87% das vagas abertas no retalho continuam por preencher

Grande comércio garante que conseguiu recrutar para o período estival, com campanhas antecipadas mas admite dificuldades em preencher todas as vagas nas lojas situadas nas zonas do litoral, em especial, no Algarve.

Com o verão e o descanso da maior parte dos portugueses em curso, as cadeias de retalho tiveram de reforçar as suas equipas, seja por férias dos próprios colaboradores, ou para fazer face ao acréscimo de atividade nesta altura do ano. Mas a necessidade de contratação viu-se, este ano, confrontada com o atual contexto de escassez de mão-de-obra.

A prova da dificuldade nas contrações é atestada por um estudo da Manpower, empresa de recrutamento, segundo o qual 87% das vagas criadas pelo setor do retalho não são preenchidas. "Este valor constitui o segundo mais elevado a nível setorial no território nacional", declara Vítor Antunes, managing director da Manpower, ao DN/Dinheiro Vivo.

A empresa confirma ter registado um aumento de 70% de pedidos para as mais variadas funções, face aos meses anteriores. Apesar dos dados do último Talent Shortage Survey do ManpowerGroup, Vítor Antunes revela que as empresas suas clientes recrutaram cerca de 300 pessoas por mês, contra as 170 dos meses anteriores ao verão.

A dificuldade em contratar reforços de verão não é nova. No entanto, e como explica Sónia Silva, business manager na área de Field Marketing da Multipessoal, apesar dos desafios ao nível do recrutamento serem transversais aos mais diversos setores, é mais difícil encontrar candidatos com o perfil que os clientes da empresa de recrutamento pretendem, para o período de verão.

Sem adiantar números, a responsável esclarece que a Multipessoal recebeu muitas solicitações por parte dos seus clientes. Apesar dos pedidos de colaboradores serem para a época estival, Sónia Silva não deixa de apontar que "estes contratos são muitas vezes alargados para novembro e dezembro, quando se verifica um novo pico de trabalho, com a Black Friday e a época natalícia". E recorda os "inúmeros casos em que os colaboradores começam por integrar projetos de curta duração e acabam a ser convidados a integrar os quadros das empresas de retalho".

"Recrutar para esta altura do ano nunca foi fácil, quer pelo volume de pessoas a contratar num curto espaço de tempo para um período limitado, quer pela dificuldade em captar profissionais com experiência prévia", reforça, por seu turno, Filipa Nobre, consultora da Michael Page Interim Management.

Face aos acontecimentos dos últimos anos, a empresa de recursos humanos, deparou-se com alguma resistência por parte de retalhistas na contratação de novos elementos. Agora, veem-se obrigados a acelerar e a reforçar o processo de recrutamento. Apesar de não dispor de números referentes às contratações, Filipa Nobre confirmou que, muitas vezes, um contrato temporário revela-se um projeto duradouro. "Cada vez mais, as empresas vão acompanhando o desempenho dos colaboradores e, sempre que possível, apostam na sua continuidade".

A criação de empregos estáveis é uma prioridade do Lidl que, desde janeiro, já contratou mais de 500 pessoas. "Algumas delas para reforçar o nosso crescimento, sendo o aumento mais significativo a partir de abril, em preparação para época de verão", explicou o departamento comunicação corporativa da empresa que, em consonância com as empresas de recrutamento, assume uma maior dificuldade no recrutamento. Como refere o Lidl, nas 500 entradas há contratos sem termo, e outras para preencher as necessidades relativas ao pico sazonal de vendas no verão. "No entanto, para as pessoas que se diferenciarem através do seu desempenho, existe a possibilidade de integração na empresa", sublinha.

Também o Pingo Doce aposta nos contratos sem termo e nos pontuais. À semelhança de anos anteriores, a empresa "reforça as suas equipas durante a época de verão, principalmente em zonas balneares ou com uma taxa de emigração elevada", disse fonte da marca. Em todo o país, incluindo ilhas, a insígnia contratou aproximadamente 500 colaboradores para reforço de equipas de loja e de armazém. Apesar da conjuntura no mercado de emprego, o Pingo Doce declarou não ter registado "dificuldades assinaláveis" para encontrar quem quisesse trabalhar nas suas lojas. E justifica o sucedido com o planeamento antecipado da época e das necessidades de recrutamento.

Por seu turno, a Auchan também garante que tem vindo a conseguir contratar para as várias alturas do ano em que existe necessidade, embora muitas vezes, os processos sejam longos. "Só este ano, nesta altura, iniciámos um processo de recrutamento, para part-time e full-time, com 60 vagas nas cidades de Faro, Lagoa, Olhão e Portimão", revela a empresa, frisando que, no caso do Algarve, o recrutamento é mais difícil, pelo contexto vivido nesta altura do ano na região.

"O recrutamento e seleção no setor do retalho alimentar envolve processos constantes e desafiantes, com particular incidência em zonas mais influenciadas pela sazonalidade", afirma, por seu turno, a Sonae MC, dona do Continente. Sem especificar números de contratações, a insígnia refere que,"atualmente, as necessidades prioritárias de recrutamento incidem sobre as zonas do litoral, margem sul e Algarve, para várias funções da operação em loja".

É também no litoral que o grupo Os Mosqueteiros, que detém a insígnia Intermarché, deteta a maior necessidade de reforçar as equipas no verão. Sem avançar números, a marca declara ser possível que exista "uma maior necessidade de reforço das equipas, de forma a garantir a continuação de um serviço de excelência".

O El Corte Inglés diz que todos os anos faz contratações nesta altura. "A principal época de reforço de equipas começa agora e decorre até ao Natal. Para colmatar necessidades em várias áreas, já contratámos mais de 200 pessoas este ano", revela a empresa, que adianta poder existir a hipótese destas contratações passarem a definitivas. "Muitos dos nossos atuais chefes iniciaram o percurso como reforço de equipas", assinala a marca.

O fluxo de turismo no Algarve levou a que a Aldi recrutasse mais de 70 colaboradores para incorporar as suas 17 lojas naquela região, diz Vera Martinho, managing director Human Resources da insígnia. À semelhança das outras marcas, recrutar na zona algarvia voltou a ser um desafio. Mas, devido ao plano de expansão nacional, a Aldi está a aumentar as equipas com a maior antecedência possível, de forma a poder proporcionar-lhes formação. "Sempre que possível, pretendemos oferecer uma oportunidade de carreira a longo prazo aos nossos colaboradores", afirma Vera Martinho.

Ao contrário de todas as outras marcas, a única que não efetua contratações temporárias é a Mercadona. "Todos os trabalhadores da Mercadona entram com contrato de efetivo desde o primeiro dia de trabalho. Estamos num projeto de expansão e, por consequência, temos estado com muitos processos de contratação em curso e, atualmente, muitas vagas de emprego para várias zonas do país", diz a empresa.

Mónica Costa é jornalista do Dinheiro Vivo

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