Sem futebol, casas de apostas enfrentam perdas superiores a 70%

Os responsáveis de três empresas a operar em Portugal admitem que o mercado de apostas desportivas está a cair a pique. E há quem preveja, no mês de abril, uma faturação próxima do zero. Permissão de apostas nos jogos eletrónicos poderia ser uma ajuda. Estado português também perde...

O mercado de apostas desportivas online é um dos que mais tem sofrido com a paragem das competições desportivas em quase todo o mundo. Quase porque ainda é possível apostar em jogos de futebol nos campeonatos da Bielorrússia e da Nicarágua, competições a que as casas de apostas a operar em Portugal tiveram de recorrer para manter a atividade enquanto dura a pandemia do covid-19.

A conclusão é óbvia. Sem as principais competições, há menos gente a apostar e o rombo financeiro é de grande monta. Para se ter uma ideia daquilo que representa este autêntico apagão nas competições desportivas, basta referir que nos três primeiros meses de 2019 os portugueses apostaram um total de 131,3 milhões de euros nas dez casas de apostas a operar legalmente no país.

Na prática, de acordo com esses dados disponibilizados pelo Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SIRJ), foram apostados em média 1,46 milhões de euros em cada dia desses três meses, o que em teoria representaria um volume de apostas acima dos 146 mil euros em cada uma das operadoras de apostas desportivas online todos os dias.

Miguel Domingues, diretor de comunicação da Betclic, revela ao DN que no mês de março foi registado "um decréscimo nas apostas desportivas na ordem dos 70% a 75%", uma vez que no início do mês ainda houve algumas competições ativas. Assim sendo, as previsões para o mês de abril serão ainda mais catastróficas. "Achamos que o impacto deste mês deverá ser entre os 90% e os 100%", confirmou o responsável da Betclic. Ou seja, a confirmar-se este cenário, a faturação com as apostas desportivas será próxima de... zero.

Sem apresentar dados concretos, Pedro Miguel Garcia, responsável de marketing da bet.pt, admite que "o impacto é significativo", tendo em conta "a redução da atividade nas apostas desportivas", destacando neste aspeto a Liga portuguesa, que diz despertar "muito interesse" junto dos seus clientes.

Sem querer fazer muitos comentários em relação à situação da Betano, Rui Trombinhas, responsável pela comunicação da empresa, limitou-se a dizer ao DN que esta é uma conjuntura à qual estão "a tentar reagir", embora considere que "ainda é cedo para avaliar o impacto".

E a verdade é que, de acordo com os dados do SIRJ, não são apenas as empresas de apostas online que estão a perder dinheiro, pois o Estado português também enfrenta perdas significativas na cobrança do imposto especial de jogo online, que no primeiro trimestre do ano passado foi qualquer coisa como 14,5 milhões de euros.

Ligas da Bielorrússia e Nicarágua sem impacto

A pandemia obrigou as casas de apostas a operar em Portugal a solicitar ao SRIJ a abertura do mercado português aos combates de UFC e aos campeonatos de futebol da Bielorrússia e da Nicarágua, que continuam em atividade apesar das medidas de confinamento para evitar a disseminação do coronavírus.

Este tipo de competições de menor expressão passou a ser procurado, embora esse facto represente "um décimo dos valores pré-pandemia", conforme fez questão de sublinhar Miguel Domingues. Isto apesar de em alguns fóruns de apostadores na internet ser comum ver alguns utilizadores a dar informações sobre estas ligas completamente desconhecidas dos portugueses.

Pedro Miguel Garcia admite que estas competições têm uma "aderência maior do que o habitual" na bet.pt, mas revela que ainda assim "é residual" tendo em conta aquilo que era o volume de apostas registado nas outras ligas antes do início da pandemia.

Apostas em eSports não autorizadas pelo regulador

As casas de apostas da Roménia e da Grécia, por exemplo, procuraram colmatar a ausência de competições desportivas com o recurso aos eSports e aos desportos virtuais. Uma possibilidade que o regulador do mercado português não permite e que provavelmente iria, de acordo com Miguel Domingues, "mitigar parcialmente a perda de receitas nas apostas desportivas".

Pedro Miguel Garcia assume que a legalização destes "produtos" seria algo "necessário, pois têm adeptos que normalmente encontram esta oferta em operadores ilegais". Ou seja, a bet.pt entende que a regularização dos jogos eletrónicos e virtuais "seria uma forma de combater o jogo ilegal", retirando-lhe os apostadores.

"O SRIJ entende que é necessária uma alteração legislativa para abrir essa porta dos jogos eletrónicos, embora noutros países o entendimento seja diferente. Os eSports são um desporto federado, com competições oficiais e, como tal, seria benéfico para o setor que o regulador partilhasse dessa interpretação", explica o diretor de comunicação da Betclic.

Apostadores não se mudaram para o casino

Além das apostas desportivas, estas casas de apostas online têm também o casino que, de modo geral, acaba por manter os mesmos clientes.

Se analisarmos os dados do primeiro trimestre de 2019 divulgados pelo SIRJ, chegamos à conclusão de que os jogadores investiram qualquer coisa como 608,7 milhões de euros em casinos online nas dez empresas que operavam, na altura, em Portugal. Na prática, cada uma delas movimentava por dia, em média, 676 mil euros.

A Betano admite que o casino online é "uma parte importante do negócio" e que está "a funcionar em pleno", embora não revele se se verifica um aumento de apostadores.

A ideia de que a pandemia não afetou o fluxo habitual de clientes de casino online é partilhada pela Betclic. "Não sentimos a transferência dos apostadores para o casino, nem um aumento significativo do número de utilizadores de casino", explica Miguel Domingues, uma ideia partilhada por Pedro Miguel Garcia, referindo que "a redução nas apostas desportivas, de forma nenhuma é compensada pela atividade nos jogos de casino".

O responsável da Betclic acrescenta ainda que as campanhas publicitárias que têm em marcha "são as que já estavam planeadas" previamente, até porque a empresa é "sensível à conjuntura atual das famílias", razão pela qual a operadora decidiu "não aumentar o investimento em novas campanhas de casino".

Otimismo e situação em avaliação permanente

A Betano prefere não abordar a forma como pretendem responder à ausência de apostadores, e consequentemente à diminuição drástica das receitas.

Já a Betclic aguarda pelo regresso à normalidade, embora admita que "se a conjuntura atual se mantiver durante o segundo semestre, a situação será reavaliada", pelo que a empresa admite "ajustar a estrutura de custos".

Apesar do "enorme impacto" que se verifica nas apostas desportivas, a bet.pt acredita "no retomar gradual das competições", mas de qualquer forma diz estar "fora de equação" medidas que impliquem a suspensão da atividade da empresa.

"Não há manuais que nos ensinem a lidar com este tipo de conjuntura. Como tal, estamos serenamente a avaliar a situação semana após semana e faremos ajustes sempre que acharmos necessários", sublinhou Miguel Domingues, da Betclic.

A bet.pt adianta ainda, através do seu responsável de marketing, que tem aproveitado este momento em que, na sua maioria, as pessoas estão confinadas às suas casas, para promover "campanhas de jogo responsável" por forma a "educar" os jogadores, transmitindo-lhes que "o jogo deve ser encarado como uma forma de diversão, nunca uma solução para o isolamento".

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