Shaquille O’Neal ainda tinha mais 11 anos de carreira pela frente quando decidiu, aos 28, fazer uma pós-graduação em “Estudos Gerais”. “Adoro as aulas e detesto-as ao mesmo tempo, mas faço-o pela minha mãe que tem obsessão por educação”, disse a então estrela mais bem paga da NBA, ao serviço dos Los Angeles Lakers. Depois, ainda fez um MBA em Educação e no ano passado estudou Liberal Arts, na Universidade de Louisiana. Entretanto, o percurso académico de Shaquille pode passar de exceção a regra.Se, por ora, segundo números do site americano SportsRec de 2023, apenas 21% das estrelas da NBA, como Shaquille, concluem os respectivos cursos superiores, e, no basebol, o número é até menor, 4,3%, por oposição aos muito razoáveis 52% de “doutores” do futebol americano, a tendência está a mudar.É precisamente futebol americano que joga, e bem, Charley Hughlett, um dos mais bem pagos punters dos Philadelphia Eagles, da NFL. Hughlett, 35 anos, conversou com o Financial Times (FT) a propósito do MBA online que está a tirar o curso na Kelley School of Business da Universidade de Indiana, através de uma parceria com a Associação de Jogadores da NFL.“Em campo, as minhas tomadas de decisão são quase inteiramente reativas - o que se vê é o resultado de anos de repetição, construídos de forma a que a resposta seja automática”, disse. “Mas estudar análise de dados moldou a maneira como abordo a minha preparação, a análise acontece antes do jogo, no início da partida o planeamento já está concluído”, afirmou ao FT. Hoje, Hughlett é uma estrela, mas ele sabe que no desporto o que separa o sucesso do fracasso muitas vezes é um detalhe. “Levei três anos para entrar no plantel de 53 jogadores, sei que as carreiras neste mundo podem acabar a qualquer momento”, disse Hughlett. “Tirar um MBA enquanto ainda jogo foi uma questão de segurança a longo prazo, mas também de crescimento, só porque você atingiu um certo nível profissional não significa que deva parar de se preparar para o que vem a seguir.”A opção por um curso online e não presencial foi natural para Hughlett, assim como para outros desportistas ouvidos na reportagem do jornal britânico, que se queixam das viagens constantes, dos horários irregulares, dos períodos de recuperação repetidos, das mudanças de clube, às vezes de país, até de continente. Dries Van Meirhaeghe, que fez parte da equipa técnica do clube de futebol RWDM Brussels até ao final do ano passado, estuda online na Vlerick Business School. “Treinadores”, disse ao FT, “treinam quase exclusivamente táticas”. “No entanto, os clubes modernos atuam como organizações complexas, com pressões financeiras, projetos de infraestrutura e estruturas de propriedade sofisticadas”.“Se eu quiser crescer dentro desse ecossistema, tenho de entender mais do que apenas o campo”, afirma. Van Meirhaeghe diz que isso mudou a sua perspetiva e que agora pensa em estratégia financeira, cultura organizacional e ativos financeiros, além de só desportivos. O MBA permitiu que ele falasse a linguagem do recrutamento, das finanças e das operações. “Tenho uma forma”, concluiu, “mais holística de pensar”.NÚMEROS4,3%Nos desportos profissionais mais importantes dos EUA, o basebol é o que tem menos atletas com o Ensino Superior concluído. Na NBA, são 21%, na NFL mais de 50%.35Idade de Charley Hughlett, bem-sucedido jogador de futebol americano que iniciou mestrado em Gestão de Empresas por questão de “segurança a longo prazo”. 3O número de pós-graduações de Shaquille O’Neal em Estudos Gerais, Educação e Liberal Arts (ciências, artes, humanidades).