No próximo dia 25 de abril de 2026, enquanto Portugal assinala mais um aniversário da Revolução e o Nepal recorda os 11 anos do devastador terramoto de Kathmandu, Pedro Queirós prepara-se para iniciar uma corrida de 180 quilómetros sem parar, ao redor do Lago Léman, na Suíça. O desafio terá partida e chegada junto ao Comité Olímpico Internacional, em Lausanne, e pretende angariar 10 mil euros para cinco causas sociais em diferentes geografias. Mais do que um feito físico extremo, trata-se de um gesto simbólico que procura afirmar o desporto como linguagem universal de solidariedade.“Vou correr 180 quilómetros seguidos e os últimos 42 serão descalço. Esta será a minha forma de homenagear o espírito olímpico e todos aqueles que sofrem às mãos de injustiças em Portugal e no mundo inteiro”, explica o atleta. A iniciativa marca o regresso de Pedro Queirós às chamadas “aventuras humanitárias” depois de ter anunciado uma pausa. O impulso nasceu de uma inquietação interior que não conseguiu ignorar. “Apesar das mazelas físicas que me perseguem, não posso virar a cara ao chamamento que tenho vindo a sentir. O mundo está a tornar-se um lugar perigoso, cheio de ódio e agressividade. Precisamos de esperança, resiliência e amor”, afirma. Para o lisboeta de 44 anos, o desporto continua a ser o instrumento mais eficaz para mobilizar pessoas em torno de causas comuns. “Utilizo o desporto como uma linguagem universal de solidariedade e de união entre as pessoas”, sublinha, defendendo que o esforço físico pode transformar-se em ferramenta concreta de intervenção social. A história que conduz a este desafio começou em abril de 2015, quando Pedro Queirós chegou a Kathmandu na véspera do terramoto que destruiu grande parte da capital nepalesa. A experiência mudou radicalmente o seu percurso pessoal e profissional. “Na manhã do dia seguinte ao meu primeiro dia no Nepal o país foi atingido por um terramoto devastador. Assistimos a uma tragédia imensa, com milhares de mortos e milhões de edifícios destruídos. Foi um apocalipse total”, recorda.Sem estrutura institucional, decidiu agir com os meios disponíveis. “Com as nossas próprias mãos e com os fundos que tínhamos na conta começámos a ajudar. Fizemos um apelo pelas redes sociais e chegámos a apoiar 350 pessoas num campo deslocado que criámos. Construímos centenas de casas”, relata. Foi nesse contexto que nasceu o projeto humanitário que viria a acompanhar toda a década seguinte. “Esse momento foi o rastilho para tudo aquilo que tenho vindo a fazer nos últimos dez anos. Percebi que não podia simplesmente voltar à vida anterior e esquecer aquelas crianças.”A partir daí, o desporto passou a assumir um papel central na sua intervenção solidária. “Decidi que não queria deixar de ajudar aquelas crianças e comecei a usar outra das minhas grandes paixões, que é o desporto, para recolher fundos.”.A primeira fase desse percurso fez-se nas montanhas. “Comecei por escalar picos de cinco mil metros, depois seis mil, depois sete mil. Fui aprendendo com os erros e a conhecer os limites do corpo.” O culminar dessa trajetória aconteceu em 2022, quando se tornou o sexto português a atingir o topo do Monte Evereste. “Quando subi o Evereste consegui recolher fundos suficientes para apoiar 25 crianças nos seus estudos. Para mim, cada subida tem de ter uma aplicação prática na vida das pessoas”, afirma.Em paralelo, desenvolveu ainda mais o gosto pelo atletismo. “Eu sempre fui apaixonado pela história do Carlos Lopes e da Rosa Mota. Cresci com essas referências, mas só comecei a correr aos 36 anos.” A progressão foi rápida. “Primeiro corri dez quilómetros, depois vinte, depois a maratona. Passei de quatro horas e meia para duas horas e 38 minutos. Foi um processo de descoberta.” E em 2024 levou esse processo a um extremo raro. “Corri 50 maratonas em 50 dias pelo Japão inteiro. Atravessei o país a correr e consegui apoiar projetos sociais em Portugal com os fundos recolhidos.”A ligação entre esforço físico e solidariedade tornou-se a marca distintiva da sua intervenção pública. “O meu sacrifício transforma-se depois em educação, em bolsas de estudo, em cimento, em tijolos. É assim que passo das palavras à ação.” Entre os desafios mais exigentes esteve a tentativa de realizar 100 maratonas em 100 dias para angariar 100 mil euros destinados à construção de uma escola e ao apoio a iniciativas de diálogo entre israelitas e palestinianos. “Queria fazer algo que considerasse impossível, pela superação do espírito humano e pelo altruísmo. Queria mostrar que a paz se constrói criando pontes, através do diálogo e do perdão”, explica.Durante essa travessia encontrou apoio inesperado ao longo do caminho. “As pessoas ofereciam-me comida e dormida. Conheci gente extraordinária em vários países. Foram dias inesquecíveis.” Num dos momentos mais simbólicos dessa jornada recebeu um telefonema inesperado. “Estava a chegar ao Porto quando recebi uma chamada. Era a Rosa Mota a dizer que estava à minha espera debaixo da ponte de Leixões. Isto é material de sonhos.”.O novo desafio de 180 quilómetros inclui um momento particularmente simbólico: os últimos 42 quilómetros serão percorridos descalço. “Quero concretizar um sonho antigo inspirado no Abebe Bikila, que ganhou a maratona olímpica descalço em 1960. Também recordo a Zola Budd, que bateu o recorde mundial dos 5.000 metros sem sapatilhas. Para mim, correr descalço é voltar a pôr literalmente os pés no chão.” Mais do que um gesto técnico, trata-se de uma mensagem. “Os meus objetivos aqui são solidariedade, superação e empatia num mundo que anda cheio de medo e agressividade.”O percurso terá início e fim junto ao Comité Olímpico Internacional, instituição que acompanha o projeto com interesse. “Fui apresentar o desafio e disseram-me que me vão receber à chegada. É importante que o desporto institucional também reconheça estas iniciativas.”Os fundos angariados serão distribuídos por cinco organizações: Dreams of Kathmandu, APAV, Associação Corro pela Maria, Mundu Nôbu e EMI-Afrika+. Cada uma representa uma dimensão distinta do compromisso social do atleta. “No Nepal quero continuar a apoiar bolsas de estudo para crianças. Em Portugal quero contribuir para o trabalho da APAV, porque tenho uma grande sensibilidade face às vítimas de violência doméstica e desigualdade de género.”Outra das causas é particularmente próxima do seu círculo pessoal. “A Associação Corro pela Maria foi criada por uma amiga, cuja filha tem síndrome de Rett. É uma doença raríssima e sem cura. Este projeto mobiliza muitas famílias e merece todo o apoio.”.Também a educação e a inclusão social em bairros desfavorecidos fazem parte da intervenção. “A Mundu Nôbu trabalha com adolescentes e ensina literatura, arte e desporto. A educação é aquilo que nos permite evoluir dentro do nosso contexto.” Em África, o desporto surge novamente como porta de entrada para a transformação social. “A EMI-Afrika+ usa o basquetebol e o futebol para atrair crianças e depois fala-lhes de nutrição, planeamento familiar e educação. É um trabalho extraordinário.”Ao longo de todos estes projetos, Pedro Queirós mantém uma convicção constante: o desporto aproxima pessoas que de outra forma dificilmente se encontrariam. “Desafio as pessoas a correr comigo, a partilharem vídeos, a participarem. No fundo, o objetivo é criar uma comunidade em torno de valores positivos.” Essa dimensão coletiva é central na sua visão do papel do atleta na sociedade contemporânea. “Eu acredito que não existem limites para os nossos sonhos. Mesmo quando parecem impossíveis, podemos torná-los realidade com trabalho, preparação e as pessoas certas ao nosso lado.”A escolha do dia 25 de abril para iniciar a corrida não é coincidência. “É uma data simbólica para Portugal e também para o Nepal. Queria que este desafio fosse uma ponte entre memórias, geografias e causas.” No final, o objetivo ultrapassa qualquer recorde pessoal. “Quero mostrar que ainda podemos unir pessoas à volta de uma causa comum. Se conseguirmos gerar empatia através do desporto, já valeu a pena.”