Paulo Fiuza é um dos nomes maiores do todo-o-terreno português e a prova disso está gravada na história do Dakar: foi o primeiro português a vencer a prova à geral. Navegador há 20 anos, começou nos kartings com o sonho de ser piloto, mas foi no banco da direita que encontrou o seu espaço, o rigor e a adrenalina que definem o desporto motorizado. Desde então, acumulou experiências com alguns dos melhores pilotos do mundo — entre eles o lendário Stéphane Peterhansel — e construiu uma parceria sólida com Vaidotas Zala, com quem disputa atualmente o Dakar.À partida para esta edição do Dakar, estavam à espera da classificação que tiveram, tendo em conta os adversários e as condições duras de prova?Claro que, quando nós partimos, queríamos sempre fazer melhor, mas sim, tínhamos a ideia do top 3, que era muito possível. A vitória, eu tinha pensado nela, mas, ao mesmo tempo, também achei que poderia estar um bocadinho longe ainda. Mas, com o decorrer da prova, vimos que era possível. Lutámos, atacámos quando tivemos de atacar e tivemos de proteger quando tínhamos de o fazer.Como é que o Paulo se sentiu, do princípio ao fim, mesmo estando a disputar os primeiros lugares? Vontade de desistir, vontade de superar? O que é que se vai sentindo? Desistir nunca, isso é contra os meus princípios. E quando tenho de desistir por algum problema, fico muito zangado e mesmo magoado comigo próprio. Mesmo não tendo culpa. A prova em si é das mais duras de todo-o-terreno, por isso é que é aquela prova mítica onde muita gente participa e só o simples facto de acabar é uma vitória. E isso para mim, ainda por cima por ter terminado e ter trazido o troféu, mais gratificante é. São 15 dias. Normalmente fazemos cerca de 800 a 900 quilómetros diários, dependendo das etapas, mas nunca abaixo disso. São muitas horas dentro do carro ou do camião. Para ter uma ideia, nós saímos sempre por volta das seis e meia. E nunca sabemos a hora que chegamos, porque se tivermos um problema no deserto temos de ficar lá ou tentar reparar para tirar o carro do deserto. Estamos sempre no mínimo 13, 14, 15 horas dentro do carro. E isso acaba por ser muito violento psicologicamente, não só fisicamente, mas psicologicamente?Sim, sim. Nós temos de estar preparados fisicamente e muito bem mentalmente, porque se mentalmente não estivermos bem, o físico também quebra e começa a descambar tudo. Começa tipo um baralho de cartas, tudo a desmoronar. .Há pessoas que quando ouvem falar em provas de carro com o navegador, nunca dão muita importância ao navegador. Na sua opinião porquê? Porque as pessoas desconhecem o que é que o navegador faz. As pessoas não têm noção, porque antigamente o navegador era chamado o pendura, começou nos ralis. Era assim: aquele piloto ia fazer uma prova, levava o amigo e o amigo acabava por ser o pendura. Depois foi evoluindo bastante e atualmente o navegador, na minha opinião, é a peça, especial no Dakar. O piloto tem de ser bom, tem de ser rápido, se não for rápido também não ganha etapas, mas o navegador é um bocado como no futebol - a equipa pode jogar muito bem, o guarda-redes pode defender os golos todos e depois a seguir dá um frango e é acusado de não ser um excelente guarda-redes ou de pôs em causa a equipa. E o navegador é um bocado isso. Nós podemos fazer um trabalho fabuloso, acertar em todos os waypoints e não perder nada, e depois na última etapa ter o azar de andar à procura de um waypoint e não conseguir dar com ele à primeira, e perder ali 10, 20, 30 minutos e acaba por comprometer tudo. Como é que surgiu esta parceria entre si e o piloto Vaidotas Zala? De um convite dele próprio, porque eu em 2020 tinha feito o Dalar com o Stefan Peterhansel, e ele corria de mini, eu na altura também corria de mini. Em 2021 surgiu o convite, ele ligou-me e fizemos o primeiro Dakar. A prova em si não correu bem porque desistimos, mas correu muito bem a nossa ligação, o nosso feeling dentro do carro foi muito bom. Há seis anos que estamos juntos e tem sido fantástico. E é para continuar?Espero bem que sim, pelo menos o próximo eu acho que sim, agora nunca sabemos o dia da amanhã, porque isto também tem a ver com patrocínios. Hoje, com dinheiro, tudo se faz.Nunca lhe passou pela cabeça inverter posições e passar a ser o piloto e ter um navegador? Quando era miúdo o meu sonho era ser piloto, não era ser navegador. Como todos os miúdos a ideia é sempre conduzir. Muita gente às vezes pensa e diz que o navegador é um piloto frustrado, mas não, eu quando comecei nas corridas, comecei nos kartings, mas depois percebi que para continuar no desporto motorizado era preciso muito dinheiro e patrocínios. Depois, com um amigo, sentei-me ao lado e de facto pensei: isto também é muito interessante. Porque não dedicar-me como navegador e ser um bom navegador? Tenho feito inúmeras corridas. Há 20 anos que estou como navegador e tenho um orgulho enorme por ser o navegador que sou.E de grandes pilotos. Já falou no Peterhansel. É o senhor Dakar, não é? É só o piloto com mais vitórias no Dakar. Na altura eu era contratado pela equipa oficial da Mini, que era a X-Ride, e eu era o navegador de serviço da equipa. Todos os pilotos novos que chegavam à equipa, era eu o responsável por os acompanhar nas provas internacionais como o Dakar e não só. E na altura o Peterhansel queria fazer o Dakar com a esposa, mas nos testes médicos foi detetado um problema. Como eu estava na equipa e já conhecia muito bem o Peterhansel, acabei por ir com ele. .É preciso ser um bocadinho, desculpe-me uma expressão, “louco” para participar com tanta frequência em provas tão duras como o Dakar? Sim, sim. Temos de ter um bocadinho de loucura. Se não tivéssemos um bocadinho de loucura também não nos sentávamos. As pessoas perguntam-me: mas tu sentas-te ao lado de uma pessoa que não conheces e não sabes como é que ela conduz? Sim, aí temos de ter aquele bocadinho de loucura. Mas sim, mas tenho de ter confiança a 100% na pessoa que vai ao lado a conduzir, como essa pessoa também tem de ter 100% de confiança em mim. Porque se eu estou a dizer que se é para a direita ou para a esquerda, ou é para travar ou para acelerar.Conversam muito quando vão em prova? Ou são só as indicações? Em prova estamos focados a 100%. Basicamente são só as notas. Porque se nós começamos a conversar de outra coisa, ou de uma paisagem, ou de um acidente que vimos, ou algum carro que esteja parado, em segundos o foco deixa de estar presente, e isso faz-nos perder logo ali um pouco a concentração. Quando acaba a etapa falamos, conversamos, de uma ou outra situação mais arriscada que tivemos.Já chegou ao primeiro lugar do Dakar, tem um percurso fantástico no desporto automóvel. O que é que deseja mais? Queria voltar a trazer mais um Touareg. Queria trazer mais um para casa. Se não tivermos objetivos, não temos paixão, não temos aquela vontade de fazer nada. Agora, claro que a fasquia está muito alta. Fui o primeiro português a ganhar um Dakar à geral. Na sua opinião, faz sentido que o Dakar volte a partir da Europa, está muito bem assim, ou devia voltar a África? O que é que acha que devia ser o Dakar daqui para a frente?Eu felizmente fiz os três, fiz a África, fiz a América do Sul e fiz a Arábia Saudita. Posso comparar. Neste momento está muito bem entregue na Arábia Saudita, temos pistas fabulosas, temos condições fabulosas. É um país com muito dinheiro, que apoia muito o desporto motorizado. Gostava muito de voltar a fazer um Lisboa-Dakar ou um Paris-Dakar, por ser aquela prova mítica de aventura. Mas os tempos mudam e vai ser muito difícil fazer novamente um Dakar a partir da Europa.O Paulo competiu nos camiões, mas houve pilotos portugueses em carros e em motos também. De alguma forma conseguiam comunicar uns com os outros?Sim comunicávamos porque todos os dias à noite, às 8 horas, tínhamos um briefing e estávamos todos juntos. E, claro, que um ou outro comentava o dia seguinte: amanhã a etapa vai ser um bocadinho mais difícil, vamos apanhar mais pedras, vamos apanhar mais dunas, areia, é difícil de passar, as dunas são altas... sim, comentávamos. Entre os portugueses há um bom ambiente. .Paulo Fiúza em camiões faz história no Dakar e SSV portugueses brilham na prova.Português Paulo Fiúza acompanha recordista Stéphane Peterhansel .Mais uma vitória luso-francesa. Peterhansel e Paulo Fiúza vencem nona etapa