De Queluz ao Atlético de Madrid. Dolores, a portuguesa que entrou para a história do futebol feminino

Começou a jogar na rua onde os pais tinham uma mercearia, em Queluz. Agora é uma futebolista profissional, que joga para ser campeã na liga espanhola e na seleção.

Desde que se lembra de ser gente que anda sempre com uma bola. Fosse a jogar na rua do bairro onde os pais tinham uma mercearia em Queluz, na creche ou na escola, estava sempre à espera do recreio para jogar com os rapazes. Por isso, Dolores Silva só podia ser... jogadora de futebol. Custou, mas "com a ajuda" do pai, Luís Silva, cumpriu o sonho. "Sempre que ele tinha um bocadinho de tempo jogava comigo. O meu pai sempre me impulsionou a seguir esta paixão", confessou ao DN a jogadora do Atlético Madrid que, em março, ajudou este emblema a bater o recorde de assistência num jogo de futebol feminino entre clubes (60 739 espectadores).

Como a maior parte dos jogadores, sejam homens ou mulheres, Dolores soube bem cedo o que queria ser na vida. Aos 8/9 anos, o pai levou-a ao Real, em Massamá. E foi lá, no clube que lançou Nani e que ficava perto de casa, que ela também começou a jogar. "Adorei a ideia de jogar a sério, sem ser na rua com os amigos e a feijões. Aos 10 anos fui fazer as captações e fiquei", contou a jogadora, lembrando que jogou como federada numa equipa de rapazes até aos 12 anos, a idade-limite para equipas mistas: "Era a única rapariga e tinha um balneário enorme só para mim. Era um bocado estranho, sentia-me muito sozinha, só me juntava a eles no campo, mas fiquei com boas memórias. Sentia que eles gostavam de mim, estava integrada e nunca me senti excluída."

Há, no entanto, um momento que a marcou pela negativa, mas não foi por culpa dos colegas. "Recordo-me de um episódio desagradável quando fomos jogar com o CAC [Pontinha]. Eu era defesa e o jogo estava a correr-me bem. Estava farta de cortar bolas a um miúdo e a mãe dele, com uma agressividade que para mim era novidade, começou a dizer "parte a boca ao gajo que ele já não corta mais nenhuma". Aquilo mexeu comigo a ponto de ainda hoje me lembrar disso, assim como da resposta do meu pai, que aguentou ouvir aquilo e no final foi ter com ela e só lhe disse: "Olhe que não é um menino, é uma menina, e não devia incentivar o seu filho a ser violento.""

De resto, os rapazes sempre a receberam bem, muitos até admiravam a astúcia que tinha para cortar lances e roubar bolas aos adversários. Já as amigas preferiam bonecas ou fazer parte da claque a participar no jogo. Dolores foi chamada de maria-rapaz "mais do que uma vez", mas aprendeu a ouvi-lo "como se fosse um elogio". Desde que isso significasse estar a jogar à bola, por ela estava tudo bem.

"Sinto-me uma privilegiada por poder fazer o que gosto, ser apoiada para seguir esta paixão, cumprir o sonho de ser jogadora de futebol e assinar o primeiro contrato profissional. Ir para fora do meu país aos 20 anos foi a decisão certa e tornou-se uma decisão fácil porque era algo que eu ambicionava muito."

Aos 13 anos mudou-se para a equipa que dominava o futebol feminino em Portugal - o 1.º Dezembro. E demorou pouco a dar um passo de gigante até à equipa principal. Aos 15 já jogava ao mais alto nível.

A profissionalização foi o passo seguinte e aconteceu naturalmente. Como a mesma normalidade com que o pai a incentivava a seguir o sonho, Dolores tomou a opção de emigrar para a Alemanha. Trocou os trocos que recebia para os transportes por um ordenado no FCR Duisburg: "Sinto-me uma privilegiada por poder fazer o que gosto, ser apoiada para seguir esta paixão, cumprir o sonho de ser jogadora de futebol e assinar o primeiro contrato profissional. Ir para fora do meu país aos 20 anos foi a decisão certa e tornou-se uma decisão fácil porque era algo que eu ambicionava muito."

A realidade alemã foi um choque, mas no bom sentido. Na liga de futebol, uma das mais fortes a nível mundial (onde também jogou no Jena), encontrou um profissionalismo que Portugal tardava a acolher. A paixão dos adeptos, os estádios cheios, um contrato. Um oásis que abandonou em 2017, quando surgiu um convite para ser profissional em Portugal ao serviço do Sp. Braga. E apenas um ano depois de regressar ao país voltou a sair, agora para defender as cores das campeãs espanholas.

O Atlético e o recorde mundial

E se era feliz na altura em que jogava por um sumo e uma sandes, porque "estava a fazer o que gostava", também o é agora, que lhe pagam para jogar, pois é sinal de que conseguiu "ser profissional de futebol" e "jogar num clube com dimensão mundial". "Quando surgiu a oportunidade de ir para o Atlético fiquei muito feliz", confessou ao DN a internacional portuguesa que, além de lutar pelo tricampeonato, vai jogar a 11 de maio, frente à Real Sociedad, a final da Taça da Rainha.

"Queria ter desfrutado muito mais de tudo aquilo dentro de campo, mas mesmo assim senti-me muito feliz, como se fosse uma criança a viver um sonho. Quando fui chamada só pensei em entrar e desfrutar ao máximo o momento."

A experiência "está a ser fantástica" e há dias entrou mesmo para a história do futebol feminino ao jogar a partida com maior assistência. Foi a 17 de março, quando o Atlético recebeu o Barcelona no Wanda Metropolitano com 60 739 mil adeptos nas bancadas. Um recorde mundial. Nunca antes um jogo entre clubes tinha levado tanta gente ao estádio. "Foi sensacional, um sonho, nunca irei esquecer esse momento. É difícil encontrar palavras para descrever o que senti. Nesse jogo acabámos por não ter o resultado que queríamos [perderam por 2-0] e se tivéssemos ganho tínhamos a liga quase garantida. Mas, independentemente disso, a atmosfera, o ambiente, tudo à volta do jogo foi fabuloso do primeiro ao último minuto. Foi único e espetacular. Sinceramente, nunca pensei que fosse jogar para 60 mil pessoas", confessou Dolores.

Começou no banco e teve mais tempo para apreciar tudo isso, embora o que queria mesmo era estar em campo do primeiro ao último minuto do jogo: "Queria ter desfrutado muito mais de tudo aquilo dentro de campo, mas mesmo assim senti-me muito feliz, como se fosse uma criança a viver um sonho. Quando fui chamada só pensei em entrar e desfrutar ao máximo o momento."

Depois a partida acabou e elas foram notícia no mundo inteiro. "Estávamos tristes por perder e só no dia a seguir percebemos o impacto do jogo a nível mundial. Fomos notícia em todo o mundo e sentimos que foi muito gratificante. Quem sabe se não serve de exemplo para outros países perceberem que é possível chegar a números do futebol masculino e que as mulheres também merecem ter esse apoio e reconhecimento das pessoas", frisa a portuguesa de 27 anos.

Em Espanha, o futebol feminino está a crescer a olhos vistos. No mês passado os clubes da I Liga acordaram o fim do amadorismo. Na próxima época todas as equipas terão de ser 100% profissionais. Uma medida que Dolores aplaude: "A profissionalização é um passo muito importante, para que os clubes possam proporcionar bons contratos às jogadoras. A Espanha tem feito um esforço notável nesse sentido e tem-se notado essa evolução nos últimos anos, que se reflete no aumento brutal do número de adeptos nos estádios. Nesta época temos atingido números impensáveis para o futebol feminino. Isso é sinal de que as coisas estão a ser bem feitas e acredito que é um caminho que Portugal vai seguir."

Atualmente, o mundo já olha com mais interesse e respeito para o futebol feminino. Dolores gosta de pensar que a sua geração "ajudou a desbravar caminho para o cenário otimista" de hoje. "Fomos nós e outras antes de nós a impulsionar o futebol feminino para ter hoje melhores condições, formação e contratos profissionais. Já podemos sonhar com títulos na seleção, por exemplo", defendeu a internacional portuguesa, confessando que "só em sonhos se atrevia a ver Portugal campeão de alguma coisa". Agora, a seleção está no top 30 do ranking da FIFA e, na opinião de Dolores, "pode ganhar a qualquer equipa mundial". Por isso, deixa o desafio: "Porque não começar a lançar alicerces para repetir o Euro 2016 no futebol feminino?"

Poucas mas boas. Há meia dúzia de internacionais a jogar no estrangeiro

Dolores Silva não é a única internacional portuguesa a jogar no estrangeiro, numa equipa de topo e a lutar por títulos de campeã. Há mais, a começar pela capitã Cláudia Neto, que joga no Wolfsburgo, na liga alemã, uma das mais fortes do mundo. A centrocampista, de 30 anos, a quem chamam de "Ronalda" por usar a camisola 7 e ser capitã da seleção, luta pelo título alemão.

Cláudia, que começou no UAC Lagos, é uma das três jogadoras da seleção a jogar na Bundesliga feminina. Ana Leite começou a jogar na Alemanha no Bocholt, atuando pelo FCR Disburgo e pelo SG Essen-Schönebeck, até se estrear pelo Bayer Leverkusen. Andreia Norton joga no SC Sand Frauen. Para trás ficou o Furadouro, o Sp. Braga e o Barcelona. Foi ela que a 25 de outubro de 2016 fez o golo que apurou a seleção portuguesa para um Europeu de futebol pela primeira vez.

Já Mónica Mendes joga em Itália no AC Milan, depois de passar pelo Brescia e pelo FC Neunkirch. A defesa começou no Beira Mar de Almada e está na luta pelo título italiano contra a Juventus. E em Espanha, além de Dolores Silva, joga Jéssica Silva, que começou no Clube Albergaria Mazel e teve passagens pela Suécia e pelo Sp. Braga antes de se mudar para o Levante.

E só não há mais porque Portugal, que chegou a ter 15 atletas a jogar no estrangeiro, deu há três anos um passo de gigante rumo à profissionalização e muitas delas regressaram ao país para jogar no Sporting e no Sp. Braga, principalmente. Na época passada o Benfica também entrou em cena e fez regressar mais atletas.

Portugal tem agora I e II Ligas de futebol feminino, mas ainda está longe dos números espanhóis. Por cá, o recorde de assistência em jogos de futebol feminino registou-se a 30 de março, quando 15 204 pessoas foram ao Restelo ver o primeiro dérbi feminino entre Benfica e Sporting. O jogo solidário por Moçambique superou assim a final da Taça de Portugal de 2017, quando o Sporting e o Sp. Braga levaram ao Jamor 12 213 espectadores.

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