Coronavírus tira até duas décimas ao PIB dos principais clientes de Portugal

Em causa estão destinos das exportações nacionais que representam 60% das vendas ao exterior. Zona euro pode estagnar e Alemanha entrar em recessão.

O novo vírus da pneumonia asiática pode retirar até duas décimas ao crescimento económico previsto para este ano nos principais destinos das exportações portuguesas. De acordo com um estudo da Standard & Poor"s divulgado esta quarta-feira, o impacto do coronavírus na economia da zona euro é de quase 0,16 pontos percentuais (p.p.), sendo a Alemanha o país com maior risco de sofrer perturbações.

A Espanha, a Alemanha, a França, a Itália e o Reino Unido, são os quatro principais clientes das exportações portuguesas de bens, representando cerca de 60% do total das vendas ao exterior.

"A redução no crescimento do PIB chinês para apenas 5%, abaixo dos 5,7% esperados antes do surto, provavelmente vai retirar entre 0,1 e 0,2 pontos percentuais do crescimento da zona do euro", indica a agência de notação financeira, explicando que o efeito decorre "principalmente por meio de exportações mais baixas de bens e serviços, além dos investimentos empresariais. O crescimento da zona do euro no primeiro trimestre pode chegar a zero, em vez de 0,2% esperado até agora", conclui a S&P.

O relatório sublinha que todos os indicadores sugerem que esta crise deverá ser ligeira sem causar grandes perturbações na economia europeia, sendo que o impacto previsto acabará por se concentrar no primeiro trimestre do ano. Contudo, o setor do turismo poderá levar mais algum tempo a superar as quebras.

"Se o coronavírus realmente atingir o pico em março, como atualmente se supõe, é provável que o choque para a economia europeia seja sentido principalmente no primeiro trimestre do ano, embora as despesas com o turismo possam levar mais tempo a recuperar do que a exportação de mercadorias", indica a agência de rating.

Melhor preparada do que em 2020

A S&P faz a análise tendo por base o cenário do surto de 2020-2003 da síndrome respiratória aguda grave (SARS, na designação inglesa). A agência de notação lembra que nos primeiros três meses de 2003 o PIB da zona euro contraiu 0,4%.

Mas desta vez a S&P identifica três diferenças: a taxa de mortalidade do novo coronavírus é apenas um terço da SARS. Em segundo lugar, a dependência da economia europeia face à China é maior (cerca de três vezes). Por fim, a procura interna é agora mais "resiliente", em especial a despesa das famílias, lembrando que em 2003 a economia estava a sair de uma recessão.

Alemanha mais próxima da recessão

Num outro estudo publicado quarta-feira pelo Deutsche Bank, a maior economia da Europa pode entrar em recessão devido ao novo vírus. O banco germânico indica que "a conjuntura alemã está cada vez mais fraca" e que os dados da produção industrial, da entrada de encomendas e das vendas a retalho em dezembro foram muito débeis e apontam para uma queda ligeira do produto interno bruto (PIB) no quarto trimestre.

"Além disso, o coronavírus é um risco para a recuperação global", porque reduz a esperança de uma recuperação da economia chinesa, acrescenta o economista-chefe, Stefan Schneider. À semelhança da S&P, o Deutsche prevê que o surto pode tirar ao PIB alemão 0,2 pontos percentuais no primeiro trimestre, pelo que parece possível uma recessão técnica no semestre de inverno, que inclui o quarto trimestre do ano passado e o primeiro deste ano.

Paulo Ribeiro Pinto é jornalista do Dinheiro Vivo

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