Os treinadores de ouro que formam campeões

Paulo Reis (Auriol Dongmo), José Uva (Patrícia Mamona) e Jorge Pichardo (Pedro Pichardo) são os técnicos dos mais recentes campeões da Europa. Gostam de viver na sombra e dar o palco aos atletas, mas lamentam serem tantas vezes esquecidos e garantem que é difícil viver só do treino.

Eles são os treinadores de ouro. Remetidos à sombra dos êxitos dos seus atletas só não gostam é de ser esquecidos demais. São eles que os incentivam, chateiam, não deixam desistir e ajudam a alcançar medalhas. José Uva é treinador de Patrícia Mamona (triplo salto) há 20 anos, Paulo Reis treina Auriol Dongmo (lançamento do peso) desde que ela chegou a Portugal em 2017 e Jorge Pichardo orienta o filho Pedro Pablo Pichardo (triplo salto) desde que ele desertou e pediu asilo a Portugal em 2017. Em comum o ouro dos seus pupilos nos Europeus de Atletismo de Pista Coberta, em Torun, na semana passada.

Foi a melhor participação de sempre do atletismo nacional numa grande competição e colocou os atletas num pedestal onde os técnicos já os metem há muito. "Os treinadores gostam de passar despercebidos porque o seu trabalho expressa-se na pista com o trabalho os atletas, mas às vezes também são esquecidos de mais", segundo José Uva, que gosta desse papel secundário num filme onde os "atletas têm de ser os protagonistas". Não se trata de excesso de humildade, é encarar o que é mais importante como o mais importante.

Ele identifica-se como "um pai de família" que adora viajar e descobrir sítios novos com a mulher e os dois filhos. Apesar de ser treinador há mais de 20 anos manteve-se como professor de educação física. Tem horário reduzido, uma regalia dada pelo Estado por treinar uma atleta de alta competição. Algo que ele considera fundamental. "É na escola que vamos descobrir novas Patrícias. Onde está o ouro tem de estar o garimpeiro. Esperar por diamantes delapidados é contribuir para a escassez de medalhas", afirma o treinador, lembrando que uma atleta como a Patrícia "aparece uma vez na vida de um treinador" e o treinador tem de ter capacidade para dar continuidade às necessidades do atleta".

Foi José que descobriu Patrícia na escola há 20 anos. A ligação de duas décadas permite-lhes falar sem palavras. Uma espécie de discurso codificado, que permite ao técnico saber se o salto é ou não bom: "Cada passo que ela dá está treinado. Ela tem uma corrida de 20 passos antes de saltar e muitas vezes ao segundo ou ao terceiro já sei se aquilo vai correr bem ou não."

Como ela já acumulou muitos treinos, quilómetros e saltos, agora estão mais centrados nos treinos de qualidade. Fazem seis sessões por semana, três ou quatro horas por dia juntos, mas o treino de Patrícia dura o dia inteiro. "Eu fico livre, mas a tarde dela é um complemento do treino. Depois de almoça ela tem de dormir uma sesta de meia horinha, tem de ir à fisioterapia fazer recuperação, fazer gelo nas pernas e no corpo. Se ela não recuperar bem e descansar no dia a seguir aparece cansada no treino e o desempenho é afetado", explicou o técnico, revelando que Patrícia é uma "atleta muito comprometida com o treino" e "muito fácil de treinar" porque é "super profissional".

O triplo salto é uma disciplina onde a experiência é muito importante. Por isso há vários atletas que só chegam às medalhas depois dos 28 ou 30 anos. "É uma disciplina difícil de treinar, é muito exigente, aquela onde os atletas a sofrem lesões com mais frequência e por isso é muito importante ter maturidade para ouvir o corpo e conhecer os seus limites, e saber quando pode ou não puxar por ele. A Patrícia faz isso muito bem e é hoje aos 32 anos muito melhor atleta do que era aos 22 ou 25 anos. A experiência tem potenciado as suas qualidades físicas".

E desengane-se que acha que esta dupla se move a medalhas: "Não dependemos de medalhas para nos motivarmos. É claro que dá uma motivação extra, mas a base é o querer fazer sempre mais e mais. Desde que ela tinha 12 anos que o foco é saltar todos os anos mais do que no ano anterior. Se isso acontecer o processo de treino está validado e as medalhas vão surgindo."

Com uma relação assente no respeito e competência o técnico garante que nunca se zangaram... Quer dizer houve alguns amuos de parte a parte. Ele é uma pessoa de cumprir horários e detesta atrasos. Ela é de se atrasar. "Já foi um problema, agora temos uma espécie de pacto silencioso. Ela nunca chega a horas, mas também nunca chega mais de 5 minutos depois. Ela fez um esforço para chegar a horas e eu um esforço para não me chatear. Isto é como um casamento, não pode ser só uma pessoa a ceder", brincou o técnico.

Eles são a principal companhia um do outro. Além de treinos há viagens, competições... "A minha mulher costuma dizer que a vida dela depende da vida da Mamona. Se temos um campeonato temos de adaptar as férias para ir só depois, mas como ela está ligada ao ramo, é professora de educação física, apoia-me muito. Sei que sou um sortudo. Há muitos casamentos que não sobrevivem. Tenho muitos colegas que se separaram por causa de não conseguirem conciliar a vida profissional com a afetiva."

Mamona teve covid-19 e esteve em risco de não ir ao Europeu

A pandemia colocou desafios novos na relação treinador-atleta. Ambos confinados, Patrícia treinava em casa, o namorado dela filmava e José acompanhava os treinos por videochamada. Ele admite que "foi complicado", mas tiveram um grande apoio do Sporting, que ajudou a montar um miniginásio em casa da atleta. Quando foi concedida medida de exceção aos atletas de alta competição ela voltou aos treinos na pista do Jamor. O problema foi depois com o cancelamento das provas e com o covid-19 da atleta (algo que só se soube depois de ela ganhar o ouro).

Patrícia já tinha mínimos para os europeus, mas era preciso confirmá-los a partir de 1 de janeiro de 2021, daí ela precisar competir em pelo menos uma prova. "Ela continuava a testar inconclusivo, não conseguíamos viajar de avião e tivemos de cancelar uma série de meetings. Na véspera do meeting de Madrid, a última prova antes dos europeus, decidimos ir de carro e ela como se esperava confirmou a ida ao Europeus", contou o técnico.

Tudo isto depois de dias em que nem conseguia sair da cama com dores musculares. José informou-se sobre a doença e a melhor forma de voltar aos treinos. Começaram com treinos levezinhos e em progressão durante 15 dias e à medida que ela reagiu a ganhou confiança e os treinos foram-se intensificando quase até à normalidade. E assim foi o último mês antes dela se sagrar campeã da Europa e bater o recorde nacional que já era seu (17,34m).

Auriol pediu para ser treinada por Paulo Reis e ele ajudou-a a descobrir o clique da evolução

Para Paulo Reis, treinar a Auriol Dongmo "é um desafio e uma satisfação". Afinal, todos os treinadores na alta competição querem treinar os melhores atletas e Auriol "é uma atleta excecional", com "uma boa atitude perante o treino" e "correta enquanto pessoa".

Paulo Reis gosta de viver a vida. Casaco e com uma filha, adora viajar e experimentar novidades gastronómicas. Formado em educação física, deixou de exercer quando a Federação Portuguesa de Atletismo o requisitou para técnico nacional de lançamentos há dez anos. Divertido, bem disposto, organizado e trabalhador, persistente e até chato, reconhece que não é um treinador fácil: "Eu quando estou com um atleta que tem potencial para chegar longe eu consigo ser uma melga a tentar que ele ou ela perceba isso. Ajusto o grau de exigência ao atleta, mas gosto que as coisas sejam mais ou menos à minha maneira, de assumir os êxitos e a responsabilidade pelos fracassos."

Quando decidiu vir para Portugal, País de Nossa Senhora de Fátima, para representar o Sporting, em 2017, a atleta do lançamento do peso pediu especificamente para trabalhar com Paulo Reis. Ainda lhe colocaram outras hipóteses, mas ela queria ser treinada por ele e prontificou-se a ir para Leiria, onde ele está radicado. "Tentei perceber o que ela valia como atleta. O nível de treino que ela tinha e se eu tinha condições para acrescentar alguma coisa à carreira dela. Mandou-me alguns vídeos e conversamos durante algumas semanas e percebi que podíamos evoluir muito", contou o técnico ao DN, lembrando que não tinha treinado lançadores do peso a nível internacional.

A luso-camaronesa chegou com um recorde pessoal e africano de 17.92 metros. Foi progredindo e já chegou aos 19.65m. Estamos a falar de um avanço de 1, 83 metros. "Essa é a diferença entre nem sequer participar e participar para ganhar, é notável", elogiou o o técnico, que gosta de acompanhar os atletas fora da esfera do treino para entender se o contexto familiar que pode influenciar o desempenho: "A Auriol é muito reservada, mas comigo criou uma boa ligação. Desde que chegou a Leiria ultrapassamos juntos uma série de dificuldades e isso fez com a ligação entre nós ficasse mais forte."

Depois de milhares de lançamentos sob orientação de Paulo, "basta o peso sair-lhe das mãos" para o treinador saber se o ensaio é bom ou não. Em Torun lançou sempre acima dos 19 metros e venceu com a marca de 19, 34m . O ar chateado da atleta a cada lançamento teve reflexo no treinador: "Ela sabia que podia fazer melhor e eu sabia que ela podia fazer muito melhor. Nos ensaios de aquecimento chegou afazer 19.80m, mas nos campeonatos os títulos é que importam. Os recordes podem ser batidos, os títulos são eternos."

Apesar da pandemia o ano de 2020 foi excecional para a dupla do peso. Das 17 provas em que participaram venceram 16 e com a melhor marca mundial do ano. Por isso a participação em Torun era uma espécie de crónica de uma medalha anunciada. O segredo esteve na mudança e na adaptação a essa mesma mudança. "Basicamente ela só esteve em casa confinada durante três semanas, assim que foi permitido os atletas treinarem ao ar livre voltamos com toda a calma do mundo, com tempo para corrigir a técnica e dar atenção aos detalhes. Foi nessa altura que se deu o clique na técnica que já esperávamos há algum tempo e ela passou de 18.37 para 19,54 metros. Foi um período excelente para a evolução dela. A pandemia ajudou mais do que prejudicou", explicou.

Que clique foi esse? " O lançamento do peso é uma disciplina exigente e técnica e a técnica de Auriol era muito limitada, ela não conseguia usar de forma eficaz os membros inferiores. A determinada altura ela acertou na fórmula e começou a fazer lançamentos acima das 19 metros e conseguiu executá-lo a uma ritmo muito elevado", explicou o técnico nacional.

Foi por não poder treinar com o pai que Pedro Pablo Pichardo decidiu desertar de Cuba e procurar refúgio em Portugal e no Benfica. A medalha de ouro no triplo salto mostrou que a dupla funciona. Contactado pelo DN, o treinador cubano optou por não falar.

Não dá para viver só do treino

Portugal ainda olha para o trabalho deles como hóbi e não como profissão. Segundo eles, "regra geral o treinador de atletismo é muito mal pago". Há treinadores a trabalhar de graça e outros que só recebem para as despesas de deslocação e mesmo aqueles que treinam alta competição e trabalham nos grandes clubes não conseguem viver só disso.

Até há bem pouco tempo os treinadores não recebiam nada pelos triunfos dos atletas. Só se o atleta quisesse dar alguma coisa... Agora as medalhas internacionais valem um prémio monetário atribuído pelo Estado. A verba é distribuída pelo atleta, o treinador, o clube e o clube onde o atleta se formou. O treinador recebe metade da verba que o atleta ganha, conforme a tabela pré-definida, por competição e cor da medalha.

E apenas de há dois anos para cá as competições internacionais começaram a distinguir os técnicos. Desta vez José Uva, Paulo Reis e Jorge Pichardo recebeu uma medalha para eternizar o sucesso com algo palpável. Não é de ouro, é apenas dourada. Aliás nem as dos atletas são de ouro, são apenas douradas...

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