A história da Greenmetrics.ai começa há pouco tempo, em 2022, nos corredores e laboratórios do Instituto Superior Técnico, onde a amizade e a curiosidade tecnológica de três colegas de faculdade se transformaram no embrião de uma das startups mais promissoras de Portugal. Tiago Marques, hoje com 34 anos e CEO da empresa, uniu-se a Manuel Bastos e Diogo Nunes (todos da mesma idade) para lidar com um problema que muitos consideram uma fatalidade inevitável: o impacto das alterações climáticas. Para eles, o fundamental é perceber como a tecnologia que hoje temos pode ajudar-nos a lidar com elas.Após um período de indefinição — em que chegaram a criar sensores de monitorização para as migrações do lince ibérico — os engenheiros acabaram por visar o fenómeno das cheias urbanas, que a cada inverno paralisa metrópoles e causa prejuízos de milhões de euros em infraestruturas e património privado.A solução que criaram é tão direta quanto inovadora do ponto de vista técnico. Através da instalação estratégica de sensores inteligentes em "pontos quentes" de risco — como sarjetas críticas, coletores de esgoto e ribeiras que atravessam zonas densamente povoadas —, a empresa mede a subida da água em tempo real, captando variações milimétricas que o olho humano ou os modelos estatísticos tradicionais ignoram até ser tarde demais. Como diz ao DN Tiago Marques: "Não existem omeletes sem ovos: se queremos ter Inteligência Artificial, temos de ter dados de qualidade. Nós instalamos as impressoras que geram esses dados diretamente na fonte." Estes dados permitem que a gestão de emergência deixe de ser um exercício de adivinhação para se tornar uma operação de precisão cirúrgica, focada na salvaguarda de pessoas e bens.. Foi o caos que submergiu Lisboa em dezembro de 2022 que mudou o paradigma da equipa, na altura mais focada em fazer monitorização do lince ibérico e de rega em campos de golfe. "Percebemos que a mesma arquitetura de dados que monitorizava a vida selvagem ou a humidade da relva podia, na verdade, salvar cidades inteiras", recorda o CEO. Afinal, o mesmo tipo de sensores podia, com adaptações, passar da conservação da natureza para a preservação de vidas e bens em ambiente urbano, onde a densidade populacional torna cada minuto de antecipação precioso.O email que mudou tudoA viragem para o setor público aconteceu com uma audácia pouco comum no mundo corporativo. Sem contactos diretos ou apresentações formais, Tiago Marques conta que decidiram enviar um email "a frio" para a Proteção Civil da Câmara Municipal de Lisboa. O que poderia ter sido ignorado como "mais uma proposta de venda" captou a atenção das autoridades. "De repente, estávamos numa sala com 10 pessoas da Proteção Civil, operacionais experientes, sedentos por soluções que os ajudassem a gerir a incerteza", conta o CEO. A equipa de operacionais percebeu que aqueles jovens engenheiros traziam algo que lhes faltava: olhos debaixo da terra, capazes de ver onde nem as câmaras de videovigilância chegam.O projeto piloto que se seguiu foi a prova de conceito definitiva, demonstrando que a tecnologia resistia à humidade extrema, aos detritos e ao isolamento das condutas subterrâneas. O sucesso em Lisboa abriu as portas para uma rede nacional que hoje conta com 11 municípios em Portugal, cobrindo pontos críticos de norte a sul do país. .Atualmente, a Greenmetrics.ai trabalha com Lisboa, Oeiras, Cascais, Porto, Maia, Guimarães, Loures, Odivelas, Tavira, Loulé e Torres Novas. Em cada uma destas cidades, a startup adapta os seus algoritmos à morfologia urbana local, criando um escudo de dados que protege desde as ribeiras do Algarve até às zonas históricas do Porto.Alerta de mais de uma hora e rumo às 24A eficácia do sistema foi posta à prova durante o recente "comboio de tempestades" (Kristin, Leonardo e Marta). Em Cascais, por exemplo, o alerta de subida crítica na Ribeira das Vinhas chegou aos centros operacionais "1h20 antes da inundação" do Largo de Camões. Este tempo foi a diferença entre lojistas com prejuízos totais e lojistas que conseguiram proteger os seus espaços e retirar bens valiosos.Mas a meta para o futuro é elevar a fasquia. "Daqui a um ano queremos estar a prever com 24 horas de antecedência", afirma Tiago com confiança. O segredo para este salto não está apenas no hardware, mas no "efeito bola de neve" da Inteligência Artificial e no conceito de feature engineering. "A nossa IA aprende mais com quantas mais cidades está. Aprende com o Porto e aplica o conhecimento em Leiria", diz o especialista.. Ao transformar dados de condutas e inclinações em informações agnósticas, o sistema consegue antecipar o comportamento da água numa cidade nova com base no que já aprendeu em dezenas de cenários semelhantes noutras geografias.Do Brasil ao "sonho americano"A ambição da Greenmetrics.ai é além-fronteiras. Com um valor de mercado que já atinge os 7 milhões de euros, a startup portuguesa já deu o salto internacional, estabelecendo uma operação robusta no sul do Brasil, onde as cheias repentinas e os deslizamentos de terras são desafios humanitários de escala massiva. Está a expandir-se para Espanha e Itália, mas o próximo grande passo estratégico aponta para o Norte: a entrada no mercado dos Estados Unidos.A possibilidade de levar a tecnologia portuguesa para cidades norte-americanas — muitas das quais enfrentam infraestruturas de drenagem envelhecidas e eventos climáticos cada vez mais extremos — é vista pela equipa como a validação final da sua "fábrica de dados". Tiago Marques acredita que a escalabilidade do sistema, que não requer obras pesadas mas apenas a instalação cirúrgica de sensores, é a chave para vencer num mercado tão competitivo como o dos EUA. A visão é clara: transformar uma inovação nascida no Técnico num padrão global de resiliência climática para smart cities.O modelo de negócio: prevenção como serviçoIsto porque, diferente das tradicionais obras de engenharia civil, que exigem investimentos de milhões e anos de execução, a Greenmetrics.ai opera num modelo de "SaaS" (Software as a Service), ou, neste caso, de monitorização como serviço. Para uma autarquia, o acesso a esta tecnologia não implica a compra de muito hardware complexo, mas sim o pagamento de um fee anual de subscrição. O investimento inicial, diz Tiago Marques, ronda “entre os 20 e os 100 mil euros”, dependendo da situação concreta do muncípio. O contrato de serviço, depois, garante não só o acesso à plataforma de alertas, mas toda a manutenção e calibração constante dos sensores.. Este modelo de negócio liberta os municípios da carga burocrática e técnica da gestão de infraestruturas tecnológicas. "Nós garantimos que o sistema funciona 365 dias por ano. Se um sensor for danificado por uma cheia ou precisar de calibração, a responsabilidade é nossa", explica Tiago Marques, que tem no momento “15 pessoas” a trabalhar na empresa.Mapa virtual de Lisboa com alertas é possívelUm dos aspetos mais poderosos desta tecnologia não é apenas a recolha de dados, mas a forma como as autarquias os podem visualizar. Tiago Marques afirma que a Greenmetrics.ai permite que os municípios integrem estas leituras em mapas virtuais dinâmicos — os chamados "Gémeos Digitais" (Digital Twins). Imagine-se um mapa 3D de Lisboa (ou outra cidade) onde, em tempo real, as autoridades conseguem ver o fluxo de água a correr pelos túneis do Plano Geral de Drenagem ou a pressão acumulada nas sarjetas da Baixa.Este mapa virtual funcionaria como um sistema de Raio-X da cidade, que poderia mesmo ser disponibilizado a toda a população. "As nossas plataformas permitem a visualização e monitorização dessas variáveis de forma intuitiva", explica Tiago.Uma "fábrica de dados" contra gigantesA startup portuguesa surge no mercado perante gigantes internacionais, como a Google e o seu Flood Hub, que ainda este mês apresentou uma solução baseada em IA que promete prever riscos de inundações repentinas com base em dados analisados via histórico de notícias dos media. Tiago Marques é assertivo na diferenciação: "A Google é míope para o detalhe de rua. Eles têm a visão macro, baseada em satélite e modelos hidrológicos de grandes bacias, etc., mas o satélite não vê o que se passa dentro de um coletor de esgoto ou debaixo de um viaduto." Esta limitação das big tech abre espaço para a especialização da startup portuguesa. A Google consegue prever que o Rio Tejo vai subir, mas a Greenmetrics consegue prever que a sarjeta da Rua X vai entupir e inundar o quarteirão vizinho em poucos minutos devido a uma obstrução local. E avisar as autoridades para a ir desobstruir. “Foi o que aconteceu no túnel da Avenida da República nas últimas chuvadas”, conta Tiago Marques.O sistema é desenhado com resiliência física inerente. Numa tempestade severa, as redes móveis e a eletricidade são as primeiras infraestruturas a colapsar. "O sensor não precisa de eletricidade da rede e comunica por rádio”, utilizando a tecnologia LoRaWAN, garante o CEO. Esta autonomia significa que, mesmo quando a cidade fica às escuras e os sistemas de comunicação convencionais falham, os dados continuam a fluir de forma autónoma para os centros de comando através de gateways com baterias de reserva.Tiago Marques espera que, com soluções como a que propõe, o tempo da gestão de danos meramente reativa acabou. Afinal, "o conceito de 'período de retorno de 100 anos' morreu. Agora as catástrofes acontecem de 2 em 2 anos", alerta, referindo-se à aceleração das alterações climáticas.Pela experiência de quem vê a tendência do nível da água subir praticamente de ano para ano, apenas uma mensagem lhe ocorre: "Não priorizar a prevenção e continuar a trabalhar na correção é uma sentença de morte para a resiliência de uma cidade e para o orçamento dos seus contribuintes."