O excedente orçamental público apurado no final de janeiro era o maior dos últimos três anos, no arranque do ano. Este saldo oficial contabilizado pelas Finanças no mês em causa (+1,8 mil milhões de euros) mostra, inclusivamente, que se trata do terceiro melhor janeiro de que há registo, desde 2013, e mesmo na altura em que a depressão Kristin arrasou o centro de Portugal e outras partes do país com chuvas e ventos ciclónicos.Foi na madrugada do passado dia 28 de janeiro que a tempestade embateu no território continental, destruindo milhares de casas, indústrias, explorações agrícolas, deixando quase um milhão de pessoas sem eletricidade. Uma "calamidade".De acordo com um levantamento feito pelo DN a partir dos dados da execução orçamental divulgada pelas Finanças, o excedente das contas públicas na lógica da contabilidade pública (ótica de caixa, a do dinheiro que efetivamente entra e sai dos cofres públicos), o excedente superou os 1,8 mil milhões de euros só em janeiro.É preciso recuar a janeiro de 2023 para encontrar um saldo maior neste mês. Há três anos ultrapassou os 2,1 mil milhões de euros. Foi o prenúncio do que viria a acontecer nesse ano, quando o governo entregou o maior excedente orçamental da democracia portuguesa, equivalente a 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) ou 3,4 mil milhões de euros, aqui na ótica da contabilidade nacional (lógica dos compromissos).De acordo com as séries da Entidade Orçamental (antiga Direção-Geral do Orçamento), tutela do ministro das Finanças Joaquim Miranda Sarmento, este janeiro de 2026 é, como referido, o terceiro maior janeiro (em valor) das séries das Finanças. Como referido, o maior foi o primeiro mês de 2023 (com o tal superávit de 2,1 mil milhões de euros); o segundo maior registo em janeiros foi o de 2022.Para 2026 como um todo, o atual governo tem como meta no Orçamento do Estado um excedente de 0,1% do PIB.O início fulgurante da execução orçamental deste ano foi, no entanto e como referido, imediatamente ensombrado pela destruição provocada pela Kristin e o restante comboio de tempestades que se lhe seguiu.Em resposta aos eventos, o governo anunciou, no início de fevereiro, um primeiro pacote de ajudas, entre apoios financeiros, garantias de crédito e moratórias de pagamentos, de 2,5 mil milhões de euros, valor que foi revisto em alta na semana passada para os 3,5 mil milhões de euros.O ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, estimou no começo de fevereiro, e de forma muito preliminar, que estas tempestades terão gerado um prejuízo de quatro mil milhões de euros à economia (pessoas, empresas e Estado), mas vários analistas dizem que o número está subestimado, podendo ascender a cinco ou mesmo seis mil milhões de euros.Segundo a execução orçamental das Finanças, a margem no final de janeiro era, no mínimo, confortável. "As Administrações Públicas (AP) apresentaram, em janeiro de 2026, um excedente de 1824,3 milhões de euros, o que representa um acréscimo de 188,4 milhões de euros face ao período homólogo (um aumento de 11,5%), resultado de um crescimento da receita (6,1%) superior ao da despesa (5%)".Segundo o boletim da execução, o saldo primário, ou seja, sem contar com a despesa em juros a pagar aos credores, "cifrou-se em 2078,7 milhões de euros, uma melhoria [aumento] de 182,6 milhões de euros quando comparado com o obtido no ano anterior".Já o crescimento forte "de 6,1% da receita das AP resultou, fundamentalmente, da evolução das receitas contributiva (8,3%) e não fiscal e não contributiva (11,8%), complementada pela receita fiscal (2,7%)".De acordo com as Finanças, "a variação positiva na despesa primária em 5,3% fundamenta-se, maioritariamente, nos aumentos das transferências (7,4%), das despesas com pessoal (5,5%) e do investimento (25,3%)".