O treinador português Pedro Martins, atualmente a trabalhar no Qatar, descreve um ambiente de contenção e prudência no país, depois de o território ter sido envolvido na vaga de ataques com mísseis lançados pelo Irão e, entretanto, intercetados pelas defesas antiaéreas qatari. Apesar da tensão inicial, o técnico garante que, dentro do possível, a vida decorre com relativa normalidade e que a sensação dominante, entre a comunidade estrangeira, é de segurança controlada.Sobre o conflito no Medio Oriente, começou por relatar como está a situação, descrevendo o impacto dos primeiros momentos de maior tensão. “O primeiro dia foi um bocado preocupante, não escondo. Mas mesmo nesse momento em que houve o maior fluxo de explosões, de envios de mísseis por parte do Irão, no entanto também senti algum conforto, porque sentimos que as baterias antiaéreas no Qatar estariam a intercetar a grande maioria deles, e, portanto, deu-nos essa tranquilidade.”Segundo o treinador, a eficácia dos sistemas de defesa aérea foi determinante para atenuar o medo inicial. “Este é um dos mais avançados do mundo, e nesse aspeto, dentro do possível, houve alguma tranquilidade.” Ao longo dos dias seguintes, a perceção de risco foi diminuindo, sobretudo porque as interceções passaram a ocorrer mais longe da capital. “Por exemplo, esta noite só ouvi duas explosões, e as explosões já foram muito distantes. No início foram mais, intercetavam mais no espaço de Doha, agora já se consegue perceber que estão a fazê-los muito mais no exterior.”Apesar do contexto, Pedro Martins sublinha que a população mantém uma vida relativamente normal, ainda que com restrições. “Estamos a ser instruídos para não sair muito de casa, mas, por exemplo, eu, entretanto já treinei com a minha equipa num espaço indoor. Quando preciso de comida vou ao supermercado, e os supermercados são perfeitamente normais. Não temos a mesma liberdade que tínhamos antes, porque as pessoas normalmente ficam mais recatadas, mas continua tudo dentro do normal.”As autoridades emitiram orientações claras. “Sendo o alerta amarelo, devemos estar retidos em casa. Se houver uma situação mais grave ou urgente, para nos deslocarmos para caves, subcaves ou metros, se assim for o caso. Até ao momento não tivemos nenhum alerta a vermelho.”.Pedro Martins, de 54 anos, é um treinador experiente do futebol português, com passagens por clubes como o Vitória de Guimarães, o Rio Ave e o Marítimo, tendo alcançado maior projeção internacional ao serviço do Olympiacos, da Grécia, onde conquistou campeonatos e participou regularmente nas competições europeias. O treinador português está atualmente no comando técnico do Al‑Gharafa SC, que tem conduzido a resultados notáveis, incluindo um terceiro lugar que marcou a melhor prestação do clube em mais de uma década. No plano desportivo, o impacto foi imediato. As competições foram suspensas e vários jogos adiados, numa situação que o técnico compara à fase mais crítica da pandemia. “Nós jogámos no dia 26, no dia 28 esses dois jogos foram cancelados. Ontem era para haver os jogos da Champions Elite, também foram todos adiados. Não sabemos muito sinceramente quando é que vamos retornar. Provavelmente a nossa jornada seria no dia 6, acredito que vai ser adiada. Depois mais tarde irão organizar o campeonato, como fizemos um pouco na altura do Covid.”Quanto a deslocações internacionais, o espaço aéreo qatari encontra-se encerrado. “Neste momento está tudo fechado para sair. Sei que alguns portugueses saíram daqui via autocarro para a Arábia Saudita, porque lá ainda mantêm o espaço aberto, penso que Jeddah e Riade ainda mantêm o espaço aberto e podem voar. Mas aqui no Qatar está tudo fechado.”Pedro Martins mantém contacto regular com outros portugueses no país, incluindo profissionais ligados a companhias aéreas e ao setor energético. “Faço parte de um grupo da embaixada, tenho muitos amigos que, entretanto, também fiz amizades aqui, que estão nas mesmas condições.” O apoio mútuo tem sido importante, sobretudo nos primeiros dias. “Vários colegas meus vivem nas torres, e elas nesse aspeto não são tão seguras como as moradias que ficam entre as torres. Nós estamos a juntar-nos nessas moradias, porque é mais confortável mentalmente.”As escolas e a maioria dos serviços encontram-se encerrados, mantendo-se apenas os serviços essenciais. “Está tudo fechado. A única coisa são os serviços básicos: hospitais, supermercados e pouco mais. Mesmo a restauração praticamente está tudo fechado, embora tudo o que seja de hotel esteja aberto.”Apesar das limitações e da incerteza, o treinador garante que, para já, não pondera sair do país. “Eu não sinto essa insegurança. E mesmo que haja algum espaço aéreo aberto, não faço intenções de sair daqui. Enquanto eu me sentir desta forma. Há gente mais sensível, está mais assustada, eu percebo, compreendo perfeitamente. Tenho amigos que estão mais apreensivos, mas muito sinceramente neste momento não faço intenções de sair daqui porque para mim ainda há condições para continuar.”A gestão do grupo de trabalho tem sido feita com prudência e sensibilidade. “Ontem tivemos o primeiro treino. Por um lado, foi bom porque depois de quatro dias eles finalmente saíram de casa. Estamos a falar de pessoas habituadas à competição. Foi um treino indoor, não fomos para o campo. Foi bom para eles saírem desta rotina, mas senti o grupo um bocado desconfortável.” A principal preocupação dos jogadores prende-se com as famílias. “Todos eram unânimes: principalmente aqueles que têm filhos, a maior preocupação são os filhos, que se sentem mais apreensivos.”No caso do treinador português, a família direta encontra-se em segurança. “A minha esposa viajou para Portugal quando aconteceu isto, não estava cá. E os meus filhos fazem vida normal em Portugal.”.Nandinho é treinador no Bahrein e vive perto de base dos EUA. "Vejo fumo quando um alvo é atingido pelo Irão"