A economia portuguesa vai sofrer em toda a linha com os efeitos do novo choque petrolífero: vai crescer bem menos do que o esperado há seis meses, com muito menos força ao nível do consumo das famílias, do investimento e das exportações, e em cima disto, a inflação vai subir bastante corroendo o poder de compra, alerta a Comissão Europeia (CE), que sinalizou ainda estar bastante preocupada com o futuro do "vasto sector do turismo" por causa da rutura iminente na disponibilidade de querosene (jet fuel).De acordo com as novas previsões da primavera, divulgadas esta quinta-feira, há seis meses, ainda antes das tempestades destruidoras do inverno e da nova guerra no Médio Oriente e no Golfo Pérsico, a CE previa que Portugal crescesse 2,2% este ano.Agora, a estimativa cai de forma pronunciada, cerca de cinco décimas, para apenas 1,7%.O consumo, a componente da economia com mais peso (cerca de 60% ou mais), avança 1,9% este ano em vez dos 2,6% estimados em novembro.É o reflexo da incerteza e da falta de confiança das famílias aliada à subida gravosa da inflação prevista para 2026, que foi revista em alta de 2% para 3%, indica a CE.E nem mesmo o investimento, que este ano beneficia da execução mais acelerada do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), escapa ao embate: Bruxelas vê o impulso do novo investimento a enfraquecer de 4,4% (valor estimado em novembro) para 3,9% agora.O ritmo das exportações é baixo, mas continua o mesmo face à perspetiva de há seis meses: 1,1%, diz a CE.Turismo pode ficar sem combustívelMas, nesta quinta-feira, o maior aviso à navegação foi para o grande motor da economia portuguesa, o turismo.Atualmente ou já há alguns anos, Portugal é tão "fortemente dependente" do sector do turismo, que a Comissão decidiu lançar um alerta veemente: no capítulo sobre Portugal, avisou que eventuais ruturas no fornecimento e na disponibilidade de combustível para aviação (querosene, jet fuel), como já se fala, causarão um embate significativo na economia como um todo.De acordo com as novas previsões económicas de Bruxelas, "o balanço de riscos mantém-se desfavorável e ainda mais agravado pela incerteza relativa ao fornecimento de combustível de aviação, uma vez que o vasto sector turístico de Portugal depende fortemente do transporte aéreo".Há duas semanas, também em Bruxelas, o ministro das Finanças português, Joaquim Miranda Sarmento, mostrou profunda inquietação com esse cenário de falta de jet fuel, tendo dito que “se isso suceder, e tendo em conta que poderá suceder no verão, terá um impacto muito significativo na economia portuguesa”.Isto porque “mais de 90%, 96% ou 97% dos turistas que chegam a Portugal, e no caso as regiões autónomas até mesmo 100%, vêm de avião, e, portanto, se não houver jet fuel [querosene, combustível usado na aviação] a nível europeu, mesmo que haja nos aeroportos portugueses, os aviões não chegarão a Portugal e, portanto, os turistas não chegarão", advertiu o ministro.Na altura, Miranda Sarmento também disse que “contra todas as expectativas, apresentámos um excedente de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, e é esse resultado que nos permitiu dar a resposta que demos ao efeito das tempestades e que estamos a dar ao conflito no Irão”.Mesmo com estas medidas mais exigentes do ponto de vista financeiro, o ministro do governo PSD-CDS acredita que vai conseguir evitar um défice, pugnando por um saldo equilibrado (0%).A CE confia menos nisso, mas também não dramatiza. Prevê um pequeno défice de 0,1% este ano, inferior até aos 0,3% avançados em novembro, revelou agora a tutela do comissário da Economia, Valdis Dombrovskis.Mais 1,8 mil milhões de euros em receita fiscal e contributiva face ao previsto em outubroA folga que o ministro das Finanças diz ter para poder ajudar famílias e empresas no novo choque económico em curso é, de facto, assinalável. Veio tudo dos impostos e descontos.O chamado 'brilharete' orçamental de 2025, o excedente histórico na ordem dos 0,7% do PIB, só foi possível porque o governo cobrou na reta final do ano, entre outubro e dezembro, mais 1,8 mil milhões de euros em impostos e contribuições, o equivalente a um "desvio" positivo equivalente a 0,6% do PIB face ao que disse na proposta de Orçamento do Estado para o corrente ano (OE 2026, divulgado a 9 de outubro), mostra um novo estudo do Conselho das Finanças Públicas (CFP), divulgado também esta quinta-feira.Já a despesa estimada em outubro para o exercício de 2025 foi superior em 815 milhões de euros (0,3% do PIB) face ao que veio a verificar-se, uma "subestimação" que acabou por ser mais do que compensada pela coleta de receita explosiva.Segundo o Conselho a estimativa mais atualizada para o ano passado era a que estava "subjacente à proposta de OE 2026, apresentada pelo Governo em outubro de 2025" e face a essa altura "os desvios verificados na estimativa das contribuições sociais (+973 milhões de euros) e do IVA (+809 milhões de euros) foram significativos".Assim, estes dois agregados da receita pública (os dois maiores, aliás) "contribuíram de forma determinante para o desvio de aproximadamente 0,6% do PIB observado na receita fiscal e contributiva (+1.796 milhões de euros)", isto quando faltava apenas "um trimestre para o final do ano".