Luis Suárez, avançado colombiano do Sporting, é o rei dos marcadores do futebol português esta época, com 24 golos na I Liga (mais nove noutras competições) e uma cadência média de um remate certeiro a cada 88 minutos. Quem mais se aproxima do ritmo do cafetero nos campeonatos nacionais é… Sacra. Quem? José Sacramento, avançado do Sport Benfica e Castelo Branco, que necessita, em média, de 99 minutos para marcar um golo: leva 19 em 1890 minutos na Série C do Campeonato de Portugal.Na melhor fase da temporada, entre outubro e fevereiro, o avançado de 26 anos natural de Oliveira de Azeméis chegou mesmo a ter uma média inferior a um golo a cada 80 minutos. Tem abrandado nos últimos jogos e ainda faltam disputar dois encontros da fase regular, além de toda a fase de subida à Liga 3, mas já igualou o registo do melhor marcador do Campeonato de Portugal na temporada passada: Pedro Martelo, que faturou por 19 vezes pelo Leça.Em termos absolutos, Sacra é o quarto melhor marcador dos campeonatos nacionais esta época, atrás de Suárez, do benfiquista Pavlidis (21) e de André Clóvis do Académico de Viseu (20), um feito assinalável para um jogador de uma equipa que surpreendentemente é a segunda classificada de uma das séries do quarto escalão do futebol português. “Suárez e Pavlidis jogam em equipas grandes. Estar no meio desses nomes, ninguém me conhecendo… perguntam quem é este Sacra e vão ver o meu nome. Acaba por ser sempre positivo”, disse o atacante ao DN.. Tudo ou nada na Beira BaixaFormado na Oliveirense, Sacra tem percorrido vários clubes da região de Aveiro, nomeadamente Cesarense, Estarreja, Beira-Mar e Recreio de Águeda, sempre nos campeonatos distritais. Paralelamente, tirou o curso de gestão, área que deixou para trás. No verão do ano passado, tomou a “decisão difícil” de sair de casa para correr atrás do sonho na Beira Baixa. “A época está a ser uma surpresa para mim, não estava à espera. Fui para longe de casa numa última tentativa de fazer alguma coisa pela minha carreira”, contou o atacante, que teve o apoio dos progenitores: “Tive muita sorte nos pais que tive, foram pessoas que sempre me apoiaram. Esta mudança não foi fácil para a minha mãe, estava habituada a ter-me por casa.”E mesmo já em Castelo Branco, não teve impacto imediato. Só conquistou a titularidade e começou a marcar à quinta jornada, no final de setembro. Não sendo alto (1,75 m), tem-se sentido confortável a jogar num sistema com dois avançados (inicialmente 4x4x2 e agora 3x5x2), que tira máximo proveito das suas características: “Gosto de jogar entrelinhas, aproveitar o espaço nas costas da defesa, sou agressivo e forte no jogo aéreo apesar da minha altura, sou rápido e forte dentro da área e não gosto de me dar aos defesas.”Apesar da veia goleadora exibida, não é um especialista de longa data na função de ponta de lança. “Eu era extremo, mas na primeira temporada no Águeda [2023-24] o mister Artur [antigo jogador de Beira-Mar, Marítimo e Arouca] começou a meter-me a ponta-de-lança. Sempre gostei da posição, é a minha preferida. Não gosto de passar o jogo todo na linha”, contou o atacante, que já superou os 16 que marcou pelos aguedenses na época passada, até então a melhor da carreira.Com Cristiano Ronaldo como principal inspiração, “pela mentalidade dele”, está focado em ganhar os dois jogos que restam disputar na fase regular no Campeonato de Portugal para depois “desfrutar da fase de subida”. Por gratidão ao Benfica e Castelo Branco decidiu ficar no clube em janeiro, quando recebeu propostas do estrangeiro e abordagens vindas da II Liga e da Liga 3, e diz que “já valeu a pena”, pois tem estado a “gostar bastante” dos albicastrenses. Ainda assim, assume que o objetivo é dar o salto. “Mas não sei que salto vai ser esse”, admite o avançado, que vê no percurso de Cláudio Braga, atacante que andou nas divisões secundárias e que hoje é goleador na Premier League escocesa ao serviço do Hearts, “um exemplo a seguir”.