Bolha de IA abana: "Software-mageddon" apaga 800 mil milhões de dólares do mercado
Ilustração: RSF / Gemini AI

Bolha de IA abana: "Software-mageddon" apaga 800 mil milhões de dólares do mercado

Queda violenta nas bolsas de Nova Iorque em dois dias marca o fim do "entusiasmo cego" e obriga investidores a uma seleção rigorosa entre as gigantes tecnológicas dos EUA.
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O setor tecnológico nos Estados Unidos está a atravessar o que os analistas já batizaram de "Software-mageddon". Nas últimas 48 horas, uma vaga de vendas massivas varreu as bolsas de Wall Street, resultando na perda de mais de 800 mil milhões de dólares (cerca de 745 mil milhões de euros) em valor de mercado apenas no índice de Software e Serviços do S&P 500.

Segundo dados da Reuters e da Bitget, este evento marca a correção mais severa no setor de software norte-americano desde o colapso das "dot-com" em 2002, levantando questões urgentes sobre a sustentabilidade da atual "bolha de IA".

O fim da paciência em Wall Street

O gatilho para esta capitulação em Nova Iorque é a transição da fase de promessa para a fase de prova. Segundo os relatórios do Nasdaq publicados a 4 de fevereiro, os investidores começaram a punir severamente as empresas que, apesar de investirem milhares de milhões em Inteligência Artificial, ainda não conseguem demonstrar um retorno claro.

O caso da Alphabet (Google) serviu de sinal de alerta: embora a empresa tenha apresentado receitas sólidas, o mercado reagiu negativamente ao aumento astronómico do seu investimento em infraestrutura (Capex), que poderá atingir os 185 mil milhões de dólares (172 mil milhões de euros) em 2026. Como reportou a InvestmentNews, esta "fatura da IA" está a gerar receios de que os custos de computação possam devorar as margens de lucro antes que a monetização real aconteça.

A "morte do SaaS"

O "Software-mageddon" está a ser particularmente cruel com o modelo tradicional de Software as a Service (SaaS) que dominou Silicon Valley na última década. A ServiceNow viu as suas ações despencarem 11% num único dia, acumulando uma perda de quase 50% no último ano. Segundo uma análise da Salesforce Ben, o mercado teme que a automação gerada pela IA torne obsoletos os fluxos de trabalho que empresas como a ServiceNow e a Salesforce (que também atingiu mínimos de 52 semanas em Nova Iorque) ajudaram a criar.

A ameaça da disrupção direta tornou-se palpável com o caso da Thomson Reuters. A empresa sofreu uma queda recorde após a Anthropic, uma das principais startups de IA dos EUA, anunciar um novo plug-in do seu modelo Claude focado em realizar automaticamente tarefas jurídicas complexas, precisamente o negócio principal daquela gigante de informação. Este evento ilustra o maior medo dos investidores: os modelos de IA mais avançados conseguirem substituir por completo ferramentas de software especializadas e caras.

Microsoft: gigante na "corda bamba"

No centro desta tempestade está também a Microsoft. Considerada a "cara" da revolução da IA devido à sua parceria com a OpenAI, a gigante de Redmond tornou-se a pior performance entre as chamadas "Sete Magníficas" neste início de 2026. Conforme aponta o analista Dan Ives, da Wedbush Securities, a Microsoft enfrenta agora o "fosso da execução": o mercado exige ver lucros que justifiquem os gastos colossais.

A empresa tem canalizado valores que ultrapassam os 100 mil milhões de dólares (cerca de 93 mil milhões de euros) para centros de dados e chips. No entanto, relatórios da Bloomberg indicam que a adoção do Microsoft 365 Copilot pelas empresas está a ser mais lenta do que o previsto, com clientes a questionarem o custo de 30 dólares por utilizador. Esta discrepância entre o investimento e a receita real é um dos motores principais do ceticismo em Wall Street.

Nem todos perdem: a exceção Palantir

No meio do caos, surgem sinais de que a bolha pode estar apenas a selecionar os verdadeiros utilitários no mercado dos EUA. A Palantir Technologies destacou-se com uma subida de 7% após os seus resultados de 3 de fevereiro. Dan Ives, da Wedbush Securities, referiu em nota aos clientes que esta empresa está a conseguir provar que a sua plataforma AIP já está a ser adotada em escala industrial e governamental, com um crescimento de 73% na sua base de clientes nos Estados Unidos.

Contexto macroeconómico adverso

A crise tecnológica em Wall Street é amplificada por tensões geopolíticas que indicam uma fuga dos ativos de risco. Isto refletiu-se inclusive nas criptomoedas, com a Bitcoin a cair para o patamar dos 71.000 dólares (cerca de 66.000 euros) após liquidações em cadeia.

Simultaneamente, o investidor lendário Jeremy Grantham, citado pela Firstlinks, reiterou o seu aviso de que a IA nos EUA apresenta todos os contornos de uma "bolha clássica", onde as avaliações esticadas deixam pouco espaço para qualquer erro de execução por parte da Reserva Federal (Fed) ou das próprias empresas.

Este "Software-mageddon" de 2026 poderá ser recordado como o momento em que a Inteligência Artificial deixa de ser uma "história de crescimento" para se tornar uma métrica de sobrevivência para as corporações norte-americanas.

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