Os excedentes orçamentais públicos anuais consecutivos vieram para ficar de forma a "cumprir uma trajetória de credibilidade nas contas", controlo da despesa primária (sem juros) e redução da dívida pública, mas o governo PSD-CDS promete que fará este caminho "sem asfixiar o País com excedentes anuais demasiado elevados", que possam traduzir "uma carga fiscal mais elevada e reduções na despesa com serviços públicos", afirmou o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, na apresentação da proposta do Orçamento do Estado para 2025 (OE 2025), que decorre esta segunda-feira, no Parlamento..O governante foi várias vezes confrontado pelos partidos da oposição com a "existência de folga orçamental" já este ano, o que favorece o ponto de partida para 2025, tornando a exigência de consolidação orçamental mais leve..Um dos exemplos mais citados no debate foi a margem obtida com a medida do IRS Jovem, que passou de uma despesa fiscal de 1000 milhões de euros para 525 milhões. Só aqui parece existir uma "folga" de 475 milhões. A oposição, sobretudo IL, PS, PCP e BE, quiseram saber se o governo já tem planos para essa verba..O PS já disse que se vai abster na votação do OE na generalidade (próxima quinta, dia 31), mas ganha forma a ideia de que há margem para incluir no orçamento outras medidas com cabimento financeiro..Assim, os partidos começam a posicionar-se para o debate na especialidade, que decorrerá depois até 29 de novembro. Todos, PSD incluído, vão querer deixar a sua marca ou marcas novas no OE. Havendo folga, a pressão política nesse sentido é ainda maior, claro..Sarmento não vê folgas, vê necessidade de credibilidade.Questionado pela deputada do PS, Marina Gonçalves, sobre se "há alguma folga orçamental" que permita aos partidos negociarem alterações e contribuírem com novas medidas durante o debate parlamentar da especialidade, que culmina na votação final global, a 29 de novembro próximo..Segundo Miranda Sarmento, o que está em debate no Parlamento é apenas o OE 2025, que aponta para um excedente de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB), "cerca de 850 milhões de euros", que aliás também se traduz num "compromisso com a Comissão Europeia"..Nesse sentido, o ministro deixou bem claro que é preciso manter esse objetivo praticamente intacto, até por uma questão de "credibilidade".."Esperamos que as propostas que possam ser aprovadas durante o debate da especialidade não desequilibrem este valor". "Espero que este equilíbrio [excedente de 0,3% do PIB] não seja colocado em causa pela discussão parlamentar na especialidade", repetiu..A promessa de "não asfixiar o país" com grandes excedentes convive com as metas do Plano Orçamental-Estrutural Nacional de Médio Prazo, recentemente enviado para Bruxelas..Nele, o governo estabelece um "compromisso" com a Comissão em chegar a um excedente de 0,3% do PIB no ano que vem e, no médio prazo, aponta para um saldo positivo que, mesmo sem os governos futuros fazerem mais nada, mesmo sem aprovarem novas medidas, pode chegar a 1,3% em 2028..Este cenário de "políticas invariantes", explicou o ministro, só conta com os efeitos de algumas medidas fiscais, mas não conta, por exemplo, com medidas do lado da despesa, como reformas no setor público, nem conta com medidas que aumentem a produtividade da economia como um todo, por exemplo..O governante voltou a defender que este OE reduz a carga fiscal sobre famílias e empresas. Relevou, como sempre, a medida do IRS Jovem (que na negociação com o PS dará um alívio de 525 milhões de euros em vez dos 1000 milhões ambicionados pela maioria PSD-CDS) e a redução da taxa nominal de IRC em um ponto percentual (que o governo queria que fosse de dois pontos)..Aqui, em resposta à deputada do BE, Mariana Mortágua, o ministro voltou a admitir que o plano é continuar a reduzir a tributação geral do IRC (como está no programa do governo), mas para já o "contexto político" é este em que a redução vai ser um ponto apenas. "Não lhe escondo que é nossa intenção continuar a reduzir o IRC. Para já, 1% é o que decorre do contexto político que existe neste Parlamento", afirmou Miranda Sarmento..Governo espera que se fume e beba mais... e mais litros de combustível.Ainda nos impostos, André Ventura, do Chega, questionou o ministro sobre "aumentos evidentes de impostos" como os que resultam do fim da isenção fiscal nos biocombustíveis, no gasóleo agrícola e do descongelamento da taxa de carbono [que agrava o preço dos combustíveis]..O deputado mostrou-se ainda estupefacto com o facto de o governo estar à espera de aumentar a receita com o ISP, com as multas e com os impostos sobre as bebidas alcoólicas e o tabaco. Juntou ainda que a previsão do OE indica que as multas "vão crescer 100 milhões de euros". .Sarmento atirou para canto, dizendo que as medidas relativas aos combustíveis estão a ser desenvolvidas fora do OE, havendo iniciativas legislativas ainda a correr no Parlamento (algumas desde junho, segundo o ministro), e que ainda não foram a votação..Em todo o caso, o governante argumentou que o aumento da receita decorrente do aumento do consumo em várias rubricas..Um dos traços originais deste OE é que, ao fim de muitos anos, não haverá aumento de tributação sobre álcool e tabaco, mas a receita sobe na mesma. Sarmento assumiu que o governo está, de facto, a contar com um aumento do consumo destes produtos..No caso do ISP, idem. Sarmento afirmou que a procura por combustíveis está a subir de forma significativa, o mesmo acontecendo com a circulação de veículos nas estradas, que tem "batido recordes"..E, mais à frente, corrigiu André Ventura (que já tinha saído do hemiciclo) na parte das multas. "A estimativa de cobrança de multas no OE 2025 é de 100 milhões, não é um aumento de 100 milhões, como disse o senhor deputado". "Aliás, este valor é até inferior ao de 2024, cuja estimativa é de 124 milhões de euros", quantificou Sarmento..Bernardo Blanco, da IL, também cavalgou a ideia de margem ou de capacidade de o governo acomodar muitas medidas que também podiam ser suas..O deputado aludiu a propostas como contas poupança isentas de impostos, IVA a 6% no setor da construção, redução do ISV, privatização da TAP, entre outras. Disse que a IL irá apresentar tudo isto no debate na especialidade..Sarmento foi algo lacónico na reação ao liberal. "Muitas dessas medidas já vêm neste Orçamento, mas o nosso programa é de quatro anos, não podemos pedir que seja condensado num ano apenas.".Despesa e função pública.Relativamente à despesa, o ministro foi confrontado várias vezes, pelo PS e pelo BE, com um "aumento das cativações", algo que rejeitou sempre. Também foi muito questionado, sobretudo pela esquerda sobre a necessidade de reforçar o número de funcionários em várias áreas fulcrais do serviço público, como a escola pública e o Serviço Nacional de Saúde (SNS)..Sarmento atirou que "o número de funcionários públicos aumentou muito nos últimos oito anos, mas isso não se reverteu em mais eficiência dos serviços" pelo que o governo vai estudar em que áreas pode haver mais reforços e onde é que é possível "aumentar a eficiência", sem incorrer em reforço dos quadros de pessoal.."Vamos fazer esse exercício ao longo do ano e identificar onde é preciso mais funcionários e menos", declarou o governante.."Por isso vamos implementar a regra geral de um por um [por cada trabalhador que sai, só pode entrar um], acudindo naturalmente a setores que mais necessitem, claro", declarou o ministro..Mortágua leu as palavras do ministro como um decreto de redução em muitas áreas do serviço público pois "para aumentar nuns, terá de reduzir noutros", observou a parlamentar..Paula Santos, do PCP, assinalou também o problema salarial dos funcionários públicos, "que, com as atualizações propostas, vão continuar a perder poder de compra"..Mariana Mortágua inquiriu ainda sobre o que pretende o governo alterar no regime de férias, mobilidade, direito à greve dos trabalhadores públicos, entre outros aspetos..O ministro chutou para "a negociação que está em curso". "O que for alterado é o que decorrer da negociação com os sindicatos sobre as carreiras gerais", atirou Sarmento..A apresentação parlamentar deste primeiro OE do governo de maioria PSD-CDS durou cerca de quatro horas. Começou às 15h da tarde desta segunda-feira..(Atualizado às 19h45)