Paris volta a receber o pó de tijolo mais famoso do ténis mundial, mas Roland-Garros 2026 abre sob um sinal diferente. Pela primeira vez em muitos anos, a conversa já não regressa inevitavelmente a Rafael Nadal, Roger Federer ou Novak Djokovic. O torneio francês vive uma nova ordem, marcada pela autoridade de Jannik Sinner, uma vez que Carlos Alcaraz estará ausente por lesão, numa era em que o domínio continua a existir, mas com protagonistas diferentes. Pelo meio, Portugal chega a Paris com uma presença rara: vários homens no radar competitivo, uma referência consolidada em Nuno Borges e duas mulheres portuguesas a alimentar a ideia de que o ténis nacional começa lentamente a ocupar mais espaço no palco internacional.A grande questão para os próximos dias parece simples: alguém conseguirá quebrar a lógica instalada por Sinner? O italiano chega à terra batida parisiense como referência máxima do circuito, sustentado por uma consistência quase clínica. A sensação dominante é a de que Sinner vive num patamar competitivo acima da concorrência.É precisamente essa leitura que faz Alex Corretja, antigo finalista de Roland-Garros e uma das vozes mais respeitadas do ténis europeu. Em entrevista ao Diário de Notícias, o espanhol acredita que Sinner criou um nível de exigência raramente visto no circuito atual. “Sinner colocou a fasquia muito alta para todos e vai ser muito difícil segui-lo, vai ser muito difícil aguentar o ritmo dele e vai ser muito difícil encontrar alguém que seja capaz de o ganhar em cinco sets”, afirma, sublinhando que a consistência do italiano “é muito alta e muito elevada”. Mas Corretja identifica também um espaço competitivo novo no circuito: já não existe a inevitabilidade absoluta da geração anterior e há zonas do quadro onde outros jogadores podem sonhar. “Nos últimos anos estavam Sinner e Alcaraz e parecia que chegavam sempre os dois. Agora há um espaço que alguém tem de preencher”, observa o antigo tenista espanhol, admitindo que alguns jogadores podem encontrar aqui uma oportunidade inesperada para chegar longe em Paris. Nesse contexto de transição, Portugal procura consolidar presença. O nome mais forte continua a ser o de Nuno Borges. O maiato chega a Roland-Garros como principal esperança nacional e já sem o estatuto de surpresa. Instalado entre os jogadores capazes de competir com regularidade ao mais alto nível, Borges entra no torneio com um perfil particularmente adaptado à exigência física da terra batida: resistência, disciplina tática e uma crescente capacidade de construir pontos longos sem perder agressividade.Para Corretja, o português representa precisamente esse tipo de jogador difícil de desmontar. “É um jogador duro, muito difícil de ganhar, disciplinado, que se adapta bem às superfícies”, analisa. O espanhol considera ainda que Borges evoluiu no plano ofensivo: “Antes talvez dependesse um pouco mais dos adversários; agora é sólido, mas também tem uma melhor direita, pode variar com o serviço e tem um revés muito estável.”Realisticamente, uma presença na terceira ronda ou mesmo nos oitavos de final não seria uma surpresa para Borges, dependendo inevitavelmente do sorteio. A partir daí, o salto torna-se exponencialmente mais difícil, sobretudo perante uma geração liderada por Sinner e Alcaraz, mas também por jogadores fisicamente cada vez mais completos..Atrás do número um português, Roland-Garros representa sobretudo uma oportunidade de crescimento. Jaime Faria, Henrique Rocha e Frederico Silva chegaram ao qualifying sabendo que o acesso ao quadro principal é difícil, mas não impossível. Em termos competitivos, a qualificação de um Grand Slam aproxima-se muitas vezes do ambiente dos torneios Challenger de topo, o que reduz a distância psicológica entre estes jogadores e o objetivo imediato. Dos três jogadores, Jaime Faria é o único que não foi eliminado no qualifying.Corretja acredita precisamente nesse processo gradual. Sobre Jaime Faria, admite já ter observado um jogador “sólido” e difícil de bater, mas insiste que o crescimento depende da capacidade para acreditar. “Têm de passar por este caminho de processo, de experiência, de acreditar que eles também podem”, explica, lembrando que, na qualificação de um Grand Slam, muitos adversários ocupam um ranking semelhante àquele que os portugueses enfrentam durante o ano. No quadro feminino, a presença de Francisca Jorge e Matilde Jorge acrescentou outra dimensão ao momento do ténis português. Mesmo sem o mediatismo dos grandes nomes do circuito WTA, a presença de duas jogadoras portuguesas no universo competitivo de Roland Garros representa um sinal de maturidade estrutural. Ainda longe de discutir rondas avançadas, as irmãs entraram no qualifying sobretudo para acumular experiência e perceber o nível de exigência do circuito internacional. Francisca não conseguiu passar da primeira ronda. Matilde foi eliminada na segunda.Corretja vê no desenvolvimento do ténis português uma evolução semelhante àquela que Espanha viveu noutras décadas, embora com limitações estruturais. “Não é uma questão de haver mais ou menos academias, é que tenham qualidade de treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas, psicólogos e médicos”, sustenta o espanhol, defendendo uma visão mais global do desenvolvimento competitivo..Jaime Faria junta-se a Nuno Borges no quadro principal de Roland Garros.Reviravolta épica na mais longa final de Roland Garros vale segundo título a Carlos Alcaraz