A Primavera do ciclismo tem a sua coroa no domingo, com a edição 123 da Paris-Roubaix, a segunda clássica monumento mais antiga do mundo, criada em 1896, três anos depois da decana Liège-Bastogne-Liège. O epíteto de ‘Inferno do Norte’ não é um exagero, uma vez que a prova acumula mais de 258 quilómetros e passa por 30 setores em paralelo, tendo, muitas vezes, chuva para complicar a tração. Quando fica seco, o percurso passa a ter longos quilómetros de pó que afetam a visibilidade. Para ciclistas habituados ao asfalto, rumar ao empedrado é um pesadelo e isso tem justificado que, desde os anos de 1980, a maioria dos candidatos a ganhar a Volta a França opte por ficar fora desta corrida de um dia. Mas Tadej Pogacar, considerado o melhor corredor da sua geração, quer candidatar-se a ser o melhor de sempre. No empedrado que é propositadamente deixado por arranjar, por ser também uma homenagem aos caídos nas batalhas na II Guerra Mundial em França e Bélgica, o esloveno candidata-se a ser o primeiro no século XXI a ganhar as cinco principais clássicas monumento e a tornar-se o quarto, em toda a história, a consegui-lo. Em 2025, Pogacar seguiu os movimentos certos, andou atrás de Mathieu van der Poel até uma queda derrubar o sonho de chegar em condições de ganhar ao velódromo de Roubaix, cidade com 96 mil habitantes no norte de França que se transforma na Meca do ciclismo em abril. Ficou no pódio. No ano passado, venceu a Liège e a Lombardia, e em 2026 arrancou para ser conquistador da que prometia ser mais difícil, a Milão-Sanremo, vencendo, na passada semana, a Volta a Flandres. Já é o primeiro a vencer quatro monumentos seguidos, pode completar a façanha, que parecia loucura, de conquistar as cinco provas em 12 meses.Rui Oliveira aborda a estratégia e o sonho de militar na equipa do eslovenoPogacar terá a particularidade de ter dois portugueses no elenco: António Morgado e Rui Oliveira. O primeiro estreou-se com um quinto lugar na Volta a Flandres de 2024. Rui Oliveira esteve na primeira e terceira conquistas da Flandres e vai estar na terceira Paris-Roubaix, pela primeira vez com a noção de que tem equipa para ganhar. “A Paris-Roubaix é a única corrida que lhe falta, sabemos que tem tudo de correr bem, porque é uma prova muito complicada nos setores. Basta um furo, uma queda. Se é verdade que é mais difícil para Pogacar ganhar do que na Flandres, porque é toda plana, mostrou que está em grande condição com a vitória em Sanremo”, diz o gaiense que foi apelidado por Pogacar de ‘guia’. “Vou tentar posicioná-lo nos primeiros setores, depois o António Morgado, o Vermeersch e o Nils Politt ficarão com ele mais para a frente”, detalha ao DN o campeão olímpico de pista em madison, em 2024, eufórico por poder fazer parte da história do ciclismo. “É das corridas mais especiais, com mais história, sempre foi a corrida que via desde pequeno. Tenho a primeira oportunidade de trabalhar para que um líder vença porque tem todas as condições para discutir a corrida até ao fim. Seria histórico, uma conquista enorme”, relata, confiando que “não haja chuva” e identificando que é necessário o “equilíbrio na bicicleta” porque “se os pneus tiverem pouca pressão andam melhor no paralelo, mas sofre-se no asfalto”, adiantando que até o peso é importante. “É uma corrida que exige muita força, é muito melhor estar com um quilo e meio ou dois a mais do que numa Grande Volta”, sublinha, identificando a dificuldade nos últimos 30 anos de os voltistas, que são mais leves, poderem discutir a corrida. O ciclista português revela ainda que depois de Sanremo e da Flandres, “nem se fez grande festa”, porque há logo “voos para apanhar”.Pogacar espera celebrar no chuveiro antigo e enferrujado a conquista de Roubaix. Sonha levantar o pesadíssimo paralelepípedo que coroa o vencedor da corrida, sabendo que tem de evitar ir ao sprint com o amigo e rival da Alpecin, Mathieu van der Poel, que pode tornar-se no primeiro a vencer quatro vezes seguidas a prova e apenas o segundo a ganhar por quatro vezes..Tadej Pogacar ganha pela primeira vez a Milan-Sanremo.Ciclismo. Em busca da imortalidade, Pogacar precisa de ganhar Sanremo e de evitar o sprint de Van der Poel