de pilhagens", reforçou.A reunião de hoje foi presidida pela ministra das Relações Exteriores da RDCongo, Thérèse Kayikwamba Wagner.A RDCongo ocupa uma posição central na transição energética global, abrigando algumas das maiores reservas de minerais críticos do mundo, em particular coltan, cobalto, cobre, lítio e terras raras.O país detém aproximadamente 60% das reservas mundiais de coltan, consolidando a sua liderança como o maior produtor global individual. Fornece de 50% a 70% do cobalto mundial, é o segundo maior produtor mundial de cobre e detém as maiores reservas de lítio na África subsaariana, de acordo com o Banco Mundial.Essas matérias-primas são utilizadas em vários setores, desde veículos elétricos e sistemas de energia renovável até eletrónicos avançados e tecnologias de defesa.Apesar de gerar milhares de milhões de dólares em riquezas minerais, a RDCongo continua a ser um dos países menos desenvolvidos do mundo, ocupando a 171.ª posição entre 193 países no Índice de Desenvolvimento Humano, com mais de 70% da sua população a viver em extrema pobreza.Nesse sentido, a ministra pediu hoje ao Conselho de Segurança “para partilhar uma experiência, transmitir uma convicção e propor um caminho a seguir”.A situação no seu país revela um "desequilíbrio global para o qual apenas uma ação coletiva baseada na equidade e na responsabilidade" pode trazer uma resposta duradoura, argumentou a governante..Guterres critica impunidade "indefensável" e deixa alerta para "barril de pólvora que corre o risco de engolir o mundo"