"Industrial, comerciante e empresário." Morreu Pedro Queiroz Pereira

Dono da Navigator e da Secil, morreu aos 69 anos. Era um dos homens mais ricos do país e um dos exemplos da tradição familiar portuguesa que saiu do país com as nacionalizações do 25 de Abril, para voltar e triunfar

Pedro Queiroz Pereira foi um dos maiores industriais portugueses. Era agora o dono da Navigator, a antiga Portucel, e da cimenteira Secil, com uma fortuna avaliada em 779 milhões de euros, o que fazia dele o sétimo homem mais rico do país. A sua história e da família reflete também a mudança que Portugal viveu em 1974 e que levou as famílias que controlavam as grandes companhias nacionais a sair do país. E a regressar mais tarde. Morreu aos 69 anos.

Foi sobretudo com a produção de papel e de cimento que se tornou num dos maiores industriais e empregadores do país, mas os seus interesses económicos eram mais vastos. Viveu no Brasil com a família, após o 25 de Abril e as nacionalizações. Manteve residência no país sul-americano até 1987, e no regresso a Portugal aproveitou as privatizações para ganhar controlo na Portucel e na Secil, através da Semapa, a holding principal do grupo. A Cimpor foi um objetivo que não conseguiu concretizar - travou mesmo uma batalha, que perdeu, com o governo de António Guterres e com o então ministro Pina Moura, a propósito da venda da participação do Estado. A Teixeira Duarte, com apoio do BCP, acabou por ficar com a empresa, mas Queiroz Pereira ainda recorreu a tribunais. A Cimpor acabou mais tarde por ficar sob controlo de grupos brasileiros.

É descrito como sendo determinado, firme e frontal, apesar de ser um homem discreto em termos mediáticos. Quando no final da década de 1980 voltou de vez a Portugal e assumiu o universo empresarial da família, já depois da morte do pai, mostrou que estava disposto a levar mais longe os negócios.

Acabou por alargar os interesses empresariais além das grandes companhias Navigator, Secil e Semapa. No setor hoteleiro tinha participações importantes, como é o caso do Hotel Ritz - cuja construção foi concedida ao seu pai por Salazar -, tal como nas áreas de energia e ambiente.

O Grupo Espírito Santo foi um dos seus principais interesses. Foi acionista e chegou a integrar o conselho de administração do BES, naquela que foi uma ligação de oito décadas entre o grupo e a sua família. Mas acabou em rutura total com os Espírito Santo e com Ricardo Salgado, a quem acusou de traição. Queiroz Pereira foi um dos homens que denunciou as irregularidades no grupo financeiro, numa guerra em que também enfrentou a irmã Maude e que acabou por ganhar.

No ano passado era descrito pelo Jornal de Negócios como um permanente investidor: "Costuma dizer aos mais próximos que com o dinheiro que ganha podia comprar um palácio no sul de França. Mas Pedro Queiroz Pereira não gosta de palácios nem do sul de França. Prefere investir e inaugurar novas fábricas. E é o que tem feito, quase a uma média de uma por ano."

A paixão dos carros

Muitos portugueses podem reconhecê-lo pelo nome de PêQuêPê ou simplesmente PQP - foi assim que ficou conhecido no automobilismo, uma das suas grandes paixões. Participou em dezenas de provas, no Brasil e em Portugal, sobretudo nos campeonatos de velocidade em circuitos. Como passou parte da década de 1980 no Brasil criou amizade com Ayrton Senna, o mítico piloto de Fórmula 1.

Nasceu a 5 de março de 1949, em Lisboa, filho de Manuel e Maud Queiroz Pereira. Recebeu educação no Colégio Militar e mais tarde frequentou o Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa. Não era uma pessoa que gostasse de expor a vida privada nem procurava os holofotes. Foi casado com Maria Rita Mendes de Almeida, que morreu, em novembro de 2014, aos 63 anos. Da união nasceram três filhas, Filipa, Mafalda e Lua, as herdeiras do grupo empresarial e todas já com participação ativa na gestão das empresas.

Como dono da Navigator, não percebia a guerra feita em Portugal ao eucalipto e chegou a mesmo a dizer, em 2016, que era difícil investir no país. Este ano, citado pelo Jornal de Negócios, explicava: "Eu pago impostos e ajudo a enriquecer o país. Nos últimos dez anos investi dois mil milhões de euros em Portugal."

(Texto atualizado às 11.43)

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