O grupo de calçado Carité - que emprega mais de 600 trabalhadores nas suas cinco fábricas espalhadas por Felgueiras, Celorico de Basto e Castelo de Paiva - está a desenvolver uma bota militar com uma sola especial para o Exército, a pedido do Estado português, revelou, ao DN/DV, Manuela Rodrigues, responsável do departamento comercial. O protótipo só deverá estar concluído dentro de três meses, dada a especificidade do produto. Esta é uma das áreas onde o grupo Carité dá cartas, o calçado técnico de segurança e profissional. Como recordou Manuela Rodrigues, a Carité forneceu 100 mil pares de botas militares à NATO, em 2020, depois de vencer um concurso público.Segundo a responsável, a Carité já se apresentou a vários concursos para fornecimento de calçado militar, inclusive à Ucrânia. “Vamos sempre a jogo”, frisou. Mas nem sempre ganha, porque o “preço é determinante” na seleção do candidato vencedor. Não é por isso que deixa de se bater. Até porque permite “aprender outras técnicas”. Como realçou, a concepção de um produto militar tem em conta várias características, que vão desde o conforto, robustez e durabilidade, passando por matérias como o terreno e o clima do teatro de operações. Manuela Rodrigues sublinhou que são produtos de valor acrescentado e, como tal, exigentes ao nível do desenvolvimento. São inclusive produzidas várias amostras, que depois são testadas e, se necessário, aperfeiçoadas.O saber fazer do grupo nesta área do calçado técnico de segurança e profissional está comprovado pela liderança do programa FAIST - Fábrica Ágil, Inteligente, Sustentável e Tecnológica. Este projeto contempla investimentos de 50 milhões de euros, ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência, para desenvolver bens de equipamentos, produtos de calçado e componentes inovadores, linhas de produção, soluções de software e unidades piloto de experimentação e demonstração. O consórcio, encabeçado pela Carité e coordenado a nível técnico pelo Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, é constituído por 14 empresas de calçado e marroquinaria, nove unidades fabris de componentes, 16 tecnológicas e seis entidades associativas, de ciência e tecnologia. E um dos objetivos deste projeto de fábricas inteligentes e tecnológicas é responder ao desígnio de modernizar e reequipar as forças de defesa da Europa. Segundo Paulo Gonçalves, diretor executivo da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS) - uma das entidades parceiras do consórcio -, o calçado quer ter um papel no plano de defesa europeu. “Estamos a fazer vários investimentos na nossa indústria, exatamente para nos preparar para esse momento”, disse, ao DN/DV, à margem da Micam, a maior feira internacional de calçado, que decorreu esta semana em Milão, Itália.Como explicou Paulo Gonçalves, “temos uma vintena de empresas em Portugal, especializadas em calçado profissional, de segurança e militar, e essas empresas, quase todas estão no projeto FAIST, que é o grande projeto que temos de inovação tecnológica, com investimentos nas áreas da automação e robótica, para nos preparamos para tudo o que tem a ver com a defesa militar”. O diretor executivo da APICCAPS frisou ainda que o FAIST vai permitir à indústria portuguesa de calçado “responder de forma mais rápida e mais massificada ao mercado, ou seja, vamos conseguir trazer encomendas de maior dimensão”. É “uma reformulação grande da nossa indústria, porque nos permite chegar a outros segmentos, o que é uma mais-valia considerável para as nossas empresas”, sublinhou. Os investimentos previstos no projeto estarão concluídos até agosto.Para além da Carité, participam no consórcio empresas como a AMF, também especializada em calçado técnico de segurança (ambas estão a efectuar investimentos, ao abrigo do FAIST, em linhas robotizadas de produção, para atacar este segmentos de mercado), ou a Procalçado (expert de longa data em componentes e detentora da marca Lemon Jelly), e entidades como o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência da Faculdade de Engenharia do Porto e a Universidade de Aveiro. O FAIST é também visto como uma alavanca para o setor do calçado ganhar espaço noutros nichos, num momento em que o sapato de couro, que representa 82% das exportações desta indústria, está a sentir dificuldades de crescimento.No ano passado, o setor exportou 68 milhões de pares de sapatos, no valor de 1718 milhões de euros (mais 0,8% do que em 2024). O calçado de couro registou um aumento de apenas 0,2% nas vendas ao exterior, mas o de plástico apresentou uma subida de 25% e o produzido à base de têxteis um incremento de quase 7%, revelam os dados fornecidos pela APICCAPS. São números que ilustram as novas tendências do mercado. Os sneakers ganharam uma posição relevante nos pés da população mundial e os consumidores desviaram o consumo para as viagens. Ainda assim, o setor nacional esteve melhor do que os seus dois principais concorrentes: Itália viu as exportações caírem 1% em 2025 e Espanha assistiu a uma redução de 3%. Qualidade, inovação e moda são os trunfos da indústria portuguesa que continuam a surpreender os mercados. E foram esses atributos que levaram à Micam.Golfe, elegância, modaLuís Onofre, conceituado designer de sapatos de luxo e presidente da APICCAPS, também prepara uma surpresa para o seu nicho de mercado. Conhecido pelas suas coleções para mulher - onde pontificam os saltos vertiginosos -, abraçou o desafio de idealizar uma linha de sapatos de golfe. Como contou, é uma coleção intemporal, com sete modelos, produzida no respeito pelos métodos tradicionais e com peles selecionadas, que tanto pode ser usada num ambiente de clubhouse como no campo (os spikes, ou espigões em português, são aplicáveis). O lançamento ainda não está agendado, mas os fãs do golfe podem esperar um sapato de inspiração vintage. Luís Onofre espera conquistar os praticantes de Portugal, Espanha, Irlanda e Coreia do Sul. O par de sapatos será comercializado numa caixa, que pode ser personalizada, com um tee (suporte para elevar a bola). Os preços acompanham a exclusividade do produto: entre 500 a 800 euros, dependendo do modelo.O designer português encontrava-se na Micam na qualidade de presidente da APICCAPS, tendo feito um périplo pelos stands das 39 empresas nacionais presentes no certame, acompanhando o secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira. Uma das paragens foi o espaço da Maray, marca portuguesa que, pela primeira vez, exibiu internacionalmente os seus sapatos de mulher. Há seis anos, Joana Trigueiros decidiu abandonar uma carreira construída em multinacionais e comprou, por 35 mil euros, a Maray. Foi uma aposta arrojada, mas que está a dar frutos. Os sapatos da Maray distinguem-se pelas linhas elegantes, sem saltos altos. Como sublinhou a proprietária, “são sapatos rasos, em pele, para mulheres dinâmicas, que apreciam o conforto e a elegância”.O calçado da Maray é comercializado atualmente nas duas lojas próprias (Alvalade e Campo de Ourique, em Lisboa), que valem 50% da faturação, no canal online (peso de 30% nas vendas) e em espaços multimarca (os remanescentes 20%), Joana Trigueiros quer agora abrir uma loja em Cascais e internacionalizar a marca. No ano passado, registou um volume de negócios de 500 mil euros e estipulou o objetivo de atingir os 3,5 milhões no prazo de cinco anos, com as exportações a valerem 70% deste valor. A presença na Micam foi o primeiro passo para conquistar o mundo. Para já, Joana Trigueiros sente uma boa receptividade de mercados como Itália, França, Alemanha e Polónia. O sapato da Maray está concebido para a classe média alta, exibindo um preço, em média, entre os 150 a 200 euros.Moda é o atributo que se destaca nas coleções da marca portuguesa Lemon Jelly, que mais uma vez deixou o seu cheirinho a limão na Micam. Nesta edição, este mundo amarelo voltou a surpreender. A coleção para o próximo inverno explora a sua origem. Como salientou Catarina Véstia, diretora comercial, a Lemon Jelly é uma marca associada à chuva e, por isso, apostou em completar o conceito com o lançamento de uma gabardine, chapéu (com e sem pelo), caneleiras para botas e uma capa de chuva para os cães. “Somos um produto funcional, mas também de moda”, justificou. A Lemon Jelly faturou quatro milhões de euros no ano passado, um crescimento de 1% face a 2024. As exportações valeram 90% das vendas, com França e Alemanha a dominarem as compras. Catarina Véstia está um pouco pessimista com o futuro. Nas suas estimativas, 2026 será um ano de estagnação. “O mundo está em suspenso”. As tarifas aduaneiras impostas por Donald Trump, a que se soma a instabilidade política global, “têm mais impacto nos negócios do que se fala”, sublinhou. Na sua opinião, “a moda é uma das áreas onde se sente mais a retração” quando o ambiente está turvado pela pergunta: “Que guerra vai começar?”. E, também por isso, a marca começou a apostar no retalho em Portugal. “O nosso produto é muito sensorial e o online não permite ao cliente tocar, cheirar e ver toda a coleção”, disse. Para já, abriu um espaço próprio no outlet de Vila do Conde, em novembro passado, e investiu em lojas pop-up no Corte Inglés de Lisboa e Gaia e num grande armazém na Áustria. Segundo Catarina Véstia, haverá mais novidades este verão. Até porque “o mundo amarelo com cheiro de limão é para o ano inteiro”.A jornalista viajou a Milão a convite da APICCAPS .Indústria de calçado "presa" aos EUA apesar das novas tarifas de Trump.Calçado está em Milão para contrariar quebra de 12% nas vendas para os EUA