Um café em chávena escaldada e uma carcaça com manteiga são pousados com convicção em cima do balcão. José Guerreiro fita as moedas que segura cuidadosamente na mão e, sem o mesmo entusiasmo, retorque com uma nota de cinco euros, recebendo 2,15 euros de troco.Faltam dez minutos para as 7h00 da manhã e o dia ainda não se apresentou lá fora, mas para o reformado de 68 anos são já horas de fazer contas de subtrair numa pastelaria localizada na Costa da Caparica. “É muito caro comer fora, é um luxo. Só vim aqui porque tenho uma consulta a seguir e não tinha tempo. Mas dói no bolso, a reforma não me deixa fazer isto muitas vezes. Viu quanto é que paguei por um pão e um café? É quase um assalto”, diz entre uma mordida e um gole de café.A pensão é gerida “no fio da navalha”, explica o antigo polícia, enquanto abre a carteira como quem mostra a derradeira prova de um crime. “Tenho aqui mais duas notas de dez euros de lado e é com isto que a seguir vou ter de me orientar para levar comida para a semana”, justifica. A lista de compras não está definida e serão os preços a ditar a ementa para os próximos dias. “Já não dá para escolher, trazemos o que der para pagar”, desabafa.Do outro lado da margem do rio Tejo, a matemática é também a disciplina do dia no Mercado Municipal de Benfica. Um casal acomoda 16 carapaus numa modesta geleira submersa de gelo. O pequeno talão exibe o desfecho oneroso: 49,39 euros. “Está muito caro, custa muito a pagar. Lá em casa gostamos muito de carapaus e dá-se um jeito de comprar, vamos poupando noutras coisas”, elucida Paula Silva enquanto guarda o papel na bolsa que lhe ampara o ombro..O dono da banca convida-nos a passar os olhos pelo desfile de peixes que repousam entre placas com números, à espera de vez para entrarem num saco. O quilo de pregado custa 21,90 euros, a garoupa 20 euros, o robalo grande 17,90 euros e a dourada do mar 12 euros. “O peixe está muito caro, o carapau era o peixe dos pobres e agora só para ricos. Vê aquelas douradas a 20 euros? Quando comecei neste trabalho há 25 anos vendia-as a quatro euros”, recorda Sérgio Martins. Por estes dias, o negócio vai-se fazendo com dificuldade e estratégia, numa fina ginástica de preços que, se não for meticulosamente pensada, pode ser fatal. “As pessoas correm o mercado todo por uma diferença de 20 cêntimos, é o suficiente para desistirem de comprar aqui e irem à banca do lado. É duro, vamos tentando engraxar a clientela para levar isto para a frente”, confessa o vendedor.O quadro não é recente e os custos já começaram a pesar no ano passado. A subida da inflação, agora somada ao aumento do preço dos combustíveis têm feito escalar a fatura e afastado fregueses. “Muitos chegam aqui, olham e vão-se embora. Coitados, não podem comprar. Alguns mandam pesar o peixe, veem o preço e depois dizem que não podem comprar e para eu não levar a mal. Claro que não levo a mal, como é que se vive hoje a pagar renda, contas e com a alimentação tão cara? Não dá”, constata.A alternativa é refrear o consumo, mas na hora de escolher o que colocar no prato, é imperativo encontrar soluções. “As pessoas não levam para grandes refeições. Três carapaus não dão para uma família. Se for ali ao talho compro um franguinho de quilo e meio, corto aos bocadinhos e faço uma jardineira. Já rende mais”, compara.É preciso apenas meia dúzia de passos para chegar ao Talho 25. O frango está marcado a 3,58 euros, confirmando o argumento do vizinho de mercado. Por aqui, é a carne mais vendida, seguindo-se o peru. O porco “ainda está a um preço razoável”, ao contrário das peças de vaca que já pouco saem. Os preços mais em conta face ao peixe têm ajudado as vendas a manter-se à tona, mas o cinto, para quem chega, está apertado. .“Há um ano, nesta altura, uma família de quatro pessoas levava seis ou sete bifes, hoje leva quatro. Está tudo pela hora da morte, já não dá para se comer um bife e meio por pessoa, é um para cada”, refere o proprietário do estabelecimento, Rodrigo Machado. A poucos dias da Páscoa, a tradição dá um empurrão à atividade com o cabrito e o borrego a assumirem-se como as escolhas principais. “Só compram mesmo por hábito nesta altura, fazem um esforço. Fora desta época não se vende”, sublinha. As margens de lucro para o talhante são “curtas”, apesar da pressão dos custos. “Mas se mexemos muito nos preços, depois temos de comer nós a carne toda, não é? Não se podem fazer grandes avarias”, afiança..“Antes compravam um quilo de maçãs, agora pedem quatro unidades”.As inúmeras bancas que preenchem os 2800 m2 do mercado da freguesia de Benfica, com mais de meia centena de anos, vestem-se de uma musculada oferta de cores e de cheiros que se entrelaçam nos corredores.Os queijos e enchidos surgem, de forma pouco inocente, ao lado do pão caseiro. “Quer levar aqui um peixinho fresco?”, questiona ao longe, e em tom sedutor, um vendedor. Depois de trocar olhares com a câmara que carregamos, muda o semblante. “Não me digam que são mais uns da televisão”, atira, desconsolado. São diversos os comerciantes que de braços cruzados esperam pelos clientes que não chegam. A procura está a meio gás e não há filas com mais do que três ou quatro pessoas à espera de serem atendidas. Por estes dias, a visita de jornalistas banalizou-se e o cansaço evidencia-se com a recusa reiterada em falar..As notícias sobre o negócio não são animadoras e os números confirmam o cenário. Os dados preliminares do Eurostat revelam que Portugal registou, em março, a maior subida de preços entre os 21 Estados-membros da Zona Euro. Entre o segundo e o terceiro mês do ano, os preços dispararam 2,3%. Já a Deco aponta para um aumento, desde o início do ano, de quase 8% nos preços do peixe e de 7% nas frutas e legumes.As estatísticas oficiais, que são esmiuçadas em jornais por especialistas, são postas a nu numa rudimentar caixa de tomates. Os mais de quatro euros pedidos por quilo traduzem, para a linguagem de quem compra, a economia que tanto se discute nos noticiários. As consequências do conflito da guerra no Médio Oriente fizeram sangrar, ainda mais, a ferida deixada aberta pelas tempestades que assolaram o país no início do ano. “As chuvas destruíram muita coisa. Não há tomates, nem hortaliças. O tomate cherry está a 8,50 euros, uma caixa de bróculos custa-me 25 euros e tenho aqui empatados 1500 euros em stock. Está tudo muito caro. Há produtos que só tenho aqui para dizer que tenho, porque acabam por me render 20 cêntimos de lucro, nem compensa para o trabalho”, partilha Paula Neto..A vendedora de frutas e legumes espera aviar o máximo antes do final da semana, altura em que as famílias começam a rumar às suas terras para celebrar a Páscoa. A escalada dos custos forçou-a a aumentar os preços e a resposta dos clientes tem sido de contenção. “Antes compravam um quilo e tal de maçãs, agora pedem quatro maçãs. Em vez de levarem dois ou três quilos de cenoura, compram seis ou sete unidades. As pessoas começaram a cortar à mesa, só levam o essencial para cada semana, já não dá para se comprar para o mês todo”, nota.Se é verdade que a atual conjuntura tem fragilizado o núcleo de muitos negócios, também tem dinamizado outras atividades, como a venda de flores e plantas. O aumento dos preços das hortícolas está a fazer disparar o interesse pela plantação caseira.“As pessoas sentem que, de facto, os preços estão muito elevados e começam a fazer a sua própria horta em casa. Basta uma varanda para se conseguir plantar tomates, alfaces ou pimentos, por exemplo. No final de uns meses é uma poupança elevada e compensa. Temos vendido cada vez mais produtos nesse sentido”, enquadra Pedro Neves. .O proprietário da Horto do Mercado traça um quadro mais animador do que os seus pares. “Em alturas de crise, os mercados beneficiam sempre, têm preços mais acessíveis e de melhor qualidade face às grandes superfícies e, portanto, há mais clientes aqui e acabamos também por ganhar com isso. No caso das flores, não sentimos ainda aumentos de preços e, com a chegada da época dos casamentos, as perspetivas são boas”, acrescenta..Combustíveis asfixiam famílias e taxistas.O aperto na carteira dos portugueses sente-se ao longo do dia sempre que impera um pagamento e, quando o tema é atestar o carro, os suspiros multiplicam-se.Numa bomba de combustível na Amadora, Luís Almeida coloca 25 euros de gasóleo, que já sabe que não serão suficientes para os sete dias da semana. “Antigamente, com 20 euros conseguia fazer tudo, agora é impossível. Preciso de me deslocar em trabalho todos os dias para Alcântara e este valor já não chega. Terei de começar a utilizar transportes públicos provavelmente, que infelizmente não funcionam bem no trajeto que preciso de realizar”, lamenta.Com quatro filhos a seu cargo, explica que a gestão do orçamento familiar tem sido desafiante. “É muito duro, tive de cortar em tudo. Até no leite dos miúdos, no arroz, no óleo. Tenho uma filha de dois anos e a escola é muito cara e não está a dar para tudo”, detalha. .Ao lado, Conceição Marques partilha as preocupações. “Estou desempregada e tem sido uma ginástica familiar muito grande. Este aumento nos combustíveis está a ter um impacto enorme e o resto dos preços em geral estão como se pode ver. Tento utilizar o carro ao mínimo”, acrescenta. Já para o consultor imobiliário Paulo Matos, não é possível reduzir a utilização do automóvel. “O meu dia é andar de carro. Este aumento é duro. Não dando para reduzir aqui, tenho de diminuir noutras coisas, nomeadamente em extras como ir jantar fora. Não serei o único a fazer isto e acredito que a restauração vá senti bastante estes impactos”, perspetiva.A frustração de quem depende do combustível para colocar pão na mesa salta rapidamente à vista numa praça de táxis no Lumiar. A procura “está fraca”, dizem os taxistas que estão a pagar mais para abastecer sem mexer nas tarifas.. “O impacto tem sido muito grande para nós, são mais dez euros sempre que vamos atestar e nada de nos deixarem aumentar preços. A Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros (ANTRAL) tem de pressionar o Governo para ver se conseguimos sobreviver”, pede José Santos. Um colega de profissão, Francisco Coitão, concorda e assume estar a pensar em abandonar a atividade. “Está muito difícil. Não há clientela e chegamos a estar aqui parados mais de uma hora. Trabalho 13 horas por dia para levar para casa entre 30 a 35 euros, não compensa”, conclui..Restauração está a absorver custos para manter clientes.A hora de almoço aproxima-se devagar e, em Belém, uma fila de centenas de turistas resiste ao sol tórrido que se abate na calçada despida de sombra. Ao lado, as esplanadas dos restaurantes permanecem numa solitude que contrasta com a azáfama criada à porta da casa que vende os afamados pastéis. Nem os menus com pratos do dia, entre os nove os dez euros, afixados à entrada do restaurante e pastelaria Versailles, convencem os estrangeiros a sentar-se à mesa. “Está a ser difícil manter o negócio. Com a questão da guerra, tudo aumentou e isto está a tomar uma proporção descontrolada. Não conseguimos traduzir isso nos preços finais, caso contrário perdemos clientes”, explica a gerente do espaço, Sandra Gouveia..Nem a localização, numa das principais zonas turísticas da cidade de Lisboa, tem ajudado a dar ânimo ao negócio. “Há uma grande diferença no número de turistas este ano - está mais fraco face ao mesmo período de 2025”, garante. A poucos metros, o gerente do restaurante Belém Palácio corrobora os dias de névoa no setor. “Os preços subiram muito. O peixe aumentou imenso e os queijos também, mas temos de aguentar, caso contrário as pessoas não comem fora. Não podemos aumentar preços”, afirma Manuel Mourão..A procura tem caído a pique, “o inverno foi mau” e os turistas, que vão aparecendo, fogem dos restaurantes. “Tudo aumentou e as pessoas andam muito alerta com os preços. Os turistas antigamente vinham à restauração e agora fogem para os supermercados. Os que vêm consomem o indispensável, cortam nas bebidas e nas sobremesas”, exemplifica. A fatura a pagar aos fornecedores não pára de escalar, mas, cá fora, os menus que ilustram a parede permanecem imóveis. “Vamos aguentando, até ver”, diz o gerente por entre um encolher de ombros..Ana Jacinto: “Restaurantes estão com muitos problemas. Qualquer sopro serve para abanar a estrutura”