"Temos de começar a preparar o Mundial 2030": Rodrigo Cavaleiro pede segurança e acolhimento para os adeptos
O Mundial de 2030 ainda está a alguns anos de distância, mas a preparação para receber adeptos em Portugal, Espanha e Marrocos tem de começar desde já. A segurança dos eventos, a prevenção da violência e a qualidade da experiência dos espectadores são algumas das prioridades apontadas por Rodrigo Cavaleiro, presidente da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto (APCVD), no balanço da quarta edição do S4Congress, coorganizado com a Câmara Municipal de Viseu.
"Quanto mais depressa tomarmos consciência de que temos aí um longo caminho de preparação até 2030, melhor", afirma. Para o responsável, o Mundial será uma oportunidade para elevar a qualidade da organização dos eventos desportivos, mas exigirá atenção a desafios que não existiam quando Portugal recebeu o Euro 2004. A experiência acumulada nessa competição é uma vantagem, mas não permite acomodar-se.
"Não podemos ser complacentes e achar que, porque as coisas correram bem nessa altura, até porque os desafios hoje são outros, não temos de recordar a toda a gente qual é o modelo, o que se pretende e quais são os princípios de intervenção", sublinha Cavaleiro. O S4Congress, promovido pela APCVD em coorganização com o Município de Viseu, decorreu nos dias 27 e 28 de outubro, no Pavilhão Multiusos, com um formato que procurou aproximar os debates da prática.
O presidente da APCVD faz um balanço "francamente positivo" da edição, que contou com "à volta de 550 pessoas" no primeiro dia. A mudança para um espaço maior e a aposta em formatos mais dinâmicos permitiram, diz, alargar a participação e diversificar os temas. Entre eles estiveram a segurança na Fórmula 1, os desafios das competições não profissionais e a preparação para o Mundial de 2030.
No futebol, que representa mais de 90% dos incidentes registados pela APCVD, a evolução não é igual em todos os escalões. "Os dados a nível das competições profissionais, ao longo das duas últimas épocas, apontam para uma redução significativa", explica. Essa descida tem impacto no número global de ocorrências, mas não elimina as preocupações com o futebol de formação e com os jogos não profissionais.
Nesses contextos, a capacidade de detetar incidentes é mais limitada, sobretudo quando não há presença policial. A informação de que a APCVD dispõe depende muitas vezes das comunicações dos clubes, de casos noticiados pela comunicação social ou dos relatos apresentados pelos responsáveis de segurança dos promotores dos eventos. A autoridade quer reforçar esse reporte e, para Cavaleiro, o congresso também serve para formar os agentes que estão no terreno.
O objetivo, contudo, não se esgota na aplicação de sanções. As interdições de acesso aos recintos e outras medidas de controlo são importantes, reconhece, mas a transformação mais profunda passa pela prevenção e pela melhoria dos serviços prestados aos adeptos. "A grande transformação, e a que leva tempo, faz-se ao nível da prevenção, ao nível da melhoria da qualidade dos serviços. É um aspeto essencial para fazer decrescer a tensão."
Essa mudança exige o envolvimento de clubes, federações, escolas, municípios e forças de segurança. Cavaleiro destaca o trabalho desenvolvido com a PSP e a GNR, incluindo através do programa Escola Segura, e a cooperação com a Liga Portugal e a Federação Portuguesa de Futebol. Também aponta o projeto "12.º Jogador", que leva conteúdos preparados por várias entidades às escolas, e o concurso de curtas-metragens "Cria a Tua Cena, Inspira a Mudança", dirigido a alunos.
"Hoje vemos clubes, mesmo não profissionais, preocupados com a componente de receber bem, o que para nós é uma vitória", afirma. Ainda assim, considera que "ainda temos um longo caminho pela frente". A formação dos gestores de segurança é uma das ferramentas para chegar aos clubes: o curso de base, em formato online, já conta com cerca de 15 mil formandos, segundo o presidente da APCVD. É uma formação introdutória, explica, que permite divulgar regras e aproximar a autoridade de quem organiza os eventos.
Na preparação para 2030, um dos pontos centrais será assegurar que os adeptos encontram regras compreensíveis e uma experiência coerente ao atravessar as fronteiras entre os três países organizadores. "Nenhum adepto compreende porque é que, quando há este tipo de organizações, quando passa de um país para o outro, as coisas mudam drasticamente", observa.
Cavaleiro reconhece que existem diferenças legais e culturais entre Portugal, Espanha e Marrocos, mas defende que se deve procurar "garantir uma experiência do adepto que seja o mais constante possível". Para isso, considera essencial comunicar com antecedência o que é permitido e o que não é. "Muitos problemas partem precisamente quando isto não acontece, quando as pessoas não sabem que estão a ultrapassar determinados limites."
A mobilidade dentro do espaço europeu será outro desafio. No Euro 2004, Portugal suspendeu temporariamente a aplicação da Convenção de Schengen, permitindo um maior controlo nas fronteiras para filtrar adeptos de risco. Em 2030, a cooperação policial internacional será uma das ferramentas disponíveis, mas a circulação entre países exige planeamento articulado.
A preparação também terá de acompanhar ameaças mais recentes. Cavaleiro refere a possibilidade de desafios lançados por influenciadores, o discurso de ódio nas redes sociais e as perturbações causadas por ciberataques. "Há todo um conjunto de fenómenos novos a que temos de estar atentos", diz, defendendo que é preciso observar o que acontece noutros torneios e trabalhar para reduzir esses riscos.
O S4Congress deste ano incluiu sessões sobre as aprendizagens do Mundial de 2026, a mitigação do risco, a gestão de situações de crise e os desafios da segurança nas competições não profissionais. Para Cavaleiro, encontros como este ajudam a "marcar a agenda" e a pressionar as entidades a avançarem com o trabalho necessário. A preparação para 2030, conclui, não depende apenas dos grandes estádios: começa também nos recintos locais, na prevenção e na forma como os adeptos são recebidos.

