O vinho perdeu peso estrutural no mercado global, com a produção a superar o consumo, sendo o excedente equivalente a três anos de consumo, revelou um estudo do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra.“Entre 2000 e 2023, esta assimetria acumulou um excedente global de 717 milhões de hectolitros nas caves de todo o mundo, um volume equivalente a mais de três anos de consumo global à espera de escoamento”, afirmou a docente e investigadora do ISMT Maria Cunha.Segundo a investigação realizada por investigadores do ISMT e de duas universidades da Ucrânia, que a agência Lusa consultou, o vinho representa hoje 12,5% do consumo mundial, quando em 1960 superava os 30%.Maria Cunha sublinhou que o desfasamento estrutural “reflete a inércia da oferta”, já que, desde 2018, o consumo mundial caiu a uma média anual de 1,75% e a produção recuou 0,3%.“O setor continuou a produzir a ritmos que o mercado já não consegue absorver”, referiu.O estudo analisou a evolução da produção, consumo e importações de vinho em 27 países responsáveis por cerca de 86% do consumo mundial e 80% das importações globais do setor.Os investigadores dividiram os mercados em dois grandes grupos – os países produtores autossuficientes e países dependentes de importações - para avaliar de que forma a quebra da procura internacional está a alterar o equilíbrio económico do mercado vitivinícola mundial, entre 2000 e 2023.De acordo com a investigadora, “o grande risco atual é o setor ter ficado excessivamente dependente de um grupo de países importadores”, como Estados Unidos, Reino Unido ou Alemanha, que concentra 45% do consumo mundial, 66% do volume global e 68% do valor financeiro do comércio internacional do vinho.A investigação destacou o caso do mercado chinês, que registou, entre 2017 e 2023, uma queda no consumo de 19,3 para 6,8 milhões de hectolitros, associada “à dificuldade de consolidar hábitos regulares de consumo num mercado onde o vinho representa apenas cerca de 03% do álcool total consumido”.Mesmo que a China tivesse mantido os ritmos de crescimento registados entre 2005 e 2017, já não seria suficiente para inverter a tendência global de quebra do consumo e das importações, concluiu a análise.A pressão do mercado global começou já a produzir consequências nos principais produtores, tendo a França aprovado o arranque de cerca de 04% da área vitícola para reduzir o excesso estrutural da oferta.Maria Cunha alertou que Portugal integra o grupo mais exposto ao abrandamento da procura internacional, já que os países produtores autossuficientes concentram 78% da produção mundial, mas absorvem apenas 40% do consumo global.O estudo apontou para a continuidade da tendência até 2030, com os autores a estimarem que, caso o comportamento do mercado se mantenha, o consumo possa cair para níveis próximos dos 186,5 milhões de hectolitros, enquanto os países produtores continuarão sob pressão para reduzir excedentes e reposicionar o setor.“O setor terá de adaptar-se a um mercado mais seletivo, menos orientado para volume e cada vez mais dependente da diferenciação e do valor acrescentado que cada marca consiga associar aos seus vinhos”, referiu.Maria Cunha afirmou que o “limite do comércio mundial de vinho deixou de estar nas tarifas ou nas barreiras comerciais e passou a estar na própria procura”.Sublinhou ainda que a estratégia de crescimento baseada apenas em preço, volume e expansão contínua das exportações tornou-se cada vez mais difícil de sustentar, transformando a aposta em segmentos de maior valor acrescentado num mecanismo de sobrevivência estrutural para muitos produtores dependentes da exportação.O estudo “Wine Import in the Context of Transforming Global Consumption” foi desenvolvido por investigadores do ISMT, da Oles Honchar Dnipro National University e da Odesa Polytechnic National University, da Ucrânia. .E se o maior problema do vinho for a forma como falamos dele?.Arménia: o país que tem a adega mais antiga do mundo ainda é um bebé na produção de vinho