Valdis Dombrovskis, comissário europeu da Economia. Bruxelas, 21 de maio de 2026.
Valdis Dombrovskis, comissário europeu da Economia. Bruxelas, 21 de maio de 2026.Foto: OLIVIER HOSLET / EPA

Comissão Europeia. Rutura no jet fuel dos aviões colocará economia portuguesa em apuros

Previsões. "O vasto sector turístico de Portugal depende fortemente do transporte aéreo", a via de chegada para mais de 90% dos turistas que entram no país. Bruxelas muito preocupada.
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A economia portuguesa é, atualmente, tão "fortemente dependente" do sector do turismo que a Comissão Europeia (CE) alerta que eventuais ruturas no fornecimento e na disponibilidade de combustível para aviação (querosene, jet fuel), como já se fala, causarão um embate significativo na economia portuguesa como um todo.

De acordo com as novas previsões económicas da primavera, divulgadas esta quinta-feira, 21 de maio, pela CE, em Bruxelas, "o balanço de riscos mantém-se desfavorável e ainda mais agravado pela incerteza relativa ao fornecimento de combustível de aviação, uma vez que o vasto sector turístico de Portugal depende fortemente do transporte aéreo".

Há duas semanas, também em Bruxelas, o ministro das Finanças português, Joaquim Miranda Sarmento, mostrou profunda inquietação com esse cenário de falta de jet fuel, tendo dito que “se isso suceder, e tendo em conta que poderá suceder no verão, terá um impacto muito significativo na economia portuguesa”.

Isto porque “mais de 90%, 96% ou 97% dos turistas que chegam a Portugal, e no caso as regiões autónomas até mesmo 100%, vêm de avião, e, portanto, se não houver jet fuel [querosene, combustível usado na aviação] a nível europeu, mesmo que haja nos aeroportos portugueses, os aviões não chegarão a Portugal e, portanto, os turistas não chegarão", advertiu o ministro.

"Se isso acontecer, teremos um choque económico muito significativo" porque "o turismo é uma indústria muito importante, quer na receita, quer no emprego", acrescentou o governante.

Sem contar com esse choque altamente destrutivo que pode advir da carência de combustível para aviões, a Comissão diz que Portugal até estava a andar bem este ano, tendo em conta a gravidade dos eventos que a economia teve de enfrentar até agora – as tempestades violentas do inverno (janeiro e fevereiro) e a seguir o choque petrolífero na sequência do ataque ao Irão e da guerra que alastrou ao Médio Oriente, que dura desde final de fevereiro até hoje, e ainda sem fim à vista.

O ministro das Finanças está muito receoso sobre o rumo do turismo e do mercado de querosene, mas para compensar o homólogo da Economia, Manuel Castro Almeida, veio dizer em público que até está tranquilo, descartando dificuldades para o sector do turismo.

Sobre a questão do combustível para os aviões, "tudo indica que não vai ser um problema para Portugal, com os dados que nós temos hoje, não será um problema o turismo [proveniente do estrangeiro] por causa desse efeito".

Sobre as crescentes dificuldades no poder de compra dos portugueses (mais inflação e taxas de juro a subir) que podem limitar a sua capacidade de ir de férias, mesmo em Portugal e sem recorrer ao transporte aéreo, Castro Almeida diz que “as pessoas farão as férias que puderem fazer”.

Contando que tudo corre menos mal

Se não acontecer um colapso no turismo em Portugal, e contando que a guerra não se prolonga muito mais e que o choque petrolífero e inflacionista se começa a esbater a partir do início do verão (é o cenário de base e menos pessimista com o que Bruxelas está a trabalhar), a CE prevê que o crescimento real da economia portuguesa (isto é, descontando a inflação) se aguente, embora em claro abrandamento.

Este ano, se a situação internacional parar de se degradar, a economia ainda pode conseguir crescer 1,7%, em todo o caso menos do que os 2% que o Ministério das Finanças (MF) prevê no Relatório Anual de Progresso, enviado no final de abril à CE.

Na inflação no consumidor, Bruxelas aponta já para 3%, bem mais do que os 2,5% assumidos pelo governo há apenas 22 dias ou do que os 2% que a CE previu em novembro, nas previsões antes destas.

O estudo dedicado ao país, nas previsões da primavera, refere que "a economia portuguesa enfrentou uma série de choques inesperados no início de 2026, começando por fortes tempestades em janeiro e fevereiro, seguidas por uma acentuada subida dos preços da energia em março e abril" e que, "consequentemente, o sentimento económico deteriorou-se e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) abrandou, passando de 0,9% em termos trimestrais no 4.º trimestre de 2025 para uma estagnação no 1.º trimestre de 2026".

Bruxelas nota que "embora as vendas a retalho tenham permanecido resilientes, a confiança dos consumidores caiu para o nível mais baixo dos últimos dois anos", mas para compensar "os indicadores de confiança empresarial, em particular no setor dos serviços, recuperaram após a queda registada em janeiro".

Para este ano, "prevê-se que o crescimento económico melhore gradualmente em termos trimestrais ao longo do horizonte de previsão, impulsionado pelas obras de reparação na sequência dos danos provocados pelas tempestades e pelo esperado pico de utilização dos fundos do Mecanismo de Recuperação e Resiliência [MRR, o fundo que financia o PRR - Plano de Recuperação e Resiliência] em 2026".

No entanto, "os preços elevados da energia devem continuar a exercer pressão negativa, sobretudo no 2.º trimestre de 2026".

Em termos anuais, "projeta-se que o crescimento desça ligeiramente, de 1,9% em 2025 para 1,7% em 2026 e 1,8% em 2027", com o investimento a beneficiar "significativamente do ciclo do MRR em 2026", que compensa ainda que "parcialmente" o "sentimento negativo de investimento no sector privado", antecipa neste momento a CE.

(atualizado às 14h30)

Valdis Dombrovskis, comissário europeu da Economia. Bruxelas, 21 de maio de 2026.
Ministro diz que combustível para aviões não será problema para o turismo em Portugal
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