Esta segunda-feira, 23 de março, as principais bolsas de valores mundiais e os mercados da energia, designadamente o do petróleo, viveram um dia de tréguas: as bolsas recuperaram um pouco da destruição de valor avassaladora seu desde o início da guerra contra o Irão e o preço do barril de petróleo (Brent) registou o segundo dia de alívio desde o fatídico 28 de fevereiro, quando começou este conflito, que atualmente alastrou aos países do Golfo Pérsico.Como referido, esta segunda trouxe desanuviamento, mas a Comissão Europeia (BCE) emitiu dois avisos carregados de dramatismo, verdadeiros avisos à navegação que se espera, este ano, exigente e arriscada na economia.Bruxelas revelou que a confiança das famílias colapsou nestes primeiros 20 dias de março e recomendou a todos os países da União Europeia (UE) que se preparem para o inverno, que vão "repondo" as reservas de combustíveis de forma suave, evitando corridas às compras de energia no final do verão, para não fazer subir os preços.A manhã de segunda-feira começou de forma miserável para os mercados, mas depois o Presidente dos EUA, Donald Trump, veio prometer umas supostas conversações com Teerão e um possível cessar-fogo no Médio Oriente. A partir deste momento, os as bolsas começaram a recuperar.O custo do petróleo também aliviou. Depois de bater sucessivos máximos desde o início de março e de ter já ultrapassado a fasquia dos 119 dólares na semana passada, o preço do barril desceu quase 10%, para cerca de 95 dólares.De acordo com cálculos do DN, até à nova guerra do Irão (de 1 de janeiro a 27 de fevereiro), o preço médio do barril de Brent foi de 67 dólares. Desde essa altura até esta segunda-feira, a média vai nos 95 dólares. É um encarecimento brutal, superior a 40%.Tendo em conta o choque petrolífero em curso e com poucas ou nenhumas garantias palpáveis de que vá terminar, a CE decidiu avisar os países para se prepararem para o frio do próximo inverno."Tendo em conta a volatilidade dos mercados decorrente do conflito no Médio Oriente, a Comissão Europeia insta os Estados-Membros a iniciarem a época de enchimento de gás e os respetivos preparativos de forma coordenada e atempada para o próximo inverno", recomenda a CE.Segundo o executivo liderado por Ursula von der Leyen, "os preparativos atempados e coordenados são fundamentais para garantir o correto reenchimento das instalações de armazenamento de gás para a próxima época de aquecimento, adaptando-se às condições do mercado e aplicando as flexibilidades disponíveis".Evitar corridas às compras para não fazer subir ainda mais os preçosDan Jørgensen, comissário para a Energia, considera que "estamos muito mais bem preparados do que em 2022", mas avisa que "a nossa exposição à volatilidade do mercado mundial é clara e temos de nos certificar de que atuamos desde já na preparação para o inverno e de que o fazemos de forma coordenada".Repor gás e combustíveis em armazenamento deve ser feito "o mais cedo possível", permitindo assim termos "um período de injeção mais longo e adaptar-nos às circunstâncias do mercado, a fim de mitigar a pressão sobre os preços e evitar uma corrida participada no final do verão".Também esta segunda-feira, outro aviso de Bruxelas: os resultados preliminares do primeiro inquérito aos consumidores mostram que a confiança das famílias europeias acaba de registar o maior colapso desde o início da guerra da Ucrânia.É um mau sinal na medida em que, caso a confiança e as expectativas de inflação se deteriorem, o BCE ganha argumentos de peso para subir taxas de juro, eventualmente já em abril, avisam analistas e economistas.A confiança das famílias da Zona Euro acaba de registar a maior descida desde início da guerra da Ucrânia, mostra o referido primeiro inquérito feito pela Comissão Europeia (CE) entre os dias 1 e 22 de março (abre em pdf), ou seja, o período que se segue ao início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, que descambou para uma guerra no Golfo Pérsico e para a interrupção nos fluxos de petróleo através do Estreito de Ormuz, uma crise que ainda dura.Com esta quebra, a maior dos últimos quatro anos, o nível de confiança dos consumidores da Zona Euro e da União Europeia (UE) afundou para o pior registo dos últimos dois anos e meio.Perceber se o medo da inflação está a enraizar-se nas pessoasMau sinal para as famílias, empresas e governo, mas também para o Banco Central Europeu (BCE) que vai estar a controlar esta estatística para perceber se o pessimismo dos consumidores está a alastrar-se às expectativas de inflação.Os dois indicadores afundaram assim para -15,2 pontos (UE) e -16,3 pontos (zona euro), ou seja, "a confiança dos consumidores está consideravelmente abaixo da sua média de longo prazo, atingindo o nível mais baixo em dois anos e meio", diz a CE.Na quinta-feira, 19 de março, a presidente do BCE, Christine Lagarde, lembrou que "estamos dependentes de dados, pelo que analisaremos tudo o que normalmente analisamos, mas estaremos particularmente atentos a alguns pontos" para decidir aumentar (ou não) taxas de juro por forma de deter a inflação. Um deles é, disse Lagarde, o índice de confiança dos consumidores..Confiança das famílias regista o maior colapso desde o início da guerra da Ucrânia.BCE queria aguentar juros em 2% até junho, mas mercados veem subida para 2,25% em abril e 2,5% no verão