Telma Monteiro acredita no Benfica, Fernanda Ribeiro confia no Porto. Clássico visto pelas campeãs
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Telma Monteiro acredita no Benfica, Fernanda Ribeiro confia no Porto. Clássico visto pelas campeãs

Antes do Benfica-Porto, a judoca benfiquista e a atleta portista cruzam previsões, humor e memórias do desporto.
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O clássico entre Benfica e FC Porto deste domingo pode ter peso decisivo nas contas do campeonato. O Benfica entra em campo com a necessidade de vencer para encurtar distâncias para os primeiros lugares, enquanto o FC Porto procura consolidar a liderança. Fora das quatro linhas, o jogo também se vive com intensidade entre duas medalhadas olímpicas portuguesas que representam, cada uma à sua maneira, o espírito competitivo do desporto nacional: Telma Monteiro, benfiquista assumida, e Fernanda Ribeiro, histórica atleta do FC Porto.

A judoca Telma Monteiro, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 e uma das atletas mais tituladas da história do judo português, não esconde o otimismo com que encara o clássico. Mesmo tendo recentemente encerrado a carreira de alto rendimento, mantém intacta a paixão pelo clube que representou durante muitos anos.

“Eu sou uma pessoa otimista por natureza”, diz. “Sou aquela adepta que acredita sempre que podemos vencer. Ainda para mais jogando em casa, acho que temos essa vantagem e acredito que podemos ganhar o jogo.”

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Do outro lado da rivalidade surge Fernanda Ribeiro, campeã olímpica dos 10.000 metros em Atlanta 1996 e uma das figuras mais marcantes do atletismo português. Portista assumida, não hesita quando questionada sobre o desfecho que espera para o clássico.

“Claro que eu quero que ganhe o Porto”, afirma. “Tenho muito respeito pelo Benfica e por todos os clubes, mas quero que seja o Porto a ganhar e que se afaste mais um bocadinho.”

Enquanto Telma Monteiro vê no jogo uma oportunidade para o Benfica se aproximar da frente da classificação, Fernanda Ribeiro olha para a liderança portista como um sinal de confiança para o que resta do campeonato. “Enquanto o Porto está lá em cima, eu acredito que pode ser campeão”, sublinha. “Claro que isto só acaba no fim, mas acredito.”

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A diferença entre as duas campeãs não se resume apenas ao clube do coração. Também a forma como vivem o futebol é bastante distinta.

Telma Monteiro gosta de sentir o ambiente do estádio e de viver os jogos com intensidade. “Estar no estádio é completamente diferente. O ambiente, o estádio cheio, aquela emoção… eu festejo muito”, conta. “Mas sempre pela positiva. Não tenho aquela tendência de ofender árbitros ou adversários. Gosto de canalizar a energia de uma forma positiva.”

Fernanda Ribeiro, pelo contrário, prefere manter distância do momento do jogo.

“Eu não vejo futebol”, admite. “O futebol põe-me nervosa. Nem vejo o Porto nem a seleção. Sei dos resultados, mas estar a ver o jogo deixa-me demasiado nervosa.”

No domingo, provavelmente seguirá o clássico à distância — ou melhor, através do ambiente que se sente à volta. “Normalmente estou em casa e ouço os vizinhos a gritar”, explica, entre risos. “E aí percebo quando há um golo.”

Apesar da rivalidade clubística, as duas atletas partilham um percurso comum: ambas alcançaram feitos históricos para o desporto português e continuam ligadas ao mundo desportivo mesmo depois de terminarem as carreiras competitivas.

Telma Monteiro vive agora uma nova fase dentro da estrutura do Benfica, depois de mais de duas décadas dedicadas ao judo de alto rendimento. A mudança de papel tem sido desafiante. “Quando somos atletas é um processo muito sobre nós próprios, mais individualista”, explica. “Do outro lado é muito mais sobre dar aos outros, é mais abrangente. Tem sido um desafio diferente, mas também uma forma de crescer.”

Fernanda Ribeiro, por sua vez, continua ligada ao atletismo através da sua academia e de projetos de formação destinados aos mais jovens. “Tenho a minha academia e continuo a trabalhar com jovens”, conta. “Não é fácil arranjar apoios para a formação, porque já é difícil no futebol e nas outras modalidades ainda mais, mas vamos andando.”

Apesar de hoje estar focada nesse trabalho, não fecha a porta a um eventual regresso ao clube que marcou a sua carreira. “Estive 20 anos no Futebol Clube do Porto e as medalhas todas que ganhei foram pelo Porto”, recorda. “Se aparecer um projeto de que eu goste, estou sempre disponível.”

A rivalidade entre Benfica e Porto surge também em tom bem-humorado quando a conversa passa para promessas e desafios. Questionada sobre o que faria para ver o Benfica campeão, Telma Monteiro responde com uma proposta inesperada. “Se eu fosse capaz, correria uma meia-maratona para o Benfica ser campeão.”

Fernanda Ribeiro, especialista em corridas de fundo e meio-fundo, aproveita imediatamente para responder ao desafio. “Eu fazia mais depressa a meia-maratona para o Porto ser campeão do que fazia judo”, diz, entre gargalhadas. “Se ela quiser, combinamos e fazemos as duas.”

No entanto, quando se fala de prognósticos concretos para o jogo, a campeã olímpica portista prefere manter a ambição moderada. “Eu já ficava contente se fosse por um a zero.”

O clássico joga-se também num contexto simbólico, já que decorre no fim-de-semana do Dia Internacional da Mulher. Para duas mulheres que marcaram o desporto português, o tema da visibilidade do desporto feminino surge naturalmente na conversa.

Telma Monteiro reconhece progressos importantes, mas considera que ainda há muito trabalho a fazer. “Hoje há muito mais destaque, sobretudo no futebol feminino”, observa. “Mas ainda há um caminho grande para percorrer. O facto de se falar mais e de se dar importância tem resultado, mas é um processo contínuo.”

Fernanda Ribeiro partilha a mesma visão e recorda as dificuldades que encontrou quando iniciou a carreira. “Está muito melhor do que quando eu comecei”, lembra. “Naquela altura até era insultada por correr. Hoje já é diferente, mas ainda se notam algumas diferenças em algumas modalidades.”

Entre a confiança encarnada de Telma Monteiro e a esperança azul e branca de Fernanda Ribeiro, o clássico deste domingo ganha assim um olhar especial vindo de duas campeãs olímpicas que conhecem como poucos o significado de competir e ganhar.

E se o resultado continuará a dividir benfiquistas e portistas, pelo menos numa coisa parecem estar de acordo: aconteça o que acontecer este domingo, a rivalidade pode muito bem continuar… numa meia-maratona.

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