Navio-cisterna no depósito de combustível de Aral, nas refinarias de petróleo Ruhr Oel, da BP, em Gelsenkirchen, Alemanha. 17 de março de 2026.
Navio-cisterna no depósito de combustível de Aral, nas refinarias de petróleo Ruhr Oel, da BP, em Gelsenkirchen, Alemanha. 17 de março de 2026.FOTO: CHRISTOPHER NEUNDORF

Analistas preveem média de 68 dólares no crude este ano e OE ainda pode estar dentro dos limites de segurança

Analistas da Morningstar DBRS ainda não veem o mercado do petróleo a descarrilar daqui a um ano. Mas esta terça, foi mais um dia para esquecer. Brent chegou quase aos 105 dólares.
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O preço médio do barril de petróleo em 2026, já contando com a atual inflamação de custos provocada pela guerra do Irão, deve terminar este ano em 68 dólares, isto é, cerca de três dólares (mais 4%) acima face à hipótese de base em que assenta o Orçamento do Estado deste ano (OE 2026), indicam analistas da agência de ratings Morningstar DBRS. No entanto, esta eventualidade é muito ampla e incerta.

De acordo com Andrew O'Conor, economista sénior da DBRS especializado em energia e recursos naturais considera que, "dado o leque vasto de potenciais repercussões do conflito, permanece incerto se o aumento dos preços persistirá a médio prazo e se haverá um impacto estrutural no fornecimento de petróleo e gás do Golfo Pérsico".

Mas há sinais de que, dentro de um ano, o preço será mais elevado, mas não muito mais. Está abaixo dos 80 dólares, reparam os analistas da DBRS.

Assim, os economistas decidiram rever em alta o custo médio do Brent para 68 dólares este ano (média estimada para o período de 1 de janeiro a 31 de dezembro).

Falando na incerteza e agressividade desta crise, esta terça-feira foi disso um bom exemplo.

Os preços voltaram a subir e muito, o contrato de referência para o gás natural (o holandês TTF) subiu mais de 60% face ao valor registado na véspera do ataque dos EUA e de Israel ao Irão. Em termos médios, o encarecimento do gás já subiu mais de 52%.

No caso do petróleo, esta terça foi muito parecida. Durante a sessão, contrato de Brent para entrega em maio chegou quase aos 105 dólares, o que se traduz num aumento superior a 46% face ao dia que antecedeu esta nova guerra.

Olhando para o Orçamento do Estado aprovado para este ano, a derrapagem já é expressiva e ainda só vamos em dois meses e meio desde o início do ano.

De acordo com cálculos do DN, a média do barril de crude de 1 de janeiro até esta terça-feira já ia em quase 73 dólares, mais 11% face aos 65,4 dólares assumidos pelo ministro das Finanças Joaquim Miranda Sarmento.

Em termos diários, o salto é muito mais agressivo. Na véspera do ataque ao Irão, o barril de petróleo valia 70,75 dólares; atualmente, já vai em 103,5 dólares, o que dá a referida valorização de cerca de 46% até à data.

Assumindo os valores médios até agora, os que permitem uma comparação melhor face ao que esperava o governo quando fez o OE 2026, a referida subida de 11% ainda não representa um perigo existencial para a economia portuguesa, nem para as contas públicas.

Para já. O caso mudará de figura se a guerra se prolongar no tempo, o que é um cenário cada vez mais plausível.

Dentro do cenário de sensibilidade das Finanças

Segundo o Ministério das Finanças, um aumento de 20% do preço do petróleo, em 2026, ou seja, cerca de metade do que se verifica até agora, "face ao projetado no cenário base, resultaria numa redução de 0,1 pontos percentuais (p.p.) no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, em virtude de um menor crescimento do consumo (devido à queda do rendimento disponível) e do investimento (em resultado do aumento dos custos de produção), parcialmente mitigado pela redução no crescimento das importações".

"Neste cenário, o deflator do consumo privado aumentaria em 0,3 p.p." e "considerando o peso dos bens energéticos derivados do petróleo nas importações, este choque originaria uma deterioração da balança comercial e, consequentemente, da capacidade de financiamento da economia face ao exterior em cerca de 0,2 p.p. do PIB", "a taxa de desemprego manter-se-ia sensivelmente inalterada".

"Nos principais agregados de finanças públicas, este choque [20%] teria um impacto residual", estimam as Finanças. O que se compreende: um choque petrolífero tende a arrasar com a economia e o poder de compra, mas é um manancial para a receita fiscal por via do IVA e do ISP, por exemplo.

O mesmo economista da DBRS explica que o preço futuro atual do barril de petróleo para daqui a um ano (março de 2027) está relativamente controlado, apesar do conflito.

"O contrato futuro a 12 meses (março de 2027) do crude West Texas Intermediate (WTI), a referência para os EUA, é de cerca de 72 dólares por barril, o que sugere que o mercado pressente, para já, pouca alteração material nos fundamentais num período de médio a longo prazo".

O mesmo se passa no Brent (a referência para a Europa). O barril para entrega daqui a um ano subiu bastante, é certo, mas apenas de 68 dólares no dia 27 de fevereiro para 79 dólares esta terça.

Navio-cisterna no depósito de combustível de Aral, nas refinarias de petróleo Ruhr Oel, da BP, em Gelsenkirchen, Alemanha. 17 de março de 2026.
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