O panorama laboral na China parece estar a sofrer uma mutação profunda, pelo menos nas grandes cidades. Sob a pressão de um recorde de 12,7 milhões de licenciados previsto para 2026 e uma economia que procura novas vias de crescimento, o governo chinês lançou uma ofensiva sem precedentes para promover as “Empresas de uma Só Pessoa” (OPC - One-Person Company).O objetivo é claro: transformar jovens desempregados em exércitos de um homem só, equipados com “agentes de IA” capazes de gerir tudo, desde o marketing ao apoio ao cliente.Só que o entusiasmo - revelado por dados que apontam para a existência de mais de 500 mil empresas deste género já registadas em todo o país, com o distrito de Haidian, em Pequim, a somar sozinho mais de 2500 novos registos nos últimos meses - foi abruptamente temperado na terça-feira, 17 de março, por um alerta do Ministério da Segurança do Estado sobre os riscos de cibersegurança destas ferramentas.O Plano Nacional AI PlusA estratégia, integrada no Plano Nacional AI Plus, visa mitigar a crise do desemprego jovem através da automação radical. Em distritos tecnológicos como Haidian, em Pequim, e Longgang, em Shenzhen, o modelo de negócio já não passa por contratar equipas, mas por configurar agentes autónomos.O sistema no centro desta revolução é o OpenClaw (popularmente apelidado como xiaolongxia ou “lagosta” devido ao seu nome), uma estrutura de código aberto que permite a um único fundador operar processos complexos de forma contínua.Os incentivos regionais são agressivos. No distrito de Longgang, em Shenzhen, o governo local disponibilizou fundos de investimento que podem chegar aos 10 milhões de yuans (cerca de 1,3 milhões de euros) para projetos de OPC com recurso a IA que demonstrem viabilidade. Em Wuxi e Hefei, os apoios incluem habitação gratuita e subsídios diretos para “poder de computação”, permitindo que os empreendedores acedam a servidores potentes para correr os seus agentes sem custos iniciais.A “Lagosta” que assusta o EstadoO sucesso meteórico do OpenClaw trouxe consigo o escrutínio das autoridades. O Ministério da Segurança do Estado (MSS) publicou o Manual de Segurança para a Criação de Lagostas, um título metafórico que utiliza a alcunha popular do sistema para apresentar um documento técnico que expõe vulnerabilidades críticas na arquitetura destes agentes de IA.Segundo o MSS, a autonomia do OpenClaw - que exige permissões de leitura e escrita em sistemas centrais para poder executar tarefas de forma independente - representa uma “janela aberta” para atores externos. O governo alerta para o risco de execução remota de código e para a possibilidade de estes agentes, se mal configurados ou infiltrados, exportarem dados sensíveis para servidores fora da jurisdição chinesa. O alerta estende-se ao sector bancário e às agências estatais, onde o uso de agentes de IA não-autorizados foi proibido com efeito imediato.Um equilíbrio impossível?O paradoxo define o momento atual da tecnologia na China: por um lado, a necessidade existencial de inovação e criação de emprego, mas, por outro, a obsessão pela segurança de dados e o controlo centralizado.Analistas indicam que o modelo de OPC é a resposta de Pequim ao abrandamento do sector tecnológico tradicional. Ao incentivar os indivíduos a tornarem-se produtores autónomos, o Estado reduz o fardo das grandes empresas e descentraliza a economia. Só que a intervenção do MSS sugere que a liberdade aparentemente plena das OPC será rapidamente cercada por muros regulatórios.