O mal está feito. Foi a ideia transmitida, esta quinta-feira, pela diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), no discurso de abertura das reuniões da primavera do FMI e do Banco Mundial, que decorrerão entre 13 e 18 de abril de 2026, em Washington, EUA.Kristalina Georgieva trouxe uma série de avisos graves. Sozinha em palco, a mensagem não poderia ser mais explícita e potente: atrás da líder do Fundo, em enormes e garrafais letras maiúsculas lia-se "crescimento económico revisto em baixa" e uma grande seta a apontar para baixo.Mesmo que a guerra acabasse agora e que as tréguas entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão se transformassem numa paz duradoura, a destruição e os seus efeitos vão ser sentidos "por mais tempo", tendo em conta os danos já infligidos à produção, ao comércio e ao abastecimento de energia, que entretanto já se propagaram a outros sectores da economia regional e mundial.Segundo a economista búlgara, o custo de vida está a aumentar por causa da inflação (e mais desta pode estar a caminho), as taxas de juro vão ter de subir para conter a explosão de preços e o desvio face à idealizada meta de 2% (na Zona Euro, nos Estados Unidos, na maioria dos países avançados, basicamente), o movimento de mercadorias e de passageiros não vai ser o que era durante algum tempo, os fluxos de turismo internacionais devem cair e a fome irá alastrar por causa dos preços exorbitantes dos fertilizantes e dos alimentos, acenou a chefe do FMI."Se não fosse este choque, estaríamos a rever em alta as projeções de crescimento global" no novo estudo Perspetivas Económicas Mundiais (World Economic Outlook), a divulgar na terça-feira, 14 de abril, começou por revelar Georgieva. A publicação também trará previsões para Portugal, seja na economia, seja nas contas públicas.Danos vão demorar anos a repararNo entanto, a chefe do FMI avisou, naquele palco em Washington, que "mesmo o nosso cenário mais otimista envolve uma revisão em baixa das projeções de crescimento" por causa "dos danos significativos nas infraestruturas, das interrupções no fornecimento, da perda de confiança e de outros efeitos devastadores".E deu exemplos da dificuldade e da persistência no tempo do que já foi destruído pela guerra no Médio Oriente e no Golfo Pérsico, que começou a 28 de fevereiro."Considere-se o complexo de Ras Laffan, no Qatar — um exemplo extremamente importante de investimento estratégico bem-sucedido; produtor de 93% do gás natural liquefeito (GNL) do Golfo, sendo que cerca de 80% tem como destino a região Ásia-Pacífico, que agora enfrenta uma grave escassez de combustível.""Ras Laffan está praticamente paralisado desde 2 de março, sofreu impactos diretos a 19 de março e pode demorar três a cinco anos a recuperar até à sua plena capacidade", avisou Kristalina Georgieva.Portanto, "mesmo no melhor cenário, não haverá um regresso fácil e imediato ao status quo anterior".Para a líder do Fundo, "outro facto relevante é que a passagem de navios pelo estreito de Bab-el-Mandeb, no Mar Vermelho [a rota que liga o Oceano Índico ao Mar Mediterrâneo via Canal do Suez], nunca recuperou totalmente das devastadoras interrupções que ali ocorreram e permanece estagnada em cerca de metade do nível de 2023", que foi quando as forças militarizadas Houtis, do Iémen, leais ao Irão e apoiadas pelo regime de Teerão e dos aiatolas, iniciaram uma onde de sucessivos ataques a navios mercantes na região.Depois, continuou a economista, também "não sabemos ao certo o que o futuro reserva para as travessias pelo Estreito de Ormuz ou para a recuperação do tráfego aéreo regional"."Sabemos é que o crescimento será mais lento, mesmo que a nova paz aconteça e seja duradoura", avisou.Com o bloqueio de Ormuz, que continua mesmo havendo tréguas, Georgieva considera que o impacto é "significativo, com o fluxo diário mundial de petróleo reduzido em cerca de 13% e o de gás natural liquefeito em cerca de 20%".As consequências disto são "globais" porque, argumentou, "todos estão a pagar mais pela energia e por causa das cadeias de abastecimento que foram perturbadas à escala mundial";Mais fome e filas nas bombas de gasolinaEste choque negativo do lado da oferta está a fazer subir os preços. O custo do barril de petróleo Brent "passou de 72 dólares por barril na véspera das hostilidades para um pico de 120 dólares" e, embora tenha recuado, "continuam muito acima dos níveis anteriores à guerra — e muitos países estão a pagar prémios elevados para aceder a estes recursos escassos", com milhares de consumidores em dezenas de países asiáticos a fazerem "longas filas para abastecer", em que muita gente se "interroga se o combustível continuará a chegar após uma perturbação tão severa".Mas a disrupção não termina aqui. Segundo a diretora-geral do FMI, temos claramente "escassez de produtos refinados, incluindo gasóleo e combustível de aviação [jet fuel], o que está a afetar transportes, comércio e turismo num mundo mais interligado do que nunca".E temos uma nova vaga de "insegurança alimentar para mais 45 milhões de pessoas, podendo elevar o total de pessoas em situação de fome para mais de 360 milhões na sequência do agravamento dos preços dos fertilizantes agrícolas".Finalmente, e não menos grave, temos "perturbações nas cadeias de abastecimento decorrentes de dependências industriais, como enxofre, hélio (para produção de semicondutores e imagiologia médica) e nafta (para fabricar plásticos)", concluiu Georgieva..Mercados ainda acreditam no desbloqueio de Ormuz até ao verão, mas desânimo alastra.FMI. Aposta na Defesa pode levar a cortes brutais em Saúde, Educação e apoios sociais.FMI. Guerras devastam mais a economia do que crises financeiras ou desastres naturais