De Carlos do Carmo a Luís Represas: a divisão do Belenenses vista pelos adeptos

A criação de uma equipa que vai começar a competir nos distritais marca o divórcio com o futebol da I Liga. Há revolta mas também esperança no futuro

Na época 2018/19, o nome do Belenenses poderá deixar de fazer parte do calendário da I Liga. As camisolas azuis com a Cruz de Cristo ao peito poderão ter de desaparecer dos relvados do principal palco do futebol nacional. E o Estádio do Restelo, esse, é já certo não estará no roteiro dos adeptos que, fim de semana após fim de semana, viajam atrás das suas equipas por esse Portugal fora.

O Restelo irá agora receber jogos da I Divisão Distrital da Associação de Futebol de Lisboa. Estranho? Pois é, mas acaba por ser a consequência do diferendo entre o clube e a SAD, que levou a atual direção presidida por Patrick Morais de Carvalho a registar uma nova equipa na Federação Portuguesa de Futebol com o objetivo de começar no fundo do poço do futebol nacional, com o objetivo de em cinco anos chegar à I Liga.

É nessa I Liga que se vai manter aquela que os adeptos do Belenenses chamam de equipa da SAD, que os dirigentes do clube pretendem, através de ações interpostas em tribunal, que mude de nome e deixe de utilizar os símbolos do clube, que em 2019 festeja o seu centenário. Será pois uma espécie de refundação no que ao futebol diz respeito.

Juanico foi o herói do último troféu conquistado pelo Belenenses no futebol profissional, ao marcar o golo que valeu a vitória diante do Benfica na final da Taça de Portugal de 1989, e está inconsolável com o que está a acontecer no seu clube. "Sinto uma tristeza enorme e sinto revolta, mas acho que a decisão de recomeçar nos distritais é uma boa medida", atirou o antigo médio, que representou os azuis entre 1987 e 1991, admitindo que o caminho a seguir é inevitável porque "a SAD não manda no Belenenses".

O desencanto é comum aos adeptos contactados pelo DN. Um dos mais mediáticos é o fadista Carlos do Carmo que "há quatro ou cinco anos" que não vai ao Restelo. "Já não me revejo neste futebol. A última vez que lá fui foi terrível, pois os adeptos chamavam nomes a toda a gente", assumiu, deixando uma visão muito própria daquilo que é o clube atualmente: "Esta direção teve a gentileza de me convidar para me oferecer o emblema de ouro e no meu discurso não disse palavras muito simpáticas, mas transmiti o meu sentimento. Foi nessa altura que percebi que o Belenenses está todo estilhaçado."

Manter as raízes do clube

Outro músico que não esconde a sua revolta por este momento difícil é Pedro Barroso, autor de um dos hinos do Belenenses. "Tudo isto, custa-me muito", desabafou ao DN em relação aos problemas entre o clube e a SAD, mas encontra na I Divisão Distrital um sinal positivo. "Não se deve desistir das raízes e, como tal, não me custa ver o Belenenses ir para os campeonatos distritais, afinal já estivemos na II Divisão e não houve drama. É uma pena, reconheço, mas até será engraçado ir subindo... olhe, se calhar até passo a ir mais vezes ao Restelo", frisou.

Aliás, Pedro Barroso tem sido bastante interventivo e publicou mesmo um texto no Facebook no qual deixa bem expresso o sentimento pelo clube e os seus valores históricos, ao mesmo tempo em que manifesta o desagrado contra o papel das SAD no futebol.

O ator João Didelet foi jogador de râguebi no clube do Restelo e está estupefacto com tudo o que está a acontecer. "O Belenenses é que tem a perder com todo este imbróglio entre clube e SAD", começou por dizer, admitindo que está "preocupado", sobretudo porque "não se conseguem consensos e se tomam decisões extremas", com é a de ir jogar para os distritais. "Espero que tenham essa capacidade de começar do zero porque é um clube com grande historial. Talvez seja uma solução, com a aposta na formação, mas será um percurso bizarro", assumiu.

O cantor e compositor Luís Represas prefere ficar à margem de todas as polémicas, pois é do Belenenses porque sempre acreditou "na formação desportiva que é um dos ideais do clube". "Só quero e desejo que tomem as melhores decisões para que continue a ser um grande emblema nacional", atirou, lembrando que "o Belenenses é um clube riquíssimo e com provas dadas em todas as atividades", razão pela qual "tendo em conta a história do clube, não se pode reduzir tudo ao futebol".

Ir ou não ao Jamor? Eis a questão...

O projeto da direção de chegar à I Liga em apenas cinco anos é para Juanico muito ambicioso porque "teria de subir todas as épocas", algo que diz ser "muito difícil" porque "no futebol há sempre imprevistos". E, nesse sentido, olha para o atual momento com a nostalgia do passado. "O Belenenses podia ser como no meu tempo. Éramos o quarto grande de Portugal e acredito que pode voltar a ser porque há muita gente que gosta do clube", afirmou.

O antigo médio está mesmo convencido que os sócios e adeptos do clube estejam já divorciados da chamada equipa da SAD que vai disputar a I Liga e vai disputar os seus jogos em casa no Jamor: "Não acredito que vão ver os jogos no Estádio Nacional, pois tenho amigos que já não punham os pés no Restelo por causa do presidente da SAD, Rui Pedro Soares, que se apropriou de um clube que não é o dele."

Opinião diferente tem Pedro Barroso que, apesar de todos os problemas, acredita que "alguns adeptos irão ao Jamor". "Eu continuarei a seguir os jogos da I Liga enquanto for Belenenses", revelou, pois ainda acredita que "haja bom senso na SAD para negociar com o clube" e, no fundo, não ser necessário que os azuis sejam obrigados a jogar com uma equipa nos distritais.

Carlos do Carmo lamenta que há uns anos o Belenenses tenha perdido "uma oportunidade histórica" de se ter tornado "o clube das pessoas entre Lisboa e Carcavelos" para que tivesse "um suporte para se rejuvenescer". "Agora, o Belenenses vai envelhecendo, com as pessoas agarradas a um amor pelo clube, como o meu pai tinha. Aliás, eu sou do Belenenses por causa dele e pago as quotas porque ele me pediu antes de morrer", revelou, que deixou uma pergunta: "Os homens não se entendem no clube, o que está em causa para que isto aconteça? Está à vista dos clientes..."

"Destruíram o clima de ternura e pureza de um clube histórico e eclético que a SAD tornou um gerador de empregos e de oportunistas", sublinhou Pedro Barroso, que deixou outra questão: "Onde estão os milhões prometidos por um investidor dragão de ouro?" Naquilo que foi uma clara referência a Rui Pedro Soares, presidente da SAD.

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