Rui Câncio quer cinco medalhas nos mundiais de canoagem e admite que orçamento limita a seleção
A seleção portuguesa de canoagem prepara-se para disputar, entre 22 e 25 de outubro, o Campeonato do Mundo de maratona, em Gualeguaychú, na Argentina. Rui Câncio acredita que a equipa pode voltar a lutar por várias medalhas, mas aponta uma limitação que condiciona a convocatória: a disponibilidade financeira para levar mais atletas. “Pelo menos, tentarmos vir com cinco medalhas, ou até mais”, afirma o selecionador nacional. Portugal conquistou cinco pódios na edição de 2025, três deles de ouro, e Câncio quer que a equipa lute pelos títulos alcançados nesse campeonato, na Hungria. “No mínimo, igualar o número de medalhas do ano passado”, resume.
O Mundial terá lugar num percurso que sofreu alterações depois de as chuvas terem feito subir o caudal do rio. Para Câncio, essa mudança não diminui as possibilidades portuguesas. “As alterações são para todos. Temos todos de nos adaptar a situações novas, mas não será por isso que as coisas vão deixar de correr bem ou mal”, diz. A equipa, assegura, já recuperou de uma viagem longa e de problemas com os transportes à chegada e está preparada para competir.
Na maratona, a adaptação pode ser decisiva. As condições da água e do vento variam, tal como o ritmo e os incidentes de corrida, e as portagens — os momentos em que os atletas saem da água e transportam os barcos por terra — exigem preparação repetida. “Quando chega a hora da prova, num campeonato do mundo, não se pode pensar como é que vou fazer. Já está automatizado”, explica o selecionador. “É muito treino, muita repetição para que, numa última portagem, nada falhe.”
Câncio antecipa que várias provas se decidam nos metros finais. A diferença pode estar em sair melhor da última portagem, colocar o barco à frente e resistir ao sprint dos adversários. “Muitas vezes, a nível físico, a diferença não é praticamente nenhuma. Está na abordagem psicológica, no querer e no foco”, afirma. Nos momentos de maior sofrimento, acrescenta, “é preciso acreditar: ‘Eu consigo, eu sou capaz.’”
Um dos focos da equipa será Fernando Pimenta, que, ao lado de José Ramalho, tenta conquistar o quinto título mundial consecutivo em K2. Se vencerem, os portugueses serão a primeira dupla a alcançar essa sequência na canoagem de maratona. Para Câncio, a ligação entre os dois resulta da ambição, da disciplina e de uma compreensão comum da modalidade. “Nem sempre dois bons atletas no K1 dão um bom K2. Eles encaixam muito bem.”
O selecionador destaca ainda a capacidade de Pimenta para competir em diferentes distâncias e modalidades. “É um atleta fora do normal, que ganha provas de três minutos e depois consegue ser campeão do mundo em provas de duas horas.” A participação na maratona surge depois de uma época longa, que incluiu os Mundiais de velocidade, em agosto. “Fez uma pausa para recuperar e carregar as baterias. Agora está na Argentina a tentar ser outra vez campeão do mundo.”
A presença de atletas consagrados também pode ajudar os mais novos, defende Câncio. Em vez de intimidar, a convivência com Pimenta, Ramalho e outros nomes experientes deve funcionar como estímulo e aprendizagem. “É um exemplo a seguir e uma mais-valia”, diz. “É um orgulho estes jovens poderem partilhar experiências e histórias com eles.”
A formação da equipa, porém, começa por uma conta que não é desportiva. “Infelizmente, acima de tudo, é a disponibilidade financeira”, reconhece. Depois de conhecido o orçamento, Câncio recorre a uma grelha que reúne os tempos das provas de seleção para avaliar a competitividade dos barcos. A experiência e o comportamento dos atletas também podem pesar. “Se pudesse, em vez de levarmos dez, trazia 40 ou 50 atletas. Mas, muitas vezes, com sete, oito ou nove, conseguimos melhores resultados. Já perdemos atletas e bons resultados porque não é possível levar todos.”
Portugal chega à Argentina depois de ter conquistado dez medalhas no Europeu de maratona, em junho, na Roménia. Para Câncio, esse resultado confirma a qualidade do trabalho desenvolvido nos clubes, com quem diz manter uma articulação regular. “Não há métodos perfeitos para fazer campeões. Há várias maneiras de chegar ao topo da montanha”, afirma. “O que faz a diferença continua a ser a dedicação e a disciplina.”

