A esmagadora maioria dos quase 5.000 empresários e gestores de vários sectores de atividade económica em Portugal – ouvidos pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), entre 1 e 21 de maio – adverte que terá de continuar a subir os preços de venda ao longo dos próximos três meses, isto é, até ao início de setembro, pelo menos, na sequência do pesado agravamento dos custos de produção imposto pelo choque energético, que já dura desde o início de março.De acordo dados do INE, a inflação sentida pelos consumidores, que quase duplicou de ritmo, subindo de 1,9% em janeiro para 3,3% em abril, o valor mais elevado em dois anos, vai continuar em alta, dizem a maioria dos gestores e decisores de topo consultados no âmbito dos inquéritos mensais de conjuntura do INE junto dos empresários, conduzidos em maio.Se isto acontecer noutros países da Zona Euro, designadamente nas maiores economias (Alemanha, França, Itália, Espanha), então o Banco Central Europeu (BCE) terá razões de sobra para começar a subir as taxas de juro já na reunião de política monetária de 10 e 11 de junho e prometer novos apertos até ao final do ano.As expectativas de inflação, designadamente as dos empresários e consumidores, são um dos indicadores mais seguidos em Frankfurt para aferir se a inflação (que foi impulsionada pelo choque petrolífero em curso desde o ataque dos EUA e de Israel ao Irão, a 28 de fevereiro passado) se está a enraizar e a tornar num problema mais estrutural e difícil de resolver.Isto dá argumentos para várias subidas de juros pelo BCE até dezembro, eventualmente duas ou três de 0,25 pontos percentuais cada, elevando o custo do dinheiro da Zona Euro de 2% para 2,75%.Em Portugal, não há dúvidas: a inflação despertou em março e, pelas expectativas verbalizadas pelos gestores, está para ficar.De acordo com o INE, em maio foram ouvidos 1.399 empresários da Indústria Transformadora, um sector que representa cerca de 14% da economia portuguesa (valor acrescentado bruto anual).A esmagadora maioria dos industriais confirma que as expectativas de preços de venda nos próximos três meses indicam que o sector está a antecipar uma crise inflacionista duradoura (seis meses de inflação em alta, pelo menos) e que esta será tão grave quanto no primeiro ano da guerra da Ucrânia.Em maio de 2026, o saldo de respostas extremas dos empresários da indústria apresenta o registo mais elevado desde julho de 2022, apontando para aumentos nos preços. Ou seja, a expectativa inflacionista é agora tão elevada quanto era no início da guerra da Rússia contra a Ucrânia (que começou em fevereiro de 2022).O mesmo acontece na Construção e Obras Públicas. Neste sector, para o qual o INE estima um peso de 5% na economia portuguesa, foram consultados 651 empresários.Segundo os dados recolhidos pelo DN, as perspetivas de preços a praticar nos próximos três meses subiram de forma pronunciada e estão agora no valor mais alto desde março de 2023, um período de inflação muito elevada desencadeada pela agressão da Rússia, na altura um fornecedor-chave de gás para a Europa, designadamente a economia alemã, a maior da zona euro.Mais próximos dos consumidores e, portanto, mais capazes de passar direta e imediatamente a sua inflação às famílias, estão os sectores do Comércio e dos Serviços.O INE ouviu 1.248 empresários do ramo comercial e não há dúvidas. O respetivo indicador que mede as perspetivas de preços de venda para os próximos três meses está a subir de forma significativa desde março e, agora, em maio, registou, tal como o ramo da construção, o nível mais elevado desde março de 2023, quando a guerra da Ucrânia tinha acabado de fazer um ano. O Comércio representa 12% da economia nacional.Finalmente, o maior sector, o dos Serviços. Com um peso de quase 40% no VAB, a esmagadora maioria dos seus empresários (o conjunto de respostas ascende a 1.398) confirmou junto dos serviços do INE que o barómetro das “expectativas de preços na prestação de serviços nos próximos três meses” chegou, agora em maio, ao valor mais elevado desde setembro de 2022.Numa altura em que tudo continua incerto e imprevisível na guerra no Médio Oriente, no Golfo Pérsico e no bloqueio do Estreito de Ormuz, com esboços de aproximação e sucessivos atos de agressão, estas expectativas a nível nacional mostram que a corrosão do poder de compra das famílias e dos consumidores vai continuar verão adentro, isto sem contar com as faturas dos combustíveis e dos juros da dívida bancária, que também vão subir ou manter-se elevadas.Como referido, a inflação geral do país está no nível mais alto dos últimos dois anos e, pelas contas do DN/DV, o custo dos alimentos frescos e essenciais, os não transformados, registou um agravamento maior agora, com a nova guerra no Médio Oriente, do que há quatro anos, quando a Rússia abriu hostilidades e invadiu a Ucrânia.O preço médio no período de janeiro a abril deste ano do cabaz de alimentos não transformados (onde estão os frescos) aumentou cerca de 7% em termos homólogos (face ao primeiro quadrimestre de 2025), acima da média geral nacional..BCE. Choque petrolífero atinge sobretudo os mais pobres, incerteza da guerra perturba os mais ricos.Inflação portuguesa sobe para 3,3%, o valor mais alto dos últimos dois anos.Alta pressão nos preços. Estrangeiros têm capacidade de pagar mais 43% por uma casa que os portugueses